Clubes pequenos temem fechamento de portas com novo sistema da CBF

Guto Seabra
Colaboração para o UOL Esporte, no Rio de Janeiro

  • Junior Lago/UOL

    Clubes como Botafogo-SP, Guarani, ABC, América-RJ e Friburguense temem por medida

    Clubes como Botafogo-SP, Guarani, ABC, América-RJ e Friburguense temem por medida

Historicamente ricos, mas com o pires na mão na atualidade, clubes tradicionais do futebol brasileiro se veem sob risco de arriar as portas com a implementação do Sistema de Licenciamento de Clubes.

A CBF criou um grupo de estudos para padronizar a profissionalização dos clubes através de um caderno de encargos a ser cumprido gradativamente a partir de 2017. Aquele que não se enquadrar perderá a chancela e passará a ser amador – de acordo com a Federação Nacional de Atletas Profissionais de Futebol (FENAPAF), o Brasil tem 900 clubes tido como profissionais que, com a exigência, cairá para no máximo 250. Motivo, desde já, para gritaria e críticas à CBF.

"Como uma cidade como Ribeirão Preto, com 2 milhões de habitantes e um dos maiores PIBs, pode não ter time? Isso pode acontecer. O 7 a 1 (derrota do Brasil para a Alemanha na Copa do Mundo) não foi por acaso. O problema não está na quantidade, mas na qualidade. Depois, vão dizer que 200 clubes são muitos. Nós, clubes tradicionais, estamos sufocados", afirma o presidente Gerson Engracia, do Botafogo-SP.

Homem forte da CBF por 20 anos, Marco Antônio Teixeira, primo do ex-presidente Ricardo Teixeira, está na outra ponta da corda. Diretor de futebol do America-RJ, ele admite que só agora conhece as dificuldades de comandar um clube. Diariamente, lida com a falta de recursos e admite que o Sistema de Licenciamento de Clubes é o retrato de uma CBF que se relaciona apenas com 100 clubes. E vê no movimento a elitização do futebol brasileiro.

"Passei 20 anos na CBF. Hoje tenho ideia do futebol brasileiro. A CBF lida com 100 clubes apenas. Corresponde só a elite. Primeiro, para criar isso, tem que conhecer as federações, os estaduais, conversar com os representantes. A CBF deveria, antes de qualquer grupo, ter um diagnóstico do futebol brasileiro", diz Marco Antônio Teixeira. "Imagina o que acontecerá com o futebol em Roraima, que eu conheço. Acabará."

Campeão brasileiro de 1978, o Guarani mostra disposição para sobreviver diariamente. Já venceu um leilão no Estádio Brinco de Ouro da Princesa e tenta se reerguer nas quatro linhas. Atolado em dívidas, o clube de Campinas vê o rebaixamento de cerca de 700 clubes como uma medida até pouco inteligente para o Governo Federal – todos são devedores e, sem uma atividade atrativa, a quitação se torna praticamente impossível.

"A CBF deveria tratar todo mundo da mesma forma, não criar mecanismo para um clube sair do profissionalismo para o amadorismo. Muitos vão encerrar as atividades", critica o presidente Horley Senna. "Por que a Série C não é por pontos corridos? Porque a CBF só se interessa com ela, em não ter custos. Se a padronização vier para fortalecer, ótimo. Se vier para excluir, é uma decisão pífia."

Gestor do futebol do Friburguense, José Eduardo Siqueira, o Siqueirinha, solta o verbo contra a CBF. A equipe da região serrana do Rio de Janeiro amarga a ausência de um médico para profissional e base, faz o que pode para bancar a folha salarial de R$ 100 mil e batalha para continuar na Série A do Campeonato Carioca. Dificuldades que lhe fazem gritar por socorro e criticar a inexistência de um calendário que o permita planejamento anual.

"É uma elitização do futebol esse movimento. Qual a contra-partida que a CBF dá aos clubes? Dá ao menos uma estrutura de calendário? Só temos quatro meses de campeonato. Como projetar um ano se só jogo quatro meses? A exigência vem para você levantar a mão e pedir para sair", diz.

Clube de maior torcida no Rio Grande do Norte, proprietário do Estádio Frasqueirão, maior vencedor de estaduais no Brasil (52 títulos), o ABC se sente encurralado com as contas a pagar e os obstáculos que, ano a ano, se apresentam: desta vez, o Sistema de Licenciamento de Clubes. Motivo de receio quanto ao futuro. A tradição e a torcida seguram o ABC.

"Me sinto contra a parede. Toda hora é uma coisa. É sufocante. O ABC é tradicional, e me sinto ameaçado também por clubes de empresários ou financiados por eles. Eu me viro nos 80 para sobreviver. Nem é nos 30", lamenta o presidente Judas Tadeu.

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