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   08h09 - 19/11/2003

Polêmico e arrogante, técnico Carrasco quer recuperar "grandeza" do Uruguai

Murilo Garavello
Enviado especial do UOL
Em Curitiba

Ele diz que sabe mais de futebol do que o tetracampeão mundial, observador da Fifa e hoje técnico da seleção brasileira, Carlos Alberto Parreira. Como treinador, dirigiu apenas dois times antes de chegar ao comando do Uruguai: o modesto Rocha FC, que acabou rebaixado em 2001, e o Fênix -cujo maior feito foi ir à Libertadores. À frente da seleção uruguaia, aposta -e muito- em um jogador, Carlos Bueno, com quem se envolveu em uma briga no ano passado.

Mesmo sem nenhum título em seu currículo como técnico, Juan Ramón Carrasco, 47, tem mostrado muita personalidade e arrogância com pitadas de megalomania desde que assumiu o comando do Uruguai. Seu objetivo? "Resgatar o verdadeiro futebol uruguaio. Fazer com que os adversários nos respeitem como o fazem com Brasil, Argentina e França. Temos que voltar a ser a 'Celeste' e, para isso, temos de atacar por todos os lados do campo", responde Carrasco, que teve uma longa carreira como jogador, aposentando-se aos 45 anos, em 2001.

AFP 
Juan Ramón Carrasco comanda treino do Uruguai no estádio Pinheirão, em Curitiba
O ex-meia-direita atuou pela seleção uruguaia, Argentina (River Plate e Racing), México (Tecos), Espanha (Cádiz), Venezuela (Marítimo), Colômbia (Cúcuta) e até no Brasil, onde teve uma passagem rápida pelo São Paulo em 1990. "Tenho muito pouca experiência como técnico", admite Carrasco. "Entretanto, toda a bagagem e sabedoria que acumulei como jogador faz com que me sinta seguro quanto a meus conhecimentos", diz o técnico, que declarou há cerca de duas semanas se considerar mais "capaz" que Parreira. "Acredito que sei mais sobre futebol do que o técnico do Brasil".

Uma das características do técnico, além das declarações bombásticas, é uma espécie de populismo. No jogo contra a frágil Bolívia, em Montevidéu, escalou três atacantes natos no time titular. Após a goleada por 5 a 0, coberto de glória, afirmou: "Não me considero um Messias. O que me enche de orgulho é ver os uruguaios dizendo que nunca viram uma seleção jogar como está jogando, tão ofensiva, que ficam em frente à TV porque estão tendo prazer ao assistir aos jogos". No jogo seguinte, o Uruguai foi goleado por 4 a 1 pelo Paraguai.

Além de pregar um futebol super-ofensivo, normalmente escalando três atacantes, Carrasco tem se notabilizado em seu país por realizar substituições impulsivas. Diversas vezes, já sacou um atleta de campo ainda no primeiro tempo. "Não quero ser diferente dos outros. Talvez tenha um modo atípico de conduzir uma equipe, mas sigo minha filosofia, meus princípios e não os troco por nada".

Um dos princípios de Carrasco, certamente, é a inconstância na escalação do time. Não há nenhum exagero quando diz que "o Uruguai joga de uma maneira dentro de casa, de outra fora". Após os 5 a 0 sobre a Bolívia, em Montevidéu, o técnico mudou seis titulares para o jogo contra o Paraguai. No jogo contra o Chile, no último sábado, retomou a mesma base do time que goleou os bolivianos. Contra o Brasil, deve mudar novamente de forma radical sua equipe. Nesta quarta, o treinador deverá mandar a campo um time com cinco alterações em relação à partida anterior. E nenhuma das modificações é motivada por contusões ou problemas físicos.

Filho de pedreiro, Carrasco afirma, sem pudores, que desde criança se destacou por ser "bem melhor do que os outros" no futebol. Além do esporte, tinha como passatempo competições de acertar passarinhos com estilingue. Com as mulheres, não fazia sucesso. E diz ter herdado a força física do pai. "Nunca levantei pesos e sou muito forte".

Alguns traços dessa personalidade foram externalizados para o público em julho de 2002. Durante um jogo entre o Peñarol e o Fênix -time que dirigia-, Carrasco discutiu, xingou e chegou a dar um pontapé em Carlos Bueno, atacante do time rival. Hoje, Bueno é um dos cinco jogadores que atuou em todas as partidas dos uruguaios nas eliminatórias.

Outro jogador, Horacio Peralta, atacante do Nacional, declarou à imprensa uruguaia -após ser convocado para um amistoso-, que viraria ídolo do time. Peralta não entrou em campo, e nunca mais foi convocado. "Quem não se encaixa em minha filosofia está fora. Temos de repartir a bola, sermos solidários, abastecer sempre o companheiro mais bem posicionado. Não quero um time de individualistas".

Os críticos de Carrasco reclamam de seus modos impulsivos e imprevisíveis, de sua falta de experiência e lembram que o ex-jogador nunca conquistou títulos importantes. "Por 20 anos, tentaram fazer os uruguaios serem o que não são: apenas marcadores. Não deu certo. Estou tentando resgatar nossas raízes. Por isso, hoje, o que mais importa para mim é a equipe jogar bem. Se os resultados vierem, claro, muito melhor".

Apesar da impulsividade e do gosto pela polêmica, Carrasco, à beira do gramado, tem se mostrado bastante contido. No primeiro jogo, em que sua equipe goleou a Bolívia, o treinador ficou sentado no banco de reservas e mal se levantou. Não comemorou nenhum dos gols. Não passou instruções ao time. Deixou para faturar os louros da vitória mais tarde, em suas entrevistas à imprensa.


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