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  20/12/2004 - 16h26
Ronaldinho contraria história e garante festa brasileira nos 100 anos da Fifa

Daniel Tozzi
Enviado especial do UOL
Em Zurique (Suíça)

AFP 
Fifa elege Ronaldinho o melhor do mundo; veja fotos da cerimônia na Suíça
Cinco títulos mundiais, Pelé, recordes e superstições de Zagallo, a recuperação espetacular de Ronaldo. Nesta segunda-feira, Ronaldinho Gaúcho, enfim, oficializou sua contribuição para a história do futebol brasileiro iniciada por seus antecessores ao ser eleito pela Fifa (Federação Internacional de Futebol Association) o melhor jogador do mundo. E o fez ao exibir características em campo que fogem do padrão vigente do futebol.

A superioridade foi flagrante na votação que definiu o melhor do ano para a entidade. Ronaldinho recebeu um total de 620 votos, contra 552 do francês Thierry Henry, do Arsenal, e 253 do ucraniano Andriy Shevchenko, do Milan, que na última semana havia recebido a "Bola de Ouro", prêmio dado anualmente pela renomada revista francesa "France Football".

OS MELHORES
2004
Ronaldinho
2003
Zidane
2002
Ronaldo
2001
Figo
1999
Rivaldo
1998
Zidane
1997
Ronaldo
1996
Ronaldo
1995
Weah
1994
Romário
1993
Baggio
1992
Van Basten
1991
Matthaus
"Esse prêmio me incentiva mais a treinar e jogar e estar aqui outras vezes", disse o meia gaúcho em seu agradecimento no teatro suíço.

Com a passagem do cetro do francês Zidane para Ronaldinho, o Brasil venceu três dos quatro prêmios aos quais foi indicado para receber na noite de gala da Fifa - melhor jogador, com o próprio astro do Barcelona, melhor seleção e melhor jogador de futsal, com o ala Falcão.

Faltou apenas a coroa de Marta, eleita melhor jogadora de Atenas-04 e do Mundial sub-19. "Mas ela é o futuro", disse a alemã Birgit Prinz, vencedora do prêmio neste ano e no ano passado. Em compensação, o mundo virtual também é verde e amarelo: Thiago Carriço se tornou o primeiro campeão mundial do Fifa Interactive World Cup.

A noite de gala da Fifa em Zurique foi tão brasileira que até em uma categoria que não adota critérios objetivos, o vencedor foi nacional: Ricardo Teixeira, presidente da CBF, recebeu o troféu "Fair Play" por ter enviado a seleção para atuar em amistoso contra o Haiti, devastado por uma guerra civil.

Somadas às conquistas coletivas em vigor, como o título mundial dos profissionais e das categorias sub-20 e sub-17, os prêmios indviduais concedidos nesta noite colocam o Brasil em vantagem jamais vista na história do futebol.

"Drible" na história
Ao superar Henry e Shevchenko no ápice das comemorações do centenário da Fifa, o meia-atacante brasileiro, além de garantir ao Brasil o quarto prêmio em cinco possíveis no ano, contrariou a lógica da busca pela eficiência personificada em seus concorrentes e se tornou o número 1 sem levar os clubes por onde passou a títulos importantes.

"Sou vitorioso por estar aqui com eles (Henry e Shevchenko), mesmo sem títulos ou gols", afirmou o brasileiro antes da cerimônia, mesmo já sabendo que era o principal vencedor da noite. Tanto que uma verdadeira caravana veio de Barcelona para assistir à consagração do jogador. Parentes e dirigentes do Barça, entre eles Joan Laporta, presidente do clube, foram à Zurique acompanhar o astro.

Dono de habilidade incomum, Ronaldinho, junto de sua alegria e sorriso constante, formam a antítese de Henry e Shevchenko, artilheiro e campeão dos campeonatos Inglês e Italiano, respectivamente. E não apenas em campo. Na entrevista coletiva antes da premiação, o brasileiro sentou ao centro da mesa vestindo uma camisa de seu patrocinador. No figurino, um crucifixo. E sorrisos, como numa grande festa.

Já os adversários mostraram que não estavam ali apenas a "passeio". Enquanto Shevchenko era o espelho do jogador que representa o seu clube num terno Giorgio Armani - grife que inclusive tem o ucraniano como modelo -, Henry exibia uma camisa vermelha com a imagem clássica do revolucionário argentino Ernesto Che Guevara. "Eu o admiro muito por tudo o que ele fez. Li tudo sobre ele", afirmou o francês.

MELHORES DA FIFA EM 2004
Ronaldinho Gaúcho (Barcelona)
Henry (Arsenal)
Shevchenko (Milan)
Nedved (Juventus)
Zidane (Real Madrid)
Adriano (Inter de Milão)
Deco (Barcelona)
Ronaldo (Real Madrid)
Van Nistelrooy (Manchester)
10ºKaká (Milan)
Enquanto isso, Ronaldinho respondia sobre sua outra principal, ao menos profissionalmente, diferença em relação aos colegas. "Nunca fui mesmo de fazer muitos gols", minimizou o brasileiro, que, se ainda escorrega com a camisa da seleção brasileira, foi capaz de ressuscitar o Barcelona em pouco mais de um ano.

Símbolo do que os saudosistas e românticos chamam de "artista de bola", Ronaldinho se notabilizou ao longo da carreira mais por jogadas de efeito e dribles desconcertantes, já que o título nacional ou continental que o colocaria ao menos mais próximo dos supercampeões Zidane, Ronaldo, Figo ou Rivaldo, vencedores do prêmio da Fifa nos últimos cinco anos, ainda não veio. Mas está bem encaminhado: o Barcelona lidera o Espanhol com campanha impecável, 10 pontos à frente do arqui-rival Real Madrid.

Apesar de titular na campanha no pentacampeonato, o meia-atacante também tem perfil diferente dos companheiros e craques brasileiros de outrora que já ocuparam, em qualquer período, a condição de melhor do mundo.

Do mito Pelé, que Ronaldinho fez questão de frisar nesta segunda-feira ser o melhor de todos os tempos, passando por Zico, campeoníssimo no Flamengo, até chegar a Romário, Ronaldo e Rivaldo, o jogador do Barcelona se distancia pela ausência cada vez maior de gols no seu currículo, algo que se revelou imprescindível aos vencedores dos principais prêmios individuais.

Nesta temporada, por exemplo, o brasileiro marcou apenas três gols no Campeonato Espanhol, todos de pênalti, e dois na Liga dos Campeões da Europa. Um deles, no entanto, está entre os mais belos do ano. Na vitória contra o Milan no Camp Nou, o brasileiro passou por Nesta e Gattuso antes de chutar, de fora da área, sem chances para Dida.

"O Barça me deu muito mais do que eu dei para ele", afirmou Ronaldinho, mostrando uma modéstia impensável se tal declaração partisse de Romário, eleito melhor do mundo em 1994 quando defendia o clube espanhol.

Feminino e futsal
A melhor jogadora de futebol do mundo em 2004, segundo a Fifa, é a alemã Birgit Prinz, que ganha o prêmio pela segunda vez. A brasileira melhor colocada foi Marta, que recebeu 281 votos, contra 376 da alemã.

A estrela norte-americana Mia Hamm, que abandonou os gramados neste mês, ficou em segundo, com 286 votos. Cristiane, do Brasil, foi a décima, Pretinha a 11ª e Formiga, a 12ª, respectivamente com 80, 68 e 54 pontos.

Já no futsal, modalidade que teve sua Copa do Mundo realizada neste ano, em Taiwan, o ganhador do prêmio foi o brasileiro Falcão. Jogador da seleção brasileira, o jogador já havia ganho a "Bola de Ouro" da Copa em Taiwan, apesar do Brasil ter ficado em terceiro lugar na competição, após perder a semifinal, nos pênaltis, para a Espanha, que acabou campeã.


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