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  11/07/2006 - 12h23
Cafu quer seguir na seleção e diz que não é "marginal"

Giancarlo Giampietro
Em São Paulo

Folha Imagem
Cafu encara a imprensa em São Paulo e vai contra "mentiras" e "injustiças" pós-Copa
O lateral-direito Cafu entrou em uma das salas de sua fundação, no bairro Jardim Irene, zona sul de São Paulo, bateu o pé e, aos 36 anos, disse que ainda está à disposição da seleção brasileira.

Como em uma cruzada pública para armar sua defesa, o jogador convocou uma entrevista coletiva para informar que "sobreviveu a uma semana de chumbo", que viu pessoas "olhando torto na rua", e que "não é justo" que as pessoas analisem sua carreira pensando apenas na última derrota. No caso, a eliminação diante da França na Copa do Mundo.

"Não posso desistir de tudo no primeiro obstáculo que encontrar. Ainda não é o momento de dizer que vou deixar a seleção. Vai depender do técnico. Após 1998 e 2002, pensei que era o fim, mas o tempo fez que eu jogasse. Claro que será difícil. Mas, para mim, ainda vale sonhar com a seleção", afirmou.

"Estou mais chateado do que todo o povo brasileiro. Posso sorrir, mas, por dentro, estou muito triste. Gostaria que as pessoas na rua não me olhassem como um marginal. Vi as pessoas me olhando torto na rua, um pouco desconfiados. Não sou esse tipo de pessoa".

Para o lateral, no fim, o que deveria fcar de memória para os torcedores é o triunfo no Mundial do Japão e da Coréia do Sul. "Minha imagem que fica é a da taça. Contra a França, foi um acidente de trabalho. Não foi só o Cafu que atuou mal. Mas minhas vitórias valem mais do que essa derrota", disse.

"NÃO HAVIA SINAL"
Cafu disse que não havia qualquer espécie de sinal na defesa brasileira para indicar o posicionamento dos defensores brasileiros em cobranças de faltas.

Contra a França, Roberto Carlos se abaixou na entrada da grande área, arrumou a meia, e viu Henry entrar livre para fazer o gol da vitória. Depois, afirmou que esse era um sinal para coordenar a formação de uma "linha burra".

"Esse sinal não existia. Tínhamos de fazer uma linha na grande área e entrar só após a cobrança. Mas o Zidane bateu rápido e nos desarmou", disse.
Se não tem dúvidas de que ainda pode dar algo para a seleção pentacampeã do mundo, o jogador rechaça qualquer possibilidade de encerrar sua carreira no futuro próximo. "Não vou parar."

Cafu agora só aguarda o desfecho do julgamento de seu clube na Itália, o Milan, envolvido em escândalo de manipulação de resultados e corrupção. A promotoria pública italiana solicitou o rebaixamento do time à segunda divisão. E o brasileiro não descartou a possibilidade de atuar neste campeonato.

"Não sei ainda o que vai acontecer. Pelo que me passaram, as coisas não estão muito boas por lá. Mas, mesmo seu cair, eu devo continuar. A segunda divisão da Itália é maravilhosa, principalmente se todas essas equipes caírem", disse.

A derrocada
Quando Thierry Henry afundou a bola no gol de Dida, nas quartas-de-final do Mundial, o Brasil se mostrou "apático" e "não soube reagir" em Frankfurt. Essa é a avaliação do capitão da seleção.

"Perdemos por apatia. Achamos que poderíamos virar o jogo a qualquer momento, como contra a Inglaterra. Mas não tivemos força para reagir contra o 1 a 0. Pecamos nisso", disse, em referência à virada brasileira para cima dos ingleses nas quartas da Copa de 2002. Desta feita, porém, a seleção não contou com nenhuma bola "espírita" de Ronaldinho Gaúcho.

Depois de insistir que o time apresentou problemas apenas contra a França, o capitão daquela seleção concedeu, por um momento, e generalizou o mau futebol brasileiro. "Não foi o Brasil que nós esperávamos, poderíamos render mais. A idéia era subir na competição", disse.

Ficou por aí, contudo, as ressalvas do jogador. "Também se criou uma expectativa por espetáculo, que iríamos entrar em campo e dar chapéu e só fazer golaço. Mas sabíamos que isso não existe dentro de campo", afirmou. Chapéu, mesmo, ficou para o meia Zinedine Zidane.

Desde o primeiro treino, a primeira pergunta que me fizeram foi sobre recordes. Eu respondia o que era perguntado. Antes da eliminação, ninguém falou que eu só pensava em recordes. Isso não é justo e é uma mentira
Cafu

O grupo, em sua opinião, não estava desunido. "Se alguém falar isso, vou discordar. O ambiente era ótimo." Mas alguns atletas, já de volta ao Brasil, chegaram a reclamar de falta de oportunidade do técnico Parreira. A união, então, já escoou pelo ralo. "Deveriam falar para o professor na hora. Agora é muito fácil."

Esse foi o tom. Cafu ficou pouco mais do que 30 minutos na fundação. Foi para lá rebater o que ouviu na ressaca da Copa. Disse que a imprensa deveria parar de insinuar que os jogadores não ligam para a seleção, por serem "famosos" e "milionários". "Com o perdão da palavra, vocês deveriam banir isso. Falo por mim: isso é mentira. Sempre fui um dos mais motivados."

Uma das principais críticas sobre a participação de Cafu na Alemanha centrou-se no fato de o lateral constantemente falar sobre os recordes que poderia estabelecer na Copa -o lateral tornou-se o jogador que mais atuou pela seleção brasileira em Mundiais e o primeiro da história do futebol com 15 vitórias em Copas.

"Desde o primeiro treino, a primeira pergunta foi sobre meus recordes. Apenas respondi o que era perguntado. Por que não se falou disso antes da eliminação? Nunca vim de livre espontânea vontade para comentar esse assunto", disse.

"Não é justo e é mentira", repetiu.


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