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04/09/2006 - 09h05
Líder discreto, Dunga já colhe frutos e evita "síndrome de Falcão"
Bruno Freitas Enviado especial do UOL Em Londres (Inglaterra)
O novo técnico da seleção definitivamente não é uma extensão do que era como jogador. Dunga abandonou a carreira com a imagem consagrada de "guerreiro". O começo de sua gestão à frente do Brasil, no entanto, começa a desenhar um perfil diferente daquele dos tempos de atleta, até certo ponto inusitado, com destaque particular para a discrição, num pacote de atos e convicções que, aparentemente, já surtem algum efeito.
| RECOMEÇO PARA RONALDINHO |
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 | Ronaldinho Gaúcho está de acordo com a filosofia do técnico Dunga de que todos jogadores devem mostrar serviço e lutar para conseguir espaço na seleção brasileira.
O jogador, liberado para o jogo contra País de Gales, topa um recomeço na seleção depois de mais de um ano sem gols pela equipe, a despeito do brilho no Barcelona. |
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| LEIA MAIS | Moralmente, a vitória convincente sobre a arqui-rival Argentina por 3 a 0 em Londres no último domingo dá um generoso voto de confiança a Dunga, principalmente junto aqueles que colocaram em dúvida seu potencial como treinador à época da designação da CBF (Confederação Brasileira de Futebol).
Mas o grande êxito do técnico neste início de atividade no comando da Brasil parece ser outro, de caráter interno. Com uma discrição que surpreende quem lembra de sua eloqüência dos tempos de jogador, Dunga esboça ter o grupo da seleção precocemente nas mãos e, a julgar pelo discurso de seus comandados, também conseguiu emplacar seu espírito de trabalho junto ao elenco.
Ao contrário do que muita gente esperava, Dunga parece não ser um técnico de gestos exagerados à beira do campo. Contra a Argentina, raramente deixou o banco de reservas para dar instruções a seus jogadores. Mas, mesmo assim, demonstra já ter uma relação profissional estreita e afinada com seus comandados, pautada principalmente por conversas individuais.
"Ele (Dunga) tem conversado bastante com a gente, para saber o que sentimos, para ver o que dá para fazer em campo", afirma o meia Kaká, que estreou sob comando do treinador na vitória sobre a Argentina.
"Em poucos dias, mostrou que é um técnico simples e objetivo, que deixa claro o que quer dos jogadores", diz o zagueiro Lúcio, promovido a capitão no novo ciclo da seleção.
Quem acompanha as entrevistas de Dunga como técnico ouve com freqüência o termo coerência, virtude que o comandante da seleção diz usar para nortear seu trabalho.
| NO COMEÇO, DUNGA SE DÁ MELHOR QUE FALCÃO |
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Quando foi escolhido para assumir a seleção após a decepção na Copa, Dunga, sem jamais ter dirigido uma equipe na carreira, foi exposto a inevitáveis comparações com Paulo Roberto Falcão. Isso porque ambos estrearam na profissão comandando o Brasil, mesmo sem nenhuma experiência curricular anterior.
Assim como Dunga, Falcão assumiu a seleção, em 1990, depois de um fracasso em Copa. No entanto, o então treinador fechou aquele ano sem uma única vitória e acabou demorando sete partidas ao todo para conseguir o primeiro triunfo.
Em 1990, depois do Mundial da Itália, Falcão estreou com derrota para a Espanha. Na seqüência, dois empates com o Chile e outra igualdade, contra o México (os três jogos com placar de 0 a 0).
A seleção de Falcão foi fazer seu primeiro gol já em 1991, em empate com o Paraguai por 1 a 1. Em seguida, igualdade contra a Argentina fora de casa. Somente na partida subseqüente, contra a Romênia, seis meses depois de sua estréia, o treinador conseguiu vencer com o Brasil.
Além de conseguir sua primeira vitória no segundo jogo pela seleção, antes do fim do ano, o novato Dunga ainda acumula o triunfo moral de bater a arqui-rival Argentina com autoridade e folga, logo em seu primeiro confronto com equipes de ponta do futebol mundial.
Se conseguir fazer sua seleção passar pelos frágeis País de Gales (nesta terça) e Kuwait (outubro), Dunga provavelmente conseguirá terminar o ano com o time de auto-estima restaurada, mesmo com a decepção ainda recente na Copa -feito moral que a equipe de Falcão não obteve em 1990.
Mas, a bem da verdade, as situações que os dois treinadores encontraram na seleção é diferente. Falcão, que não tinha uma geração brilhante a sua disposição, optou por uma reformulação mais radical, que acabou não emplacando mais adiante. |
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| Foi essa linha de raciocínio que o treinador utilizou para justificar a repetição da escalação titular nos jogos contra Noruega e Argentina. Apesar do espanto provocado ao deixar Kaká de início no banco, Dunga viu contra a Argentina um esboço de amadurecimento tático do time, principalmente na formação de meio-campo e ataque.
Em alguns momentos na vitória sobre os argentinos, a seleção funcionou com um 4-5-1, com Fred na frente e um trio de meias formados por Robinho (centro), Elano (direita) e Daniel Carvalho (esquerda). No primeiro tempo do amistoso, a sintonia do setor, que já havia enfrentado a Noruega em agosto, chegou a impressionar.
A presença de Elano é uma aposta específica de Dunga que parece vingar cedo. Esquecido na Ucrânia durante o ciclo de Carlos Alberto Parreira, o meia jogou bem nos dois amistosos da nova seleção que disputou como titular e pode virar peça fica no time. Os dois gols e atuação contra a Argentina devem corroborar essa tendência.
"O Elano é um jogador de muitos recursos. Eu já sabia disso. Só faltava para ele uma oportunidade na seleção", comenta Dunga, que notoriamente vem caprichando nos elogios para falar de seu meia.
Outra medida adotada por Dunga, talvez a mais ousada de todas, é o esforço de direção para colocar as estrelas Kaká e Ronaldinho, pelo menos aos olhos da opinião pública, no mesmo patamar moral do resto do elenco. As pregações de apologia do treinador sobre jogo coletivo induzem esse pensamento.
No treino na véspera do amistoso contra a Argentina Dunga fez Kaká treinar entre os reservas. No dia seguinte, determinou que o astro do Milan começasse no banco, repetindo a equipe da partida contra a Noruega. Mesmo aparentemente desconfortável com a situação, o meia entrou no decorrer do jogo e foi um dos destaques, com uma assistência perfeita e um gol antológico em jogada individual.
"Todo mundo terá sua oportunidade, mas todos terão que conquistar seu espaço dentro da seleção. A individualidade é importante, mas ela tem que estar a serviço do coletivo", frisa o técnico em uma de suas frases padrão.
Por fim, um detalhe que não passa incólume sobre o estilo Dunga de comandar a seleção é seu trato com a imprensa. Paciente, sereno e, às vezes, até didático, o treinador se difere de seus antecessores, que, sempre em posição de defensiva, costumavam distribuir respostas atravessadas aos entrevistadores. Mas, a bem da verdade, o novato técnico ainda não foi exposto ao conhecido desgaste do cargo que ocupa. UOL Busca - Veja o que já foi publicado com a(s) palavra(s)
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