Durante toda a carreira do centroavante Romário, talento e polêmica andaram lado a lado. Em nenhum momento, porém, a associação ficou tão clara quanto agora. Bem ao seu estilo, o jogador ignora a formalidade e comemora uma marca histórica. Pela primeira vez desde 19 de novembro de 1969, quando Pelé atingiu esse feito, o futebol brasileiro vê um atleta ser festejado por chegar à marca de mil gols. Contudo, a festa não pôde ser plena. Em vez de ver o mundo se render e enaltecer seu feito, o eterno dono da camisa 11 do Vasco - o número será aposentado depois que ele parar - tem seu principal momento pessoal manchado por discussão nas contas e subterfúgios no trajeto até a "milésima" bola nas redes adversárias, que aconteceu neste domingo, no estádio de São Januário, na vitória vascaína por 3 a 1 sobre o Sport, pela segunda rodada do Campeonato Brasileiro.
| A CONTAGEM DE GOLS DE ROMÁRIO
(Profissionais não-oficiais em negrito) |
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| Olaria (infantil) | 79 a 80 | 7 |
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| Vasco (infantil a júnior) | 81 a 85 | 59 |
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| Sel. brasileira juniores | 85 | 11 |
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| Vasco | 85 a 88 | 124 |
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| Seleção brasileira | 87 a 05 | 56 |
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| Seleção carioca | 87 e 04 | 3 |
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| América-RJ | 87 e 93 | 6 |
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| Sel. brasileira olímpica | 88 | 15 |
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| PSV Eindhoven-HOL | 88 a 93 | 165 |
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| Barcelona-ESP | 93 a 95 | 53 |
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| Flamengo | 95 a 96 | 82 |
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| Sel. das Américas | 95 | 3 |
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| Valencia-ESP | 96 | 6 |
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| Flamengo | 96 a 97 | 35 |
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| Valencia-ESP | 97 | 8 |
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| Flamengo | 98 a 99 | 87 |
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| Vasco | 99 a 02 | 137 |
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| PSV Stars-HOL | 2002 | 2 |
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| Fluminense | 02 a 03 | 21 |
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| Al-Saad (Catar) | 2003 | 0 |
| Amigos do Aldair | 2003 | 2 |
| Fluminense | 03 a 04 | 27 |
| Seleção do Tetra | 04 e 05 | 5 |
| Vasco | 05 a 06 | 50 |
| Miami FC-EUA | 2006 | 22 |
| Adelaide United-AUS | 2006 | 1 |
| Vasco | desde 07 | 13 |
| Time | Período | Gols |
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O principal problema é que os mil gols comemorados por Romário são referentes a toda a carreira do atacante. Desses, 902 aconteceram em partidas oficiais depois que ele se tornou profissional e os outros 98 é que causam polêmica. O centroavante conta as 77 vezes que marcou quando era amador e as 21 bolas nas redes adversárias em ocasiões festivas - o caso mais célebre dessa categoria é o amistoso América-RJ 11 x 5 Amigos do Luisinho, disputado em 1993, no qual o atacante atuou com a camisa alvirrubra e anotou quatro gols.
"Quem me acompanha conhece os profissionais que me ajudam na contagem. Posso dizer que todos são oficiais. Nunca falei que os gols foram feitos só nos profissionais e em jogos oficiais. Realmente, há gols em jogos festivos, nunca neguei isso. Tenho a minha consciência tranqüila. Nunca tive tempo para contar, mas, se estivesse contando desde o início, hoje, estaria buscando o gol número 3.000", defendeu-se Romário, sempre polêmico e irreverente.
Romário conta ainda dois gols marcados contra Brasiliense e Figueirense, pelo Campeonato Brasileiro de 2005, partidas que depois foram anuladas pela Justiça Desportiva por terem sido apitadas pelo árbitro Edílson Pereira de Carvalho, posteriormente envolvido em um escândalo de manipulação de resultados. A lista de motivos para a lista ser contestada ainda conta com os amistosos promovidos pelo Vasco no ano passado, as contestadas passagens do atacante por Miami FC e Adelaide e a quebra no regulamento de transferências da Fifa para o camisa 11 poder defender o time carioca desde o início desta temporada.
"É claro que a contagem não é só como profissional e muito menos dos gols em partidas oficiais. Eu conto desde que comecei no Olaria, mas não consegui resgatar todos os gols. Essa estatística considera apenas os gols que tiveram algum registro, seja imagem, súmula ou registro da partida no jornal. Talvez as pessoas não entendam que não é o milésimo gol como profissional, mas o milésimo gol", explicou o atacante em entrevista à TV Globo.
A contagem de Romário, contudo, não é a única que gera polêmica. Durante muito tempo, acreditou-se que Arthur Friedenreich, um atacante brasileiro descendente de alemães, havia marcado 1.329 gols na carreira. Contudo, um levantamento feito pelo jornalista Alexandre da Costa, autor da biografia do jogador, mostra que ele teria feito apenas 554.
No início da carreira de Friedenreich (também conhecido como Fried), o pai do jogador começou a anotar em cadernos todos os gols marcados pelo filho. Em 1918, o artilheiro passou a tarefa a um colega de time - ambos defendiam o Paulistano: o centroavante Mário de Andrada.
Andrada registrou todos os gols marcados por Friedenreich até o fim da carreira do companheiro, em 1935. Em 1962, Mário contou ao jornalista Adriano Neiva da Motta e Silva, o De Vaney, que tinha as fichas de todos os jogos de Fried e com elas poderia provar que o colega fez 1.239 gols em 1.329 partidas.
No entanto, Andrada faleceu antes de mostrar as fichas para De Vaney, que, mesmo assim, resolveu divulgar o número. Mas o jornalista ainda cometeu outro erro ao confundir o número de gols com o de partidas disputadas e divulgou que Fried havia feito 1.329 gols.
| FIFA NÃO RECONHECE MARCA |
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Apesar da festa de Romário, a Fifa não reconhece o "milésimo" gol do atacante. A entidade máxima do futebol nega categoricamente que considere esta marca como oficial.
"Não mantemos uma conta dos gols marcados por nenhum jogador", disse um porta-voz da entidade. "A Fifa apenas mantém o registro de gols de um jogador em competições organizadas pela Fifa", afirmou o assessor de imprensa da Fifa, em declaração dada à agência DPA. |
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A partir daí, vários livros, enciclopédias e o Guiness Book (livro dos recordes) publicaram o número. Com isso, até a Fifa chegou a referendar a marca. Foi então que Alexandre da Costa conferiu os registros de todos os jogos de Fried em pelo menos dois jornais - Correio Paulistano e O Estado de S. Paulo - e chegou a 554 gols marcados em 561 partidas.
Outro jogador que supostamente teria ultrapassado a barreira dos mil gols foi o húngaro Ferenc Puskás, considerado um dos maiores jogadores da história antes de Pelé. Há quem diga que ele marcou 1.171 gols na carreira, mas registros oficiais garantem que ele só fez 766.
Mais que Pelé?
Toda a discussão sobre a validade da contagem de Romário, contudo, não esconde o valor do atacante. Afinal, se forem considerados apenas os gols anotados em competições oficiais, o Baixinho supera até os números de Pelé - são 731 contra 720 do Rei.
"Eu procurei me interar de como era naquela época e sei que o milésimo gol do Pelé também foi cercado de polêmica. Eu sempre fui um cara polêmico e isso faz parte da minha vida. Não podia ser diferente agora", minimizou Romário.
Ao todo, Romário disputou mais torneios do que Pelé - 87 contra 63, respectivamente. Com uma média de gols inferior à do Rei, o atacante do Vasco tem um motivo contundente para comemorar: ele foi mais vezes artilheiro do que o ex-atleta do Santos (27 contra 24, de acordo com um levantamento do pesquisador Severino Filho que foi publicado pela revista Placar).
"É claro que é uma honra passar o melhor de todos os tempos em número de gols e eu nem posso falar nada diferente disso. Essa é uma informação que chegou a mim há pouco tempo e que me deixou excitado", classificou Romário.
Publicado em 20 de maio de 2007
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