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20/05/2007 - 19h37

Artilheiro, Romário conquista regalias

Vinícius Barreto Souto*
No Rio de Janeiro
Enquanto festeja o "milésimo" gol e ensaia a despedida do futebol, Romário goza de muito prestígio, mas não apenas dentro de campo. Fora das quatro linhas, o atacante colecionou regalias - e, conseqüentemente, polêmicas - ao longo da carreira, na medida em que mostrava sua genialidade em campo.

A LETRA DO HIT DE ROMÁRIO
Treinar pra quê, ê, ê....Treinar pra quê, ê, ê
Treinar pra quê, se eu já sei o que fazer
Treinar pra quê, ê, ê....Treinar pra quê, ê, ê
Treinar pra quê, se eu já sei o que fazer
Mas se hoje der praia. Mas se hoje der praia eu vou pro Viajandão
Lá a cerveja é gelada e o pagode é muito bom
Cercado de segurança, com meu amigo Animal...
Vou azarar as gatinhas jogar um futevôlei e coisa e tal, treinar pra quê?
Treinar pra quê, ê, ê....Treinar pra quê, ê, ê
Treinar pra quê, se eu já sei o que fazer
Treinar pra quê, ê, ê....Treinar pra quê, ê, ê
Treinar pra quê, se eu já sei o que fazer
Mas teve o tal Luxemburgo... Teve o tal Luxemburgo, o cara me aborreceu
Queria ser dono do time, queria mandar mais do que eu
Chamei o Leite na fala e nem lhe dei explicação
Cortei o cara da fita, peguei minha paquita e fui curtir de montão,
Ilariê...
Treinar pra quê, ê, ê....Treinar pra quê, ê, ê
Treinar pra quê, se eu já sei o que fazer
Treinar pra quê, ê, ê....Treinar pra quê, ê, ê
Treinar pra quê, se eu já sei o que fazer
Eu vim da Vila da Penha. Eu vim da Vila da Penha e fui pra Holanda dar olé
Também fui rei na Espanha tem que aturar zé mané
Fui tetra em boa hora, eu disse que ia ser, não tenho culpa se o Baggio
Chuta a bola pra fora na hora do vamo ver e treinar pra quê?
Treinar pra quê, ê, ê....Treinar pra quê, ê, ê
Treinar pra quê, se eu já sei o que fazer
Treinar pra quê, ê, ê....Treinar pra quê, ê, ê
Treinar pra quê, se eu já sei o que fazer
TREINAR PRA QUÊ?
De Tom Cavalcante
CONFIRA ESPECIAL DO GOL MIL
Confesso amante das noitadas e avesso aos treinos (especialmente os matutinos) e concentrações, Romário tem privilégios no elenco do Vasco. Treina quando quer, não é obrigado a se concentrar antes das partidas com o grupo e nem a viajar com o time para jogar longe do Rio de Janeiro, seu reduto.

Mas não é de hoje que Romário goza de regalias no grupo graças a seu talento. Foi em 1994, quando foi eleito melhor jogador do mundo pela Fifa, que ele começou a pleitear tratamento diferenciado do restante, negociando privilégios no Barcelona com o técnico holandês Johan Cruyff.

Certa vez, Romário fez uma aposta com o treinador: faria três gols numa partida e, em troca, ganharia alguns dias extras de folga para vir ao Brasil. Sem acreditar que o atacante conseguiria cumprir sua parte, Cruyff aceitou. Mas o Baixinho marcou os três gols e o técnico teve de ceder o descanso.

Por regalias, Romário derruba Luxa no Flamengo
Em 1995, Romário deixou o Barcelona e voltou ao Brasil para jogar pelo Flamengo. A diretoria viabilizou a contratação do astro por US$ 5 milhões com o apoio de um pool de empresas que investiram no retorno de marketing da presença do jogador. E na Gávea, ele passou a pleitear mais regalias.

"Treinar para quê, se eu já sei o que fazer?". A frase da época, que Romário alega não ser dele, ficou tão famosa que virou até letra de um pagode composto pelo comediante Tom Cavalcante. O Baixinho queria tratamento diferenciado no Flamengo (como por exemplo, ficar só em quarto separado dos colegas nas concentrações), mas encontrou a resistência do técnico Vanderlei Luxemburgo, que acabou demitido diante do atrito com o astro.

"O Luxemburgo não ficou porque reuniu o Jorge Luiz e outros jogadores para convencê-los a dar uma dura no Romário. Mas, em vez de fazerem isso, eles contaram para o Romário. Por isso, ele não quis mais trabalhar com o Vanderlei e colocou com clareza: 'é ele ou eu'. Evidentemente, ficou o Romário, porque tínhamos uma série de compromissos com os patrocinadores que o colocaram aqui. Não tinha saída", contou Kleber Leite, presidente do Flamengo em 1995.

"Ele tinha um problema pessoal com o Romário. Foi lamentável, porque o Vanderlei era um profissional extraordinário. Mas não havia outra alternativa. Pessoalmente, fiz tudo o possível para tentar contornar a situação. Mas, infelizmente, não consegui", continuou o atual vice-presidente de futebol rubro-negro.

Embora não saiba explicar por que Luxemburgo pediu aos jogadores do Flamengo para darem uma "dura" em Romário, Kleber nega que o atacante tenha recebido tratamento diferenciado na Gávea.

"No Flamengo, ele trabalhava como os outros. Nunca houve nenhum tipo de tratamento diferenciado. Ele chegava e treinava na mesma hora que todos. Até porque, na época, só tinha 29 anos. Não tinha por que ter privilégios. Ele cumpriu religiosamente tudo o que acordou. Foi um bom profissional. O único tratamento diferenciado era o talão de cheque, que era maior, como tinha de ser mesmo, porque ele fazia os gols que os outros não faziam", afirmou Kleber.

Enquanto Romário conquista privilégios por meio do talento, também coleciona críticas. Roberto Dinamite, maior ídolo da história do Vasco, faz parte do grupo que reprova as regalias a Romário.

"Ninguém discute o talento do Romário. Agora, sua conduta profissional não é correta. Acho que ele conquistou direitos junto aos clubes pelo talento, mas não acho certo aceitarem isso dele. Em parte, a culpa é de quem está à frente desses clubes", disse o ex-jogador, opositor do presidente do Vasco, Eurico Miranda nas últimas eleições cruzmaltinas.

"O que ele tinha de diferente era que fazia um ou dois gols no jogo e diziam que ele correspondia. Acho que se tivesse uma vida mais regrada, poderia fazer quatro. Por isso, não foi exemplo como profissional", acrescentou Roberto.
DINAMITE REPROVA REGALIAS
Entretanto, Joel Santana, que foi treinador de Romário no Flamengo (em 1996), no Vasco (em 2000) e no Fluminense (em 2003), deu a entender que o Baixinho sempre teve privilégios com ele. "Depende da regalia. Desde que não seja bagunça, pode. Regalia é uma coisa e bagunça é outra", declarou.

Mais regalias no Vasco, Flu e Miami
Depois de duas passagens pelo Valencia e mais duas pelo Flamengo, Romário retornou ao Vasco em 1999. No ano seguinte, voltou a trabalhar com o técnico Antônio Lopes, que havia promovido o Baixinho aos profissionais do time cruzmaltino em 1985.

"Essas regalias têm de ser dadas mesmo. É normal. Ele tem esses privilégios por causa da idade [atualmente, 41 anos]. É humanamente impossível planejar para o Romário um trabalho igual ao que é passado para os jovens", disse o treinador, que, contudo, também nega que Romário tenha gozado de regalias com ele.

"Quando ele começou comigo, não tinha nada disso. E em 2000 também não. Isso começou de uns anos para cá, por causa da idade dele", afirmou Lopes.

Em 2002, Romário deixou o Vasco e acertou com outro clube rival: o Fluminense. Nas Laranjeiras, o Baixinho também teve facilidades, como a liberação dos treinos no dia seguinte às partidas e a possibilidade de viajar apenas no dia dos jogos.

Terminada a passagem de Romário pelo Fluminense, o atacante novamente retornou ao Vasco em 2005, quando conquistou as regalias atuais. No ano seguinte, o Baixinho foi para o Miami FC, dos Estados Unidos, clube em que voltou a obter privilégios por conta do talento.

Artilheiro da United Soccer League (USL, uma liga secundária do futebol norte-americano) com 19 gols, Romário cumpriu à risca o projeto inicial traçado pelo Miami FC: transformar o time em uma potência do país e fortalecer a USL, liga independente que rivaliza com a Major League Soccer, a principal competição norte-americana.

Com isso, ganhou o direito de ser substituído apenas quando pedisse. Além disso, tinha carta branca para afastar do elenco quem entrasse em atrito com ele. Foi o que aconteceu com o jamaicano Onandi Lowe.

Líder de sua seleção na Copa do Mundo de 1998, ele era considerado pelo Baixinho um jogador "desagregador e marrento". Por isso, Romário ordenou a saída de Lowe e foi prontamente atendido pela diretoria do Miami FC, composta basicamente por brasileiros.

"Não sei se eu sou um cara marrento. Sou um cara que fala o que pensa, e se isso for marra é verdade. Eu sempre procurei mostrar meus pontos de vista", disse Romário.

Chega de madrugar
A principal mudança que Romário espera ter em sua rotina nos próximos anos é quanto ao horário. Perto da aposentadoria, o atacante admitiu que não vê a hora de poder acordar mais tarde do que o habitual.

"Cara, são muitos anos com esse negócio de acordar cedo e treinar às 7h. Eu não posso mais com isso, não. Até penso em continuar no meio do futebol, mas preciso arrumar um emprego em que eu possa entrar depois do meio-dia", revelou Romário.

*Colaborou Anderson Gomes

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