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20/05/2007 - 19h41

Frustrações também marcam a carreira do Baixinho

Vinícius Barreto Souto*
No Rio de Janeiro
Romário é aclamado como um dos maiores atacantes da história do futebol brasileiro. O camisa 11 do Vasco, que já foi apelidado de "gênio da grande área" pelo ex-jogador holandês Johan Cruyff, ostenta uma extensa galeria de títulos e recordes. Contudo, aos 41 anos, o atacante vê o término de sua carreira divido entre a festa pelo "milésimo" gol e algumas frustrações que nem essa marca conseguiu apagar.

FRUSTRAÇÕES DE ROMÁRIO
Folha Imagem
Romário foi cortado da seleção na concentração para a Copa de 98
AFP
Luxemburgo deixou o atacante de fora da lista para a Olimpíada-2000
Folha Imagem
Aclamado pela torcida, Romário não fez parte da equipe de Felipão
CONFIRA ESPECIAL DO GOL MIL
FOTOS DO MILÉSIMO
Questionado sobre os momentos negativos de sua trajetória no futebol, Romário é contundente: mais do que as derrotas em campo, o Baixinho mostra consternação por conta de quatro competições que ele esperava ter disputado e não conseguiu.

"A Olimpíada de 1996, que o Zagallo preferiu levar o Aldair, o Bebeto e o Rivaldo, a Olimpíada de 2000, quando o Luxemburgo não convocou ninguém com mais de 23 anos, e as Copas de 1998 e 2002", enumerou Romário.

A frustração de Romário relacionada aos Jogos Olímpicos tem um sentido claro. Acostumado a estabelecer metas em sua carreira - a corrida pelo "milésimo" tento é um exemplo -, o Baixinho esperava ajudar a seleção brasileira a conquistar o único título que falta em sua galeria entre as principais competições do futebol mundial.

"Eu tenho absoluta certeza que poderia participar dessas Olimpíadas. E acho que teria ajudado o Brasil. Em 2000, por exemplo, não tinha no Brasil um outro atacante de área com mais de 23 anos que jogasse o que eu estava jogando", comparou Romário. No mesmo ano em que o Brasil naufragou nas Olimpíadas de Sidney, o Baixinho viveu sua melhor temporada e marcou impressionantes 73 gols em 75 partidas.

"Eu estava fazendo gols e conseguindo um bom desempenho no Vasco. Chegamos às decisões do Mundial, do Estadual, do Rio-São Paulo, da Copa João Havelange e da Mercosul, naquele ano. O desempenho foi excelente e eu marquei em praticamente todas as partidas importantes. Acho que eu poderia ter contribuído", projetou o atacante.

Sem Romário, a seleção brasileira perdeu para Camarões por 2 a 1 na morte súbita e foi eliminada nas quartas-de-final dos Jogos Olímpicos de Sidney. Assim, o time dirigido por Vanderlei Luxemburgo não conseguiu repetir sequer a campanha de 1996, quando a equipe de Zagallo chegou às semifinais e foi superada pela campeã Nigéria, também na prorrogação, por 4 a 3.

A vontade que Romário tinha de disputar mais uma edição dos Jogos Olímpicos se justifica pela campanha da seleção na única vez em que o Baixinho esteve no torneio. Em 1988, em Seul, ele foi artilheiro e levou a equipe de Carlos Alberto Silva até a decisão. Contudo, os sul-americanos foram superados pela União Soviética e terminaram com a medalha de prata.

Só que as frustrações de Romário não se limitam às competições que ele nunca conquistou. O atacante também lamenta ter perdido a chance de vencer mais de uma Copa do Mundo. E ele nem considera a edição de 1990, na Itália, quando ele jogou poucos minutos porque voltava após três meses de afastamento dos gramados em virtude de uma fratura no perônio.

"Eu me achava tecnicamente em um bom momento, mas não pude disputar a Copa de 1998, nem a de 2002. Eu tinha conquistado o Mundial em 1994, quando o Brasil estava sem levantar a taça havia 24 anos, e queria ajudar a manter isso", contou Romário.

Em 1998, o centroavante chegou a ser convocado pelo técnico Zagallo para o Mundial. Entretanto, sofreu uma lesão muscular e foi cortado oito dias antes da estréia canarinho na França (Emerson ficou com a vaga). "Eu sabia que não teria condições de disputar as primeiras partidas. Mas a maior prova de que eu poderia jogar a Copa é que, quando o Brasil enfrentou a Dinamarca pelas oitavas-de-final, eu atuei no dia seguinte em um amistoso do Flamengo e até marquei o gol da vitória sobre o Internacional", lembrou o camisa 11.

Por conta do corte, Romário ficou extremamente decepcionado com Zagallo. A explicação do atacante é que ele reprovou a conduta do treinador: "Eu só queria que ele tivesse acreditado em mim. Alguns dias antes, ele e o Lídio [Toledo, que era médico da seleção] passaram no meu quarto e do Dunga, que também estava com um probleminha. Os dois disseram que estavam com a gente até o fim. No último dia da inscrição, o Zico me disse que eu estava fora".

O corte de Romário foi seguido por uma entrevista emocionada do atacante, que ficou visivelmente abalado com a decisão da comissão técnica. Os microfones também foram a saída encontrada pelo camisa 11 quatro anos mais tarde, mas por outro motivo: ele resolveu fazer um apelo por meio da mídia para tentar ser lembrado pelo técnico Luiz Felipe Scolari para a seleção que disputou o Mundial do Japão e da Coréia do Sul.

"O motivo para eu não ter sido convocado? Sinceramente, eu não consigo entender. Segundo algumas pessoas, o Felipão achava que o Luizão se encaixava melhor no esquema dele do que eu. Isso eu tenho de respeitar. Só não posso aceitar as mentiras que contam sobre esse caso, como a história de eu ter pedido para não jogar a Copa América ou ter ido ao quarto de uma aeromoça na concentração, porque isso não aconteceu", garantiu Romário.

As frustrações levaram Romário a um comportamento radical em 1998 e 2002. Sem ele, o Brasil não perdeu apenas um atleta. Perdeu também um torcedor. "Eu não posso falar que eu torci para a seleção perder porque isso seria mentira. Mas eu também não queria que ganhasse", revelou o atacante.

Em 2002, inclusive, o triunfo canarinho abalou a mãe de Romário. O atacante revelou que "dona" Lita teve problemas para aceitar o título da seleção: "Foi muito pior do que o ano do corte, porque eu sentia que podia estar lá ajudando. Eu estava na Espanha no dia da decisão, liguei para a minha mãe e ela tinha passado mal".

O sucesso da seleção brasileira na Copa de 2002 sem sua presença fez com que Romário repensasse sua carreira. Do ano do pentacampeonato até 2005, o centroavante pensou em se aposentar e largar o futebol. Só mudou de idéia quando estabeleceu uma nova meta: alcançar o "milésimo" gol.

"Foram três anos de baixa. Eu vivi um período difícil e já estava pensando em parar. Mas quando eu fiz o gol 900 com a camisa do Fluminense, no Campeonato Brasileiro, eles me deram uma camisa especial. Eu pendurei essa camisa na casa da minha mãe e comecei, internamente, a pensar que faltava pouco. Eu precisava chegar", confessou o Baixinho.

Colaborou Guilherme Costa, em São Paulo

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