A exuberância das moedas estrangeiras já foi encarada como problema pelos clubes brasileiros, cansados de perder jogadores por valores modestos. A lição foi aprendida na "marra" e os contratos com multas elevadas se tornaram solução. No entanto, a crise financeira mundial voltou a amedrontar as equipes do Brasil. A previsão é de queda nas transferências internacionais, caixa vazio e salários atrasados.
Principal comprador, o futebol europeu sofre com a falta de crédito e a instabilidade do mercado. A expectativa é que os clubes que já fizeram loucuras e atingiram patamares de difícil concorrência adotem cautela na próxima janela internacional, no final do ano.
"No meio do ano já começamos a sentir um reflexo devido ao endividamento dos clubes, principalmente os europeus. Com certeza teremos problemas para negociar na próxima janela", resumiu Mário Celso Petraglia, presidente do Conselho Deliberativo e homem-forte do Atlético-PR.
Sem essa receita proveniente das transferências, pagar os salários se tornará missão difícil. Principalmente para aqueles que já estão com a folha atrasada. Clubes como Botafogo, Vasco, Bahia e Atlético-MG são exemplos da inadimplência recente no departamento de futebol. E chegaram a essa situação antes mesmo de a crise estourar.
"Alguns clubes já estão encontrando dificuldades em pagar os salários de seus jogadores e a crise vai desencadear um efeito em cascata. Onde os clubes vão conseguir dinheiro sem vender jogadores? E se os salários atrasarem por três meses, o jogador pode pedir a rescisão de contrato na Justiça e ficar livre", alertou Luiz Felipe Santoro, presidente do Instituto Brasileiro de Direito Desportivo (IBDD).
Mas a questão do salário não é a única preocupação. Repatriar jogadores e até mesmo manter aqueles que têm contratos com equipes de fora do Brasil também ficará mais caro. Em alguns casos, fica inviável continuar com um jogador que chegou emprestado. O Corinthians, por exemplo, precisa pagar US$ 3 milhões ao Gimnasia La Plata, da Argentina, para ficar com Herrera. no meio do ano, esse valor correspondia a aproximadamente R$ 4,8 milhões. Na semana passada, já eram R$ 6,9 milhões.
Neste cenário de perspectivas desanimadoras, alguns clubes sonham com um alento. Embora também esteja afetado pela turbulência econômica atual, o mercado árabe assume papel de salvador para os ansiosos cofres brasileiros - mesmo com a queda do preço do petróleo.
O cofre alviverde do Palmeiras, por exemplo, já sentiu a força dos petrodólares árabes. Negociou o chileno Valdivia com o Al Ain, dos Emirados Árabes Unidos, e embolsou cerca de R$ 20 milhões.
"Os clubes europeus vão passar a comprar menos. Com isso, outras praças tendem a compensar, pois estão em uma situação um pouco melhor, como os times dos Emirados Árabes", opinou o economista Luiz Gonzaga Belluzzo, diretor de planejamento do Palmeiras.
O mercado do futebol, agora, aguarda com atenção e esperança os desdobramentos da crise financeira. "Obviamente, o mercado vai retrair e a expectativa é que o dinheiro que o futebol move seja menor em relação ao ano passado", completa Amir Somoggi, especialista em marketing e gestão de clubes da Casual Auditores.
Nos próximos dois meses, dirigentes já devem ter idéia do mercado em que irão trabalhar para a próxima temporada. As perspectivas podem não são as melhores, mas não custa nada pensar positivamente, como Bebeto de Freitas, presidente do Botafogo. "Ainda é muito cedo para que a gente possa fazer qualquer tipo de análise. Ainda não sabemos ao certo o que vai acontecer. Menos mal que não temos dívidas em dólar..."
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