Falta de habilidade, pouca intimidade com a bola, rigidez e inflexibilidade, nenhuma noção de posicionamento em campo. Apesar de não ter demonstrado muito futuro em sua primeira tentativa de realizar no Brasil o sonho de virar um jogador de futebol profissional, o africano Mohamed Camara, de 17 anos, ganhou mais uma chance de mostrar seu talento no Bahia, depois do teste realizado nesta quarta-feira.
Uma não, duas. O diretor das categorias de base do clube, Newton Mota, disse que o ideal é que Mohamed volte nesta quinta e na sexta-feira para completar a avaliação. "Ele não é um perna-de-pau, mas também não mostrou um futebol de destaque. Mas é preciso dar um desconto porque ele ficou cinco dias no porão de um navio sem comer nem beber nada, calçou um par de chuteiras pela primeira vez na vida e não esperava que a imprensa viesse especialmente para cobrir seu teste. Logicamente, essas coisas interferem no desempenho", justificou Mota.
Mohamed, que chegou ao porto de Salvador clandestinamente a bordo de um navio de bandeira italiana, ganhou a oportunidade de treinar junto com outros 50 garotos nascidos entre os anos de 1990 e 1993 no CT Osório Villas Boas, o Fazendão, depois de declarar que sua aventura foi motivada pela obstinação em seguir os passos de seus ídolos Robinho e Kaká. Ele vivia em Conacre, capital da Guiné, plantando batatas.
Segundo Mota, foi o próprio juiz Salomão Resedá, titular da 1ª Vara da Infância e da Juventude de Salvador, quem pediu uma oportunidade ao garoto. "Tudo começou no domingo. Ele estava meio entediado aqui no juizado e resolvi levá-lo ao jogo do Bahia contra o Feirense", declarou o magistrado, confesso torcedor tricolor.
Jogador de ruaPara o técnico da equipe de juniores do Bahia, Sérgio Moura, Mohamed não tem a menor chance de se profissionalizar. "É claro que a gente gostaria de ajudar, o brasileiro é um povo muito solidário, mas a verdade é que ele já queimou muitas etapas e não seria coerente investir nele tendo à disposição tantos garotos com mais habilidade", vaticinou.
O treinador disse que mesmo desconsiderando a falta de condicionamento físico e as dificuldades de comunicação com os outros atletas por causa da língua, o africano demonstra dificuldades técnicas e biomecânicas difíceis de serem corrigidas. "É como você querer aprender a tocar violão depois dos 30 anos ou a dirigir depois dos 50", comparou.
A falta de senso de posicionamento também mereceu críticas do treinador. "Ele ficou o tempo todo parado no meio da área. Parece um jogador de rua", disse Moura, sem saber que, de fato, a única experiência futebolística de Mohamed foi justamente nos campeonatos de futebol de rua da capital Conacri, em que ostenta, com orgulho, um título em três competições disputadas.
Contrariando todos os prognósticos, Mohamed se disse satisfeito com seu desempenho. "Eu acho que eu vou ficar aqui", declarou o adolescente, que mesmo acompanhado de um intérprete, tem dificuldades de comunicação. Em seu país, apenas as crianças que estudam falam francês. Seus pais falam o dialeto sussu.
Ilegal no País, Mohamed sabe que a chance de continuar a viver no Brasil não está em suas mãos. Mas enquanto estiver sob a tutela do juizado de menores, disse que não pretende dar por vencida a batalha para se transformar em astro do futebol, mesmo se for reprovado pelo Bahia. "Tem outro clube de futebol por aqui?", pergunta. O Vitória e o Galícia não perdem por esperar.
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