Tiago Camilo lutou há dois dias, mas ainda fica emocionado ao se lembrar do Mundial de Roterdã. A derrota na estreia da competição foi uma das mais dolorosas de sua carreira. Maior judoca brasileiro, dono de título mundial e medalhas olímpicas, chorou muito pelo resultado.
Um dia depois de ter levado ippon do sul-coreano Kyu-Won Lee, ele falou ao
UOL Esporte sobre o impacto que esse resultado terá em sua carreira. O torneio na Holanda marcou a largada oficial de seu quarto ciclo olímpico, em uma nova categoria. O que poucos se lembram, porém, é a dificuldade que o próprio judoca enfrentou em sua mudança anterior.
Em Sydney-2000, ele se tornou vice-campeão olímpico aos 18 anos. A prata veio entre os leves, com judocas de até 73 kg. Na temporada seguinte, teve problemas no joelho, fez uma operação problemática, voltou a competir e sofreu várias lesões menores. Foram oito meses sem subir no tatame, dois anos sem conseguir resultados expressivos.
A transição dos leves para os meio-médios, até 81kg, foi das mais traumáticas. Dono de uma prata olímpica, não se classificou para defender o Brasil em nenhuma competição internacional até 2004 - quando voltou, foi derrotado na seletiva do país e não foi às Olimpíadas de Atenas.
"Quando subi de categoria, para o 81 kg, foi muito difícil. Eu sei o que é estar por baixo. Ver as pessoas duvidarem que você pode voltar a ter bons resultados. Eu sei o que é preciso fazer para voltar ao topo", afirma o judoca, que três anos depois de perder a vaga olímpica para Atenas, foi campeão mundial no Rio de Janeiro - e, no ano seguinte, conquistou o bronze em Pequim-2008. Confira a entrevista:
O desempenho do Brasil não foi o esperado, principalmente olhando para o que o time fez em 2007, no Rio de Janeiro. Você acha que a comparação entre os dois torneios é jutas?
Tiago Camilo:A gente poderia ter vindo aqui e feito dois campeões, três campeões, quatro campeões, um campeão. Essas derrotas são detalhes de competição. Ainda bem que estamos em um ano em que podemos errar, em que podemos ter esse tipo de resultado ruim. Mas no ano que vem vai ser diferente. Os torneios começam a valer para o processo seletivo para as Olimpíadas de Londres-2012. No meu caso, estou me adaptando, testando, treinando. E quero enfrentar o máximo de adversários possível, conhecer todo mundo, para não chegar na hora e não saber com quem vou lutar. Essa nova categoria é uma novidade para mim. Estou há 11 anos no circuito, é positivo ter novidades.
Você não acha então que subir ao pódio em seu primeiro Mundial na nova categoria era um objetivo grande demais?
Camilo:Era a minha meta, mas sei que é todo um processo de adaptação. Foram só três competições (Grand Slam de Moscou, Grand Slam do Rio de Janeiro e Copa do Mundo de Belo Horizonte) após decidir subir de categoria. Sabia que ia ser difícil fazer o que eu fiz no Mundial de 2007. Sabia que ia ser difícil ir para o pódio imediatamente, mas eu tinha possibilidade de fazer uma boa competição. O atleta que eu derrotei na Rússia foi bronze aqui (Dilshod Choriev, do Uzbequistão). Sei que podia estar ali (no pódio). Mas competições como essa são detalhes. Infelizmente, fiquei na primeira rodada. Mas volto ao Brasil sabendo que tenho muito a fazer, porque eu posso render melhor na próxima competição.
Você chorou bastante após a derrota. É uma reação normal às derrotas?
Camilo:Eu não gosto de perder. Sou muito competitivo na minha vida. Acho que minha história no esporte, em que tive sucesso na maioria das competições em que entrei, torna a derrota, ainda mais na primeira rodada de uma competição grande, um fato muito triste. Só eu sei o quanto me dediquei, o quanto batalhei para isso, para estar no pódio. Então, quando você sai, é um pouco triste. É frustrante saber que poderia ter avançado e, mesmo assim, ficou na primeira rodada.
Você também ficou assim abalado nas Olimpíadas, após perder para o alemão Olé Bishof, em que você era o campeão mundial e grande favorito?
Camilo:Acho que são competições diferentes, categorias diferentes. Mas eu sei que poderia ter ido mais longe nas duas. Nas Olimpíadas, fui bronze, acabei perdendo nas quartas. Mas o esporte é assim. Um dia você ganha, um dia você perde. É isso que vai me manter motivado, saber que coisas assim podem acontecer. Agora é voltar para o Brasil, colocar a cabeça no lugar e continuar trabalhando.
Um tropeço em seu primeiro Mundial na nova categoria pode fazer você repensar a mudança? Voltar a lutar entre os meio-médios?
Camilo:Não. Eu sei que não a transição não é fácil. Mas pela questão motivacional, vale a pena, principalmente para aguentar um novo ciclo olímpico. É preciso de muito combustível, muita energia, para continuar trabalhando, para superar os treinos, o cansaço, a dor. Para se manter ligado, motivado. E você tem de ter uma vontade diária muito grande. E essa mudança esta me mantendo muito ligado.
Você está partindo para o seu quarto ciclo olímpico seguido. Não é cansativo?
Camilo:É desgastante. São quatro anos de dedicação sem saber se lá, no dia, vai receber a recompensa. E todo mundo faz a mesma coisa, todo mundo se dedica na mesma intensidade. O mais importante é fazer no meu dia-a-dia tudo o que eu acredito que é certo, para saber que tenho todos os detalhes a meu favor. Sei que muitas vezes as grandes competições são decididas nos detalhes e ter confiança no que foi feito.
Em momentos como esse, você pensa em parar de competir?
Camilo:Nunca. O mais difícil na vida de um atleta não são as derrotas, mas as lesões. Eu já tive algumas e já estive por baixo. Quando subi para o 81kg. Sei como é ter sucesso e, no outro dia, as pessoas duvidarem de você, do seu trabalho. Questionarem se você pode continuar tendo bons resultados. Depois de Sydney-2000, subi de categoria, sofri uma lesão, fiquei oito meses fora do tatame. Por alguns anos fiquei sem bons resultados. Ninguém mais acreditava em mim, só eu mesmo e minha família. Hoje acho que o mais importante de tudo é que quem está comigo acredita que posso ter sucesso. Sei o que é a dor de estar por baixo e sei que posso dar a volta para cima. Na próxima competição, no próximo ano, na próxima Olimpíada.