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Brasileiro Thiago Alves (d) luta contra Georges St-Pierre, perdendo no histórico UFC 100

31/03/2010 - 07h15

Veto a Thiago Alves reabre discussão sobre segurança no MMA

Maurício Dehò
Do UOL Esporte

Violento ou “de contato”? A discussão sobre a agressividade de esportes como o vale-tudo e o boxe e as consequências de anos de lutadores dando e recebendo golpes reaparece de tempos em tempos. Na última semana, o brasileiro Thiago Alves teve cancelada a sua participação no UFC 111, quando um exame pré-combate detectou uma possível lesão em seu cérebro, depois também avaliada como um suposto sinal de nascença.

FORTE IMPACTO DOS GOLPES PREOCUPA

  • UFC/Divulgação

    Maurício Shogun acerta uma direita incrível em Lyoto Mashida durante duelo brasileiro do UFC 104

  • UFC/Divulgação

    Sangrando muito, Clay Guida é golpeado por Kenny Florian; traumas devido aos golpes na luta podem provocar hematomas na cabeça e convulsões

  • UFC/Divulgação

    Além das lesões de luta, microtraumas podem se acumular e resultar em problemas que se agravam com o passar do tempo, segundo estudos do boxe

Mesmo com a lesão tendo sido detectada antes do combate, de forma preventiva, o debate remete à eficácia de se trazer segurança aos participantes da modalidade em relação a lesões graves de combate, microtraumas que se acumulam na carreira, além de problemas já existentes que aumentam os riscos dentro do octógono.

“Este tipo de prevenção é mais um controle de danos e da saúde do que uma garantia de segurança, porque isso não impede o lutador de receber um golpe mais perigoso, esteja ele íntegro ou não. O importante é que ele possa entrar zerado para lutar”, explica ao UOL Esporte Marco Aurélio Cunha, superintendente do São Paulo, que é médico especialista em ortopedia. “O lutador tem de entrar no combate sem comprometimento, para que possa se expor aos golpes.”

Eventos de grande porte, como o bilionário UFC, apostam num controle grande de seus atletas, como uma forma de garantir a integridade e também de zelar pela própria imagem, comumente alvo dos críticos. Para isso, são realizados exames obrigatoriamente nos lutadores, seja em caso de vitória, ou de derrota.

“Hoje, o UFC e as confederações protegem muito o atleta. Você é obrigado a fazer exames de cabeça para estar apto a lutar. Se o cara está lutando, é porque ele está apto a isso”, explica o lutador Maurício Shogun. “Temos exames de cabeça, entramos na máquina para fazer ressonância, além de exame de sangue e físico. Quando se sofre nocaute é obrigatório ir a um hospital e, mesmo ganhando, existe uma avaliação logo depois da luta”.

“Se foi detectado, é bom para ele”, analisa o também brasileiro Vitor Belfort. “O UFC sempre zela pela integridade física do atleta. Hoje em dia o evento tem um cuidado muito maior, por ter virado uma grande plataforma. Até por ter mais a perder, eles se antecipam a esse tipo de problema”. Nunca foram registradas mortes no maior evento de vale-tudo da atualidade.

O médico Clóvis de Oliveira Guedes, neurologista do Hospital Nove de Julho, atenta para as lesões que podem ocorrer no momento da luta, devido ao forte impacto de socos, chutes e joelhadas. Hematomas na parte externa da cabeça provenientes do forte impacto e da aceleração e desaceleração da cabeça podem comprimir o cérebro e causar grandes estragos, principalmente se o lutador entrar no octagon já com algum tipo de lesão.

“Este quadro mais intenso, no entanto, é o que é menos comum, que pode chegar à morte”, explica o neurologista, que relaciona ao tema estudos feitos com o boxe, que já tem uma base maior de pesquisa.

UFC FIGHT NIGHT TEM FLORIAN E 5 BRASILEIROS

Nesta quarta-feira à noite, em Charlotte, 11 lutas movimentam o UFC Fight Night, com a presença de brasileiros nas preliminares. A luta principal da noite é entre o norte-americano Kenny Florian, que vem de vitória contra Clay Guida, e o estreante Takanori Gomi, do Japão. Antes deles, Roy Nelson (EUA), vencedor do The Ultimate Fighter, enfrenta o holandês Stefan Struve. Entre os brasileiros, confira as lutas: Andre Winner (ING) x Rafaello Oliveira; Jacob Volkmann (EUA) x Ronnys Torres; Caol Uno (JAP) x Gleison Tibau; Yushin Okami (JAP) x Lucio Linhares; Gerald Harris (EUA) x Mario Miranda.

“Mas, se formos ver o que vai resultar na demência pugilística, com um quadro parecido com o do Alzheimer, ou no mal de Parkinson, são os microtraumas que são acumulados durante a carreira”, completa.

Assim, a exposição por muitos anos aos golpes em treinos e nas lutas pode se acumular. Os exames feitos antes e depois das lutas observam lesões maiores, mas o lutador pode apresentar pequenos traumas que se agravam com o decorrer do tempo.

Apesar do risco, Guedes afirma que existem outros tipos de observação podem contribuir na prevenção de quadros agravados, ajudando os lutadores.

“Estas microlesões podem existir, mesmo que você não possa ver nada em ressonâncias e tomografias. No entanto, é possível notar déficit de atenção, perda de memória por um período, alteração no fluxo de sangue cerebral... Outros fatores podem mostrar que já existe um problema”, observa.

LUTADORES ESTÃO PREPARADOS PARA ISSO, MAS TREINO TAMBÉM É ‘PROBLEMA’

Apesar de se submeterem a um esporte agressivo, os lutadores têm a noção dos perigos do vale-tudo. “Com certeza sabemos que é um esporte de contato e, fazer o quê, estamos correndo um risco, mas fazemos o que gostamos”, diz Shogun, que terá revanche contra Lyoto Machida, em maio, pelo cinturão dos meio-pesados do UFC.

Os riscos existem, mas a diferença dos lutadores para uma pessoa comum é o preparo para o impacto.

MÉDICOS E LUTADORES DEBATEM O TEMA

Você é obrigado a fazer exames de cabeça para estar apto a lutar. Se o cara está lutando,  está apto a isso

Maurício Shogun, lutador do UFC

Você pode não ver nada, nos exames, mas microlesões podem já existir

Clóvis Oliveira Guedes, neurologista

Se foi detectado, é bom para ele. O UFC sempre zela pela integridade física do atleta, até por ter mais a perder

Vitor Belfort, lutador do UFC

Este tipo de prevenção é mais um controle de danos e da saúde do que uma garantia de segurança, porque isso não impede o lutador de receber um golpe mais perigoso, esteja ele integro ou não

Marco Aurélio Cunha, médico ortopedista

Eu estou realmente triste, e nem um pouco preocupado com a minha saúde. Eu sei que estou bem. Só estou triste por não poder lutar

Thiago Alves, que teve lesão constatada e a luta cancelada no UFC 111

“Se o sujeito acertar um soco realmente potente na cabeça, é evidente que pode haver uma lesão de proporção grave. Mas os lutadores são fortes e treinam para receber o impacto”, destaca Marco Aurélio Cunha.

“A musculatura cervical é forte e existe um trabalho preventivo que os capacita a receber o impacto até certo ponto. Mas é claro que do ponto de vista puro não dá para se dizer que é um esporte saudável, mas sim de risco”, adiciona.

Shogun lembra que não são só os combates que têm papel importante na discussão. Ele deixou de fazer sparrings (treinos de simulações de lutas) tão fortes e diminuiu a intensidade desse tipo de preparação em sua academia, inclusive notando com isso uma queda no número de lesões.

“Na minha experiência, o que mais machuca são os sparrings. A luta é mais tranquila”, explica ele, sobre a força dos golpes nos treinos, para “acostumar” o atleta. “Hoje eu me desgasto menos, tenho menos contusões e chego melhor para o combate. E, além disso, quero lutar por mais uns dez anos.”

DANA: “ELE É MUITO JOVEM”; BRASILEIRO NÃO RESPONDE

O presidente do UFC se pronunciou logo após o cancelamento da luta de Thiago Alves, que seria contra o norte-americano Jon Fitch. “Isto não faz o menor sentido, porque ele é muito jovem”, declarou Dana White, que encaminhou o lutador a um especialista. “Mas é algo que deve ser tratado com muita seriedade”.

O brasileiro fez duas ressonâncias magnéticas e uma tomografia, e os médicos acusaram algo inicialmente identificado como uma hemorragia no cérebro, que mais tarde foi considerado como um sinal de nascença. Mesmo assim, os comissários do evento que foi realizado em Nova Jersey não se sentiram confortáveis para liberá-lo ao combate, uma vez que os riscos de um atleta já lesionado se multiplicam.

“Eu estou realmente triste, mas nem um pouco preocupado com a minha saúde. Eu sei que estou bem. Só estou desapontado por não poder lutar”, declarou Alves ao Yahoo Sports, na ocasião.

A reportagem do UOL Esporte tentou entrar em contato com o lutador brasileiro por meio de seu empresário, mas nenhum dos dois quis falar sobre o assunto e atualizar a situação de Thiago Alves.

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