Antes mesmo de conquistar sua medalha dourada, César Cielo já era um atleta que passava tranquilidade e segurança. Mas, apesar da aparente calma, o nadador admite que tem dificuldades para manter o foco quando não está nas competições e que, após o ouro olímpico, terá de se esforçar para recuperar a motivação de voltar o auge da modalidade.
Com apenas 22 anos, Cielo terá pela frente quatro anos de treinos tão exaustivos quanto os que o levaram à conquista em Pequim. "A motivação pós-Olimpíadas é o mais difícil, mas estou pronto para passar por isso de novo", garante ele, que espera estar nas piscinas ao menos até as Olimpíadas de 2016.
Parte fundamental para isso é a estrutura que tem em Auburn, no estado do Alabama, nos Estados Unidos. Na universidade local, para onde viaja no próximo sábado, ele voltará a contar com o técnico Brett Hawke. Além de toda a infra-estrutura, ele conta também com a calma do local.
"Tenho de saber controlar o meu lado psicológico durante a temporada. Nas competições não tenho problema, mas entre as provas é o mais difícil", conta ele, que tem três "especialistas" como psicólogos, o técnico: seu pai e sua mãe.
Ela, inclusive, teve de viajar às pressas certa ocasião, antes dos Jogos de Pequim, para acalmar os ânimos do filho. "Minha mãe teve de viajar para acertar as arestas por lá. Eu estava para sair", afirmou, sobre uma crise de relacionamento com Brett Hawke. Em outros momentos, disse ter passado por um stress a ponto de querer "jogar tudo para cima".
Passado isso, o que se sobressaiu foi a relação entre atleta e técnico, que Cielo não pensa em mudar. "Tenho confiança total no Brett. Ele sabe o que pode ou não falar e, por ser de uma idade próxima e ter nadado os 50 m, é mais fácil de nos entendermos".
Esta relação profissional também foi um dos motivos para que Cielo optasse por deixar o Brasil mais uma vez para treinar nos Estados Unidos. Apesar de preferir o clima brasileiro, ele aposta no clima mais sério dos norte-americanos para conseguir ter um enfoque mais claro em sua preparação, tendo como objetivo o ouro no Mundial e o recorde mundial dos 50 m livre, hoje de Eamon Sullivan (AUS), com 21s28.
Apesar disso, ele afirma que não enfrentaria problemas se resolvesse ficar em São Paulo. "Capacidade técnica todos têm, mas lá é possível participar com mais facilidade de um grande número de competições, sem ter de pegar um vôo de dez horas. Além disso, o grupo é maior e mais competitivo nos treinos. Sei que tenho de voltar se quiser continuar ganhando", explicou Cielo, sobre a decisão, apesar de também se dedicar a competir pelo clube Pinheiros nesta temporada.
Competição externaÉ claro que a disputa de Cielo não é apenas contra si mesmo ou o cronômetro. Por isso, ele já escolheu a dedo o principal rival de sua temporada. Ele aposta que terá dificuldades com o francês Amaury Leveaux, medalhista de prata em Pequim, logo atrás do brasileiro nos 50 m livre.
"Ele tem só 23 anos, então acho que vamos nos cruzar bastante na piscina, porque provou ter um potencial muito grande. Acredito que ele será um dos meus principais rivais tanto nos 50 m quanto nos 100 m", disse Cielo, que também ficará atento ao recordista dos 50 m livre, Eamon Sullivan.
O problema, segundo o brasileiro, é que a pressão no Mundial é menor do que a enfrentada pelos nadadores em uma Olimpíada. Assim, Cielo espera que rivais que não tiveram bom desempenho em Pequim mostrem maior intensidade, enquanto outros podem cair de rendimento em Roma.
"Eles devem estar numa pilha até maior", admite Cielo, sobre a vontade dos rivais em batê-lo. "Mas já ganhei deles, já os conheço. O Brett deve trazer um novo gás para os treinos e não vou me colocar atrás de ninguém para voltar a vencer."