Ela é baiana, tem 16 anos e, enquanto muitas de suas conterrâneas de mesma idade aproveitam o carnaval para se divertir nas ruas de Salvador, Ana Marcela Cunha treina em Santos para conquistar uma medalha na maratona aquática do Mundial de Roma, que acontece em julho. A nadadora espera, com um bom resultado na capital italiana, ganhar fama e atrair patrocinadores, algo que não aconteceu mesmo depois de ter sido quinta colocada nos Jogos Olímpicos de Pequim, superando a experiente compatriota Poliana Okimoto, que ficou na sétima posição.
"Se eu for bem, ficar entre as primeiras colocadas, com certeza virão mais patrocinadores, surgirão empresas interessadas. Até porque vai ser o começo de um ciclo olímpico no qual estou muito focada", afirma a nadadora que, mesmo ficando entre as cinco melhores da primeira edição olímpica da maratona aquática, conta apenas com o apoio de seu clube, a Unisanta, e dos Correios por meio do patrocínio à Confederação Brasileira de Ginástica. É inclusive, menos conhecida que Poliana, rival que já superou.
"Acho que ainda se fala mais na Poliana porque ela está aí há mais de quatro anos disputando competições importantes e conquistando resultados. Eu estou chegando agora. Mas, se mantiver meu ritmo, sei que posso me tornar conhecida pelo público em geral", diz.
A ascensão de Ana Marcela foi meteórica. Em 2004, quando aconteciam os Jogos de Atenas, a nadadora tinha apenas 12 anos e sequer imaginava nadar no mar(a prova ainda sequer fazia parte do quadro de disputa do torneio). No ano seguinte, porém, ela caiu nas águas salgadas para disputar o Circuito Brasileiro da modalidade e venceu duas etapas. Em 2005, com 14 anos, levou o título da competição, feito que repetiu em 2007, quando também foi sétima colocada no Pan do Rio de Janeiro.
Segundo ela, o principal diferencial em sua carreira foi mudar-se para Santos. A família acompanhou. Os pais, para não deixá-la sozinha, fecharam uma loja de produtos para animais na capital baiana e acompanharam a filha na mudança.
"Ao contrário do que muitos podem pensar, eu treinava mais em Salvador do que em Santos. Mas, aquim aprendi que o descanso também é importante", afirmou. Quem montou o trabalho da jovem nadadora foi o técnico Marcio Latuf. "Acreditei nele e ele acreditou em mim", diz.
Uma das principais decisões de Latuf foi, por mais curioso que seja, tirar Ana Marcela das águas abertas. Em Salvador, Ana Marcela treinava no mar todos os domingos. Em Santos, só sai da piscina para competir. "Ganhei foco. Em Salvador era assim: eu nadava de um lado para o outro sem nenhum objetivo. Não precisava disso. Eu precisava era de foco", disse. O resultado da mudança? A quinta posição em Pequim.
"Em 2008 abdiquei da disputa de boa parte das etapas do Circuito Brasileiro por causa da preparação olímpica. E acho que valeu a pena. Fiz um trabalho bem específico, focado, e gostei do resultado. Talvez pudesse até me saído melhor. Mas nadei sem pressão e o resultado veio", analisou a brasileira, que foi acusada pela campeã russa Larisa Ilchenko de tê-la agredido durante a prova. Poliana também reclamou de Ana Marcela que, por sua vez, também se queixou de Poliana.
Ana Marcela nega a pancadaria: "A russa saiu dizendo que as brasileiras achavam que maratona aquática é boxe. Mas não tem nada disso. Na maratona, não tem raia, as nadadoras acabam se tocando eventualmente na disputa de posições. Mas, agressão, não teve".
Quando deixou lago artificial construído para os Jogos Olímpicos no distrito de Shunyi, Ana chegou a afirmar que a disputa particular com Poliana atrapalhou o desempenho das duas. As brasileiras chegaram brigar pela terceira posição, mas acabaram se distanciado das primeiras colocadas. "Era uma querendo ganhar da outra, ficamos sem vácuo. Atrapalhou", confessou a quinta colocada na ocasião. Poliana foi a sétima.
Segundo ela, entretanto, o mesmo não deverá acontecer no Mundial de Roma. "A maratona aquática é um esporte individual, então não dá para traçar uma estratégia em grupo. E, pelo que sei, teremos táticas diferentes na Itália, o que diminui a disputa direta", finalizou Ana Marcela.