Eles vestem a touca de clubes do Brasil e desfilam à vontade em meio aos atletas, mas ouvidos mais atentos podem notar que um pequeno grupo se diferencia dos brasileiros que disputam o Troféu Maria Lenk.
A cada ano uma série de estrangeiros chegam ao Rio de Janeiro para buscar o que não encontram em seus países de origem. A maioria deles sai das piscinas da América do Sul.
"Na Colômbia, eu nado sozinha, sempre ganho com 2s ou 3s de vantagem. É triste que seja assim. Venho ao Brasil duas vezes ao ano para competir, aumenta muito meu nível", diz a colombiana Carol Colorado, 21, do Minas, quarta colocada nos 100 m borboleta, hoje.
O Brasil já era referência de natação no continente. O status do país só aumentou com o ouro olímpico de César Cielo.
Os países vizinhos conseguem descobrir novos talentos e até treiná-los, mas não têm atletas suficientes para criar um campeonato competitivo.
Neste ano, nove estrangeiros estão inscritos para o Maria Lenk, que define a seleção que vai ao Mundial de Roma.
"Hoje ainda é possível ficar treinando lá e, quando fizer 18 anos, ir para os EUA ou outro país estudar e nadar. Mas, na minha época, não havia como ficar na Argentina e ser atleta de elite", afirma Juan Pereyra.
O nadador de 28 anos chegou ao Brasil aos oito para acompanhar a irmã nadadora. Passou por alguns clubes e, mais velho, conseguiu trabalhar com um técnico argentino e ter verba para viajar pelo mundo. Mas todo ano está no Maria Lenk.
Juan não é nem mais considerado estrangeiro _cada clube pode inscrever dois. Quem não tiver uma equipe também pode nadar "em observação", representando só seu país.
"O campeonato tem maior número de nadadores de alto nível", afirma Juan, ex-dono do recorde do torneio dos 1.500 m, quebrado por Luiz Rogério Arapiraca, ontem.
Juan ficou em sétimo no Rio, resultado que pode atrapalhar seus planos de ir a Roma. Na Argentina, seis nadadores disputam vários torneios e somam pontos. Os melhores ganham as vagas. "É mais difícil conseguir a vaga lá do que no Brasil", diz o nadador do Corinthians.
Em 2007, o Maria Lenk serviu como seletiva de vários países para o Pan e 18 estrangeiros disputaram a competição.
Kristel Kobrich era uma das que estavam na piscina naquele ano e nas últimas seis edições. A chilena detém o recorde do campeonato dos 800 m livre.
"A infraestrutura aqui é muito maior do que no Chile, e os índices são mais fortes. Te obriga a nadar o seu melhor", diz a atleta do Corinthians.
Os sul-americanos também acham no Brasil algo, para muitos, raro: dinheiro. "Na Colômbia você paga para nadar. Paga suas viagens, seu uniforme, o clube, é muito difícil... Aqui, você recebe da sua equipe. É incrível", afirma Carol.