Felipe França, novo recordista mundial da natação brasileira, deixou a piscina dizendo que César Cielo era um dos motivos para a nova marca. Jovem de 21 anos, ele contou que assistir ao título olímpico do amigo foi um dos motivos que o fez perceber que era possível estar entre os melhores do mundo.
"Olha, se tive uma parcela nisso, foi bem pequena", riu o medalhista de ouro. "Mas se ele citou (o meu nome), é porque foi importante. Antes das Olimpíadas, todo mundo brincava comigo. Depois, percebi que todos ficaram mais sérios. Aumentou o profissionalismo. É bom saber que mostrei o caminho para chegar ao topo do mundo", completou Cielo.
Gustavo Borges, dono de quatro medalhas olímpicas, enalteceu a qualidade do Troféu Maria Lenk, que está sendo disputado no Rio de Janeiro desde a última terça-feira. Em quatro dias, o torneio teve, por exemplo, César Cielo fazendo a quinta melhor marca da história dos 50 m livre (21s33) e Henrique Barbosa marcando melhor do ano e a segunda melhor da história nos 200 m peito (2min08s44).
"Todo o resultado do Maria Lenk está sendo surpreendente. Sabia que o pessoal estava motivado com os novos maiôs, mas um recorde mundial é surpresa. Eu já tinha ficado surpreso com o tempo do Henrique e agora vem o França. É surpreendente. O último recorde foi do Ricardo Prado (em 1982, nos 400 m medley), e ele vem para abrilhantar a equipe no Mundial de Roma", comemorou Borges.
O ex-atleta ressaltou também a qualidade dos nadadores do estilo brasileiro. "O engraçado que o nado peito era o mais fraco na minha época", disse. "Mas o que se vê hoje é muito mais talento. Temos muito mais atletas com condições de lutar por uma final olímpica, em todos os estilos".
Contido e tímido, Felipe França nasceu em Suzano e, ainda adolescente, se mudou para São Paulo. Na capital, morou no mesmo apartamento que Fernando Silva. Quase vizinhos, outros jovens nadadores do Pinheiros: Guilherme Guido e César Cielo. "A gente era bem amigo, estava sempre na casa um do outro. Então, ver o cara sendo campeão olímpico é um estímulo", disse o atleta.
Para o técnico Arilson França, o título olímpico de Cielo foi o motivador da mudança de toda a natação brasileira. "É a quebra de barreiras. Quando você vê um atleta conseguindo isso, todos passam a acreditar que é possível. E os nadadores de peito, todos eles, estão nessa fase. O Henrique fez aquele tempo (o segundo melhor tempo da história), a Carol Mussi chegou ao índice. Eles olham para o lado, vêem que é possível e também acreditam que não têm limites (para o que eles podem fazer)", falou o treinador.
Desde a participação olímpica, a preparação de Felipe mudou. Ele terminou com o 22º lugar, mas tanto ele, quanto o treinador acreditavam que era possível fazer mais. Para tirar todo o potencial dos 1,86 m e mais de 90 kg, ele passou especificar os trabalhos de musculação, integrando os movimentos com o que era feito na água.
"O treino mudou bastante, com mais ênfase no preparo físico. Ganhei mais velocidade, mais explosão, mudei minha mecânica de nado. Nas últimas três temporadas, eu fiz três estilos diferentes de treino. E acho que os melhores resultados estão saindo agora", admitiu o novo recordista.