Antes do início do Troféu Maria Lenk, os nadadores corriam para comprar o supermaiô Jaked. A movimentação foi tão grande, que quem trouxe peças extras do traje da moda, que usa ao limite os furos da regra da Federação Internacional, ganhou dinheiro.
Quem mais lucrou com isso, porém, foi a imagem da natação brasileira. Vestindo o xodó das piscinas do mundo, os nadadores verde-amarelos vão chegar ao Mundial de Roma, em julho, entre a elite da modalidade no planeta.
O torneio, disputado na semana passada no Rio de Janeiro, teve 43 quebras de recordes brasileiros, sul-americanos ou mundiais. Dessas, 33 foram obtidas com o Jaked. Outras três são marcas do revezamento - sem contar que, dos 15 nadadores, cinco estavam com a peça. As demais quebras foram obtidas com o Bluesenventy (5, um deles em revezamento), Arena R-Evolution (6, três deles em revezamento) e Speedo LZR (3, no revezamento).
"Eu sei que a performance de quebra de recordes é maior do que o uso do Jaked. Agora, é inegável que as grandes performances da competição foram obtidas usando o maiô. E não tenho dúvida de que ele teve influência na performance dos nadadores que subiram no ranking mundial", explica Alex Pussieldi, o Coach, editor do site especializado em natação Best Swimming, autor do levantamento acima.
A revolução do Jaked tem origem nos furos da regulamentação para trajes da Fina. A peça, criada por um italiano, é toda feita de material impermeável e ajuda na flutuação do nadador. "Ajuda bastante sim. No final da prova, parecia que tinha ligado o turbo", conta Gabriel Mangabeira, recordista sul-americano dos 100 m borboleta com o Jaked.
A opinião dos nadadores, porém, é de que os novos trajes são benéficos para o esporte. "A natação precisa da tecnologia. É claro que assusta apagar os grandes nomes da lista dos recordes, mas essa evolução é normal", diz César Cielo, que está testando o novo X-Glide, maiô da marca Arena bem parecido com o Jaked.
O importante, ressaltam os atletas, é garantir a acessibilidade aos trajes. "O maiô ajuda, mas no Mundial, todo mundo vai estar usando. Então, as condições vão ser iguais. Isso é o que importa", diz Mangabeira. "Na França, é mais fácil conseguir os maiôs. Existiam representantes de todas as grandes marcas. No Campeonato Francês, inclusive, as grandes marcas tentaram abafar o representante do Jaked, mas eu consegui dois maiôs sem muitos problemas", completa Henrique Barbosa, dono da segunda melhor marca na história dos 100 m e 200 m peito.
"Hoje, a natação envolve tecnologia em tudo o que é possível. Não podemos esquecer, porém, que todo o mundo está usando os mesmos maiôs que os brasileiros", afirma Ricardo de Moura, supervisor técnico da seleção que vai ao Mundial. "O maiô é um fator que explica a melhora. Mas não podemos esquecer da evolução no treinamento, na técnica. Afinal, o maiô precisa de um nadador dentro", completa o dirigente.
A discussão sobre maiôs voltou à tona, principalmente, após a quebra do recorde dos 100 m livre do francês Alain Bernard. O campeão olímpico nadou a prova em 46s94 usando o maiô X-Glide, o mesmo que Cielo está testando. O traje ainda não foi aprovado pela Fina, que deve anunciar, no fim de maio, a lista dos supermaiôs aprovados para o Mundial de Roma, em julho. "Psicologicamente, ajuda muito ter o maiô que você considera o melhor. Mas é preciso criar regras, ou daqui a pouco vão colocar um motor", opina Moura