UOL Esporte Natação
 
15/05/2009 - 07h15

Técnico do 'ex-gordinho' Felipe França conta com dicas de 'guru' japonês

Maurício Dehò
Em São Paulo
O paulista Felipe França não foi o único a pular de alegria após o recorde mundial quebrado na última semana, quando o nadador conseguiu a melhor marca da história dos 50 m peito, com 26s89. Tanto quanto ele, o treinador Arilson Soares também teve razões de sobra para comemorar, após cinco anos de trabalho com o pupilo, um mero gordinho quando chegou para trabalhar no Pinheiros. Na receita para o sucesso, estão as dicas do ex-técnico de um campeão mundial.

Arilson, que treina seis especialistas em nado peito no clube paulistano, conheceu Felipe durante o Campeonato Brasileiro Interfederativo, quando o garoto ainda nadava em Suzano. "Nesta competição, em 2004, ele pediu para treinar com o pessoal do Pinheiros, queria fazer um trabalho específico para peito. Foi aí que nos conhecemos, e já vi o quanto ele era forte e que poderia ir longe", conta o técnico, que já sonha com uma melhora de até oito décimos na marca de França.

Em uma prova que, segundo o próprio treinador, sempre foi o calcanhar de Aquiles da natação brasileira, foram os ensinamentos de um japonês que mudaram a direção dos treinamentos do nado peito. Arilson conheceu o técnico Norimasa Hirai em 2003, o responsável por medalhas e recordes do famoso japonês Kosuke Kitajima, o atual bicampeão olímpico dos 100 m e 200 m peito. Com isso, conseguiu dar uma virada em seus treinos.

"Tivemos um entrosamento muito legal no Mundial de Barcelona, em 2003, com troca de informações e, a partir dali, ele virou a minha referência. Temos contato até hoje", afirmou Arilson, sobre Hirai, hoje técnico principal da seleção japonesa. "Fomos ajudados pela evolução tecnológica e passamos a observar a parte técnica dos atletas, colocar isso como referência, transferindo para a nossa realidade e fazendo com que nossos nadadores nadem como os grandes atletas."

Na relação com Hirai, até presentes foram trocados, como em uma ocasião em que o técnico presenteou Arilson e Albertinho, também do Pinheiros, com leques japoneses.

TÉCNICO DE FELIPE SE ESPELHA EM RECORDISTA JAPONÊS
AFP
Para o técnico Arilson Soares, é possível melhorar de 5 a 8 décimos com Felipe
AP
O japonês Kitajima, atual bicampeão nos 100 m e 200 m peito, foi treinado por Hinai
CIELO ELEGE COLEGA COMO RIVAL
FRANÇA TEM DE PERDER MÚSCULOS
Com a base técnica para ser passada em diante e os adventos da tecnologia que ajudaram na preparação, um trabalho de longo prazo foi feito até resultar no feito de Felipe França. O recordista, por exemplo, teve de perder muito peso desde que chegou a São Paulo.

"Ele chegou como gordinho, e conseguimos chegar neste padrão físico que ele está agora. Desde que ele chegou aqui, ele perdeu pelo menos uns oito quilos de gordura. Agora, é tudo massa muscular", explicou o treinador, que estuda a perda de 2 a 3 kg de músculos, para aumentar a velocidade do nadador no Mundial de Roma, em julho.

O cuidado com Felipe é especial. Como o nadador tem de passar muito tempo longe da família, é o técnico quem fica atento às nuances de seus aspectos emocionais. "Somos amigos, damo-nos muito bem. Conversamos muito, mesmo porque, como ele mora longe da família, eu tenho de estar sempre presente e evitar qualquer perda neste lado psicológico", explicou Arilson.

Atenção, talento e "fator Cielo"
A força mental é um dos fortes de Felipe, segundo Arilson, com uma cabeça voltada aos treinos, além de uma disciplina fundamental para atingir seus resultados. "Ele sempre foi muito habilidoso. Toda proposta de mudança que fazemos, ele assimila bem, e é muito atento aos treinos", comentou Arilson Soares.

Uma das viradas que impulsionou a carreira do paulista foi com a classificação para a Olimpíadas de Pequim. Mesmo com a 22ª colocação, apenas, outra prova chamou a atenção do nadador, mudando mais uma vez suas expectativas dentro da piscina.

"Depois de conseguir o índice olímpico, ele viu o César ser campeão. E juntou tudo isso: habilidade, atenção, a competitividade nos treinos e a motivação. Estes fatores levarem ele a esta evolução e o Cielo foi fundamental, pois mudou o padrão brasileiro", completou ele, que não define marcas específicas para seus nadadores, por achar que um número específico "limita" os atletas.

Com um atleta com grandes chances de ouro nos 50 m e um trabalho de longo prazo, para Londres-2012, voltado para os 100 m, Arilson considera que o momento do Brasil é bom para que o nado peito volte a ter reconhecimento. "Acho que esta é a hora do nado peito. Hoje, chegamos no máximo da performance. Subimos um degrau muito importante e na hora certa, porque começamos em nível mundial o novo ciclo olímpico."

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