UOL Esporte Natação
 
29/07/2009 - 16h22

Prata, Felipe França admite: "senti uma pressão muito grande por ouro e recorde"

Bruno Doro
Em Roma (Itália)
Quem viu a cerimônia de medalhas da prova dos 50m peito achou que Felipe França simplesmente se ajoelhou e agradeceu a Deus. Não. Foi algo um pouco maior. Gigante de 1,86m e 90kg de músculos, ele disse que, quando subiu ao pódio, perdeu as forças. "Meus joelhos estão doendo da batida no chão. Se não tivesse me segurado, não sei o que iria acontecer".

"SEMPRE FICO ASSIM, COM O CORAÇÃO SAINDO PELA BOCA"
Satiro Sodré/CBDA/Divulgação
Felipe França não escondeu a emoção com a prata nos 50 m peito no Mundial de Roma
Você disse que ficou bem nervoso antes da semifinal. Isso sempre acontece?
É algo meu. Sempre foi assim, com o coração quase saindo pela boca. Na 1ª competição brasileira que ganhei, há seis anos, senti isso. Mas naquela época eu falava com a minha mãe. Não tinha toda essa estrutura que tenho hoje. Não tinha um Ari (técnico, Arílson Soares) para me ajudar. Falava com minha mãe e isso me acalmava.

Você tem algum ritual antes da prova, para ajudar nisso? Você é sempre muito calado ao entrar na piscina.
Se você perceber, não tiro o fone (de ouvido) em momento algum. Isso é um trabalho meu e do Ari pra conseguir a maior concentração possível. E mantendo essa concentração, sai a prova perfeita. Eu e o Ari trabalhamos muito a energia. Se eu ficar brincando antes da minha prova, ia desperdiçar uma energia que deveria ser usada dentro da água.

E fora da piscina, também é calado?
Com pessoas que tenho intimidade, sou bem mais solto. Com o Cielo, por exemplo. Parecemos irmãos. Eu brinco com ele, ele brinca comigo. É uma coisa muito legal. Mas com quem não tenho intimidade, sou mais fechadão.

Foi por causa dessa amizade com o Cielo que você começou a fazer os mesmo rituais que ele?
Eu vou falar agora porque ganhei medalha no Mundial e todo mundo me viu. Em 2007 eu já fazia o jato de água (com a boca) e fazia todos os rituais, mas só agora começam a me comparar com ele. Acho que é só coincidência.
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A cena emocionou quem assistiu e surpreendeu quem o acompanha. O nadador, que ganhou a primeira medalha brasileira na natação em piscinas desde 1994 em campeonatos mundiais não é um adepto de demonstrações públicas de seus sentimentos. Mas a pressão que ele enfrentou nos últimos dias foi demais para segurar.

Felipe chegou ao Mundial de Roma, que termina no próximo domingo, como o recordista mundial, dividindo os holofotes com o principal nome da história da natação brasileira, o campeão olímpico César Cielo. Mesmo assim, lá dentro, ele não tinha certeza se seria capaz de fazer o que queria na piscina do Foro Itálico.

Poucos viram, mas foi antes da semifinal o momento da virada. Dez minutos antes de nadar (e fazer o segundo melhor tempo da história até então), uma conversa com seu técnico, Arílson Soares, foi reveladora. "Eu sentia uma coisa que não sei direito o que era. Na minha cabeça, parecia grande demais o fardo de ganhar a medalha de ouro. Parecia ser grande demais o fardo de ter que bater o recorde de novo. Parecia ser grande demais o fardo de ter de bater na frente a minha série", admitiu.

Arílson, técnico de Felipe desde a adolescência, percebeu o nervosismo. Segundo o nadador, disse que a medalha já era do brasileiro, por todo o esforço feito antes do Mundial. "Ele estava preocupado, achava que era obrigação vencer, bater um novo recorde mundial. Acho que é normal isso. É o primeiro mundial dele. Era a primeira vez que anunciavam o nome dele em uma competição assim", relembra Soares.

"Essa semifinal foi muito difícil. Estou muito feliz com essa medalha de prata. E agradeço a Jesus Cristo e Ari por isso. Ainda estou abalado com o que aconteceu. Está pesado. Tem algo dentro de mim que está me segurando. Eu acho que é alegria. Daqui a pouco vou chorar de novo".

A cena do pódio, segundo o próprio Felipe, já tinha acontecido antes. Em maio de 2008, ele foi a grande surpresa da seletiva brasileira. Conquistou a vaga para as Olimpíadas de Pequim de última hora, após ver rival depois de rival obterem marcas que o tirariam da equipe verde-amarela. Quando deixou a piscina, quase desmaiou. "No Maria Lenk, eu me segurei em uma grade. Aqui, foi no pódio. Falta força mesmo".

Durante o Mundial de Roma, Felipe conseguiu superar outro problema. Ao lado de Gabriella Silva, ele sofreu uma intoxicação alimentar, passou uma noite sem dormir, vomitou muito. Como qualquer pessoa, chegou a pensar que estaria abalado demais para competir ao nível que esperava.

"Em Portugal, na aclimatação, tudo estava muito bom. Estava me sentindo o mais rápido do mundo. Quando cheguei aqui, fiquei mal, com enjôo. E poderia ter me abalado. Se não fosse o Ari, se não tivesse a cabeça firme, no lugar, e não quisesse tanto, não teria chegado onde estou".

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