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Carina Hata/UOL

Elas merecem a
cobrança pelo ouro
Daniel Tozzi
Em São Paulo

Beira o inútil lembrar quem são as jogadoras que ficaram com a prata no futebol. Você, caro leitor, provavelmente nunca ouviu falar sobre a maioria delas. Em compensação, já deve ter ouvido reclamações de falta de apoio, organização, estrutura. Mas nunca delas, as jogadoras de futebol. Até porque você mal sabe que elas existem.

Veteranas, como Pretinha e Formiga, e as raríssimas estrelas, casos de Kátia Cilene - ausente em Atenas por contusão - e Marta, talvez tenham habitado ou permaneçam no imaginário popular por mais alguns meses, mas não mais quatro anos.

Mas elas não se importam tanto com isso. Gostariam que fosse diferente, claro. Que suas estadas na Granja Comary, centro de treinamento da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), tivessem um décimo da badalação que têm as dos pentacampeões. Podem até sonhar com o assédio constante nas ruas, em jornalistas querendo contar suas histórias. Até mesmo em fazer marketing em ensaios para revistas, como admitiu Kátia Cilene. Mas, como escrevi, essa não é a prioridade delas. Querem bem menos. Na realidade, muito mais, dada a situação do futebol feminino no Brasil.

Elas querem ser profissionais. Só isso. Pode parecer pouco, mas não no Brasil. No exterior elas já têm esse "privilégio". EUA e Suécia têm várias brasileiras em suas ligas femininas. É inusitado, mas no auge da mercantilização do futebol, o Brasil, macro-exportador de talentos, ficou muito perto de ganhar seu primeiro ouro com um grupo de amadoras, pois, dentro do país do futebol, é isso o que elas são. Amadoras.

Não há campeonatos regulares no Brasil. Lembram da Paulistana? Claro que não. Já era. Acabou. Previsão de volta? Não tem. Elas usam o uniforme da Nike e o símbolo da CBF. O patrocinador, todos sabem, quer saber mesmo é de vestir o time masculino. Mas até descolou umas camisas mais largas e shorts mais curtos para as moças.

Em cima do brasão da CBF, estão as cinco estrelas conquistadas pelo time masculino. Elas sonhavam contribuir com o ouro. A reportagem do UOL Esporte foi à Granja Comary no fim de junho, durante uma das semanas de preparação da equipe para Atenas. Conversou com várias jogadoras. Não falavam apenas em ganhar medalha. Falavam como campeãs do futebol. Falavam em ouro. Confiavam nisso para mudar a modalidade no país.

O ouro não veio. As mudanças, ainda não se sabe. O Brasil foi terceiro colocado no Mundial-99, ouro no Pan-03 e quarto colocado em Atlanta-96 e Sydney-00. Nada mudou após esses resultados. Aliás, mudou sim. Principalmente após Sydney. Mas para pior, muito pior.

O competente René Simões, que assumiu o time este ano, declarou ao UOL que vê como solução uma liga nos moldes das que existem no vôlei. Diz que há empresas interessadas e elogia o empenho de Paulo Dutra, supervisor do feminino na CBF. Vamos esperar.

Mas a prata, claro, tem que ser comemorada. Mais que os outros medalhistas, a seleção feminina e seu técnico merecem aplausos. Se as meninas não puderam dar sua contribuição à camisa da seleção, com uma referência ao ouro olímpico, ao menos teriam que ganhar da Nike e da CBF uma camisa especial com a frase "É possível". Mas elas merecem mais. Merecem, como profissionais, ter a chance de serem cobradas pelo ouro.

Coluna publicada em 26/08/2004


Daniel Tozzi
Jornalista esportivo, Daniel Tozzi, 26, é editor-assistente do UOL Esporte.


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