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Brasil vai mais rico e volta mais pobre de Atenas
Da Redação

As boas surpresas não foram imprevistos... O número de pódios cumpriu a meta... O discurso é único na delegação brasileira, mas as análises sobre o desempenho nos tatames de Atenas não fogem das justificativas sobre a conquista de apenas dois bronzes.

Enquanto contava, no mínimo, com medalhas de Carlos Honorato e Edinanci Silva, o país terminou nesta sexta-feira sua participação nos Jogos Olímpicos com os terceiros colocados do até então desconhecido Leandro Guilheiro e do experiente Flávio Canto.

Nunca o judô recebeu tanto investimento. A partir de 2002, foram aproximadamente R$ 3,6 milhões da Lei Piva e outros R$ 800 mil de um patrocinador. O resultado, no entanto, foi inferior às duas pratas de Sydney-2000 e aos três bronzes no Mundial-03 e igualou Atlanta-96.

A explicação fica por conta do equilíbrio mundial -com exceção do Japão (leia texto abaixo). “A França, que investe 20 milhões de euros ao ano e tem dois campeões mundiais e dois vices, deixa Atenas com apenas uma medalha, de prata (com a leve Frederique Jossinet). Será que os franceses são ruins? Claro que não, é que há muitos países em condições de ganhar”, afirmou Ney Wilson, chefe da seleção.


Além da França, segunda colocada no quadro de medalhas do judô (10 ouros, seis pratas e 17 bronzes), ficaram aquém a Polônia e a Espanha, que possuem mais glórias do que o Brasil e passaram em branco as Olimpíadas-04.

Em Atenas, 24 países estiveram no pódio, sendo três deles pela primeira vez: Grécia (com o ouro do meio-médio Ilias Iliadis), a Estônia (com o bronze do pesado Indrek Pertelson) e a Eslovênia (com o bronze da meio-média Urska Zolnir). “São as conseqüências da globalização no esporte. Em Atlanta-96, não era assim. Tinha uns seis judocas favoritos em cada categoria”, disse Canto, sobre suas duas participações olímpicas.

O erro, no entanto, está fora do tatame, segundo Joaquim Mamede, que sob acusações de corrupção sofreu muita pressão para deixar a presidência da CBJ (Confederação Brasileira de Judô). “A programação foi muito malfeita, a despeito do investimento recorde. Eu trouxe nove medalhas sem nenhum tostão. Hoje, o judô tem dinheiro, mas gasta errado. É absurdo mandar a equipe para aclimatação em Portugal, país sem tradição. Pior ainda é convidar os estrangeiros para treinar aqui no ano olímpico. Os rivais já sabiam o que os brasileiros tinham de melhor e pior”, afirmou o ex-dirigente à “Folha de S.Paulo“.

Ney Wilson rejeitou que o planejamento tenha sido equivocado e o dinheiro, mal empregado. “Tudo o que podíamos ter feito para uma boa campanha em Atenas, foi feito. E, se tivesse de repetir, repetiria tudo.”

Surpresa

O chefe da delegação chegou à Grécia falando em três pódios, assim como havia acontecido no Mundial de Osaka-2003 -o médio Carlos Honorato e os meio-pesados Edinanci Silva e Mario Sabino foram bronze. Além deles, a meio-médio Vânia Ishii e o pesado Daniel Hernandes caíram da disputa do terceiro lugar.

No entanto nenhum deles chegou ao menos a disputar uma medalha em Atenas. Em vez deles, o leve Leandro Guilheiro, que tirou o Luiz Camilo da seleção no último instante, e Flávio Canto, que fizera apenas um Mundial razoável, protagonizaram as glórias brasileiras nos Jogos.

Mas o fato de não ter nenhum grande resultado internacional, senão o título mundial júnior, não representa uma surpresa para Guilheiro. “Posso ser zebra para muitas pessoas, mas não para mim. Ser desconhecido até ajudou, porque quase não fui estudado pelos adversários”, afirmou o paulista.

Já, para o carioca, somente um resultado pôde ser considerado inesperado. “Na minha categoria, havia uns 12 em condição de subir ao pódio. O único que me surpreendeu foi o ucraniano (Roman Gontyuk, prata). A vitória é uma conseqüência de treinamento, sorte e destino.”

O Brasil se isolou em 10º lugar no quadro de medalhas, desempatando com a Itália, que só obteve um bronze. E atingiu a sexta edição seguida com pódio -somente no masculino. As mulheres cumpriram a escrita de nunca terem conquistado uma medalha.

A CBJ ainda não traçou as estratégias para os próximos Mundiais e para as Olimpíadas de Pequim-2008, mas a primeira nova providência será o estudo dos adversários, por meio de tabulação de perfil dos atletas e vídeos de competições -como faz o Japão.

“Temos de continuar viajando para fazer intercâmbio, mesmo que isso seja muito caro, porque não há outro jeito. O Brasil é geograficamente desfavorecido, pois os grandes centros são a Europa e a Ásia”, disse Wilson.



Shidô, ippon, seoi-nage, hansoku-make... A língua falada no judô é o japonês. E, no lugar mais alto do pódio de Atenas, também.

Mesmo com toda a tradição e técnica apurada, o país surpreendeu ao disputar dez das 14 finais possíveis, arrebatando nada menos do que oito títulos.

Como “chave de ouro”, começou com as vitórias dos ligeiros Ryoko Tani e Tadahiro Nomura e terminou com as dos pesados Keiji Suzuki e Maki Tsukada.

Nesse intervalo, foi laureado com a meio-pesada Noriko Anno, a médio Masae Ueno, a meio-médio Ayumi Tanimoto e o meio-leve Masato Uchishiba. E teve de “se contentar” com as pratas do médio Hiroshi Izumi e da meio-leve Yuki Yokosawa.

Esta, aliás, tratou o vice-campeonato como um vexame. “Queria pedir desculpas ao povo japonês e à minha mãe, que vi chorando na arquibancada”, disse ela, após perdeur da chinesa Xian Dongmei.

Por outro lado, o Japão protagonizou o grande fiasco. A aura do meio-pesado Kosei Inoue -considerado por alguns especialistas o melhor da história- caiu por terra. Então imbatível há quatro anos em torneios internacionais, foi derrotado nas quartas-de-final pelo holandês Elco van der Geest e na repescagem por Movlud Miraliyev, de Azerbaijão.

Além de ser o criador, o Japão introduziu o esporte no programa olímpico em Tóquio-1964. Desde lá, levou um terço de todos os ouros disputados. É líder isolado, com 31 ouros, 14 pratas e 13 bronzes.




No primeiro dia de disputas, Tadahiro Nomura tornou-se o primeiro tricampeão olímpico do judô, e Ryoko Tani, a primeira bicampeã. Os ligeiros foram responsáveis pela 100ª medalha de ouro japonesa na história e a 300ª no geral.

O número de ouros do judô nipônico em Atenas é igual ao conquistado por todas as modalidades do país nos dois últimos Jogos -em Sydney foram cinco e em Atlanta, três.

Do tatame, saíram 28,1% de todos os ouros conquistados pelo Japão na história olímpica (31 de 110, até o momento).


  Quadro da modalidade
  País Total
  1º JAP 8 2 0 10
  2º CHN 1 1 3 5
  3º COR 1 1 1 3
 16º BRA 0 0 2 2

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