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06/08/2004 - 11h31
Bolinha de tênis vale ouro para o futebol olímpico brasileiro

Luciana de Oliveira
em São Paulo

Bolas de tênis não são exclusividades das bagagens de Guga e Saretta para Atenas, mas também de todas as 18 jogadoras da seleção brasileira feminina de futebol. E esses equipamentos recebem também um tratamento bastante diferenciado -são objeto de carinho e afeto. Significam ouro.

Folha Imagem 
Seleção festeja o ouro no Pan de 2003, conquistado em meio a "clima interno ruim"
Elas fazem parte de mais uma tática motivacional do técnico René Simões, que se inspira em carreiras de sucesso, como a de Bernardinho, do vôlei.

Cada jogadora recebeu uma bola, da qual não se desgruda um só minuto fora do campo -vale até na hora do banho. O pequeno objeto serve para que se lembrem de uma meta bem mais pesada: o topo olímpico.

Depois de dois quartos lugares em Atlanta-1996 e Sydney-2000, a equipe acredita que o ouro é a única maneira de mudar o cenário pouco otimista do futebol feminino no país, que não tem um campeonato nacional e viveu a falência de muitas equipes.

"A gente não pode esquecer de nossa missão nem por um minuto", conta a atacante Kelly. Algumas chegaram a escrever nas bolinhas palavras de motivação.

Fim das brigas
Simões vinha colecionando "missões impossíveis" no masculino -como classificar pela primeira vez a Jamaica para uma Copa do Mundo- e assumiu a seleção em março. A mudança de comando já foi considerada uma grande vitória pelas jogadoras.

"Conquistamos o ouro no Pan de Santo Domingo-2003 e o quarto lugar em Sydney-2000 por esforço somente das atletas, porque o clima interno era horrível nas duas ocasiões", conta a zagueira Tânia. "Sofremos discriminação, críticas e problemas extracampo com as comissões técnicas (comandadas por Zé Duarte, em Sydney, e Paulo Gonçalves, no Pan). Agora, finalmente, não temos mais do que reclamar", completa a também zagueira Mônica.

AFP 
Maravilha, que elogiou a estrutura montada por Simões, treina na seleção
A primeira providência de Simões foi encomendar um mapa de suas atletas, para saber das condições físicas de cada uma e quais ajustes precisariam ser feitos. "A gente nunca tinha visto fisiologista, psicólogo, nutricionista, fisioterapeuta... tanta gente na seleção feminina", comenta a goleira Maravilha.

Em campo, o técnico ensinou suas meninas a ter gosto não só por gols, mas pela análise do jogo. "Nos primeiros amistosos, em março e abril, a gente perdia de 7 a 0, 5 a 0... era frustrante. Depois os resultados foram vindo", lembra a jogadora.

O pior adversário
Na fase de preparação para as Olimpíadas, a seleção enfrentou basicamente times masculinos do Rio, da categoria sub-20. Nos últimos jogos em casa, venceu por 4 a 0 e empatou em 3 a 3. Na Suécia, em quatro jogos contra equipes femininas como o Umëa, da atacante Marta, o Brasil venceu três partidas, com goleadas, e empatou uma.

O ouro é, no entanto, uma meta bastante ousada. O próprio técnico já declarou que o Brasil ainda é a quinta ou a sexta melhor seleção do mundo, com nível inferior a EUA, Alemanha, Suécia, China e, talvez, México.

Sob os ensinamentos do mestre, as brasileiras colocam outro adversário acima de todos: elas mesmas. "De todas as lições que o René nos passou, a maior é que a gente até pode perder para a Austrália, para os EUA, para a Grécia (os adversários olímpicos na primeira fase). Ele só não aceita que a gente perca para nós mesmas", finaliza Tânia.

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