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10/08/2004 - 10h30
Daniele passa por céu, purgatório e inferno; hoje, é zebra
Murilo Garavello Enviado especial do UOL Em Atenas (Grécia)
Em 2001, aos 16 anos, Daniele Hypólito foi a primeira a levar o Brasil ao pódio de um Mundial de ginástica. Virou estrela, ganhou dinheiro e ajudou a criar uma estrutura nunca vista em sua modalidade. Em 2004, chega a Atenas no auge da forma, aos 19 anos, e é esperança de medalha, certo? Errado, pelo menos para as mais influentes personagens da ginástica brasileira.
 | | | Em Sydney, Daniele despontou como líder absoluta da ginástica brasileira: era o céu | "Quem perdeu foi o Brasil. Ela tem um potencial imenso, é uma ginasta que poderia estar como a Daiane, favorita a medalha, mas acabamos interferindo na sua performance". O mea culpa de Vicélia Florenzano -presidenta da Confederação Brasileira de Ginástica (CBG)- resume os últimos dois anos de Daniele, que, no trajeto de estrela máxima a "mais uma" na equipe de ginástica, passou por céu, purgatório e inferno.
A disputa entre a CBG e a ex-técnica de Daniele, Georgette Vidor, fez com que a ginasta mudasse - traumaticamente- três vezes de cidade nos últimos 18 meses. Antes estrela isolada, Daniele viu Daiane dos Santos levar o ouro no Mundial do ano passado e monopolizar os holofotes e o mimo de dirigentes e patrocinadores. Perdida nas idas e vindas entre Rio de Janeiro e Curitiba, a "Pequena Notável" teve crises emocionais, enfrentou contusões e, na opinião de especialistas, não treinou tanto quanto deveria.
Agora, às vésperas do que deveria ser a "sua" Olimpíada, a mais completa ginasta brasileira não vê nem Georgette, que a orientou por nove anos, apostando em medalha em Atenas. "Sinceramente, não acredito. Ninguém fica em quarto no Brasileiro a um mês da Olimpíada e chega lá. Tomara Deus que o Oleg (Ostapenko, ucraniano que comanda a seleção) tenha uma varinha de condão", alfineta a técnica, que reconhece as qualidades do ucraniano, mas reclama há quase quatro anos de a seleção não ter um técnico brasileiro.
Céu Em 2000, o Brasil festejou o 20º lugar de Daniele no individual geral em Sydney-2000 como "histórico". Com razão: o resultado é, até aqui, a melhor posição de uma brasileira na história olímpica. Em 2001, no Mundial de Ghent (Bélgica), a paulista acabou em 4º lugar no individual geral. No solo, chegou à medalha de prata. Uma façanha impressionante.
 | | | Agora, em Atenas, Daniele é coadjuvante de sua colega gaúcha Daiane dos Santos | O sucesso, como a ascensão, foi meteórico. Daniele virou figurinha carimbada na mídia, garota-propaganda e uma das poucas estrelas olímpicas do país do futebol. Um ano depois do Mundial, que disputou com "trocados" doados por um comovido Ronaldo -o Fenômeno-, Daniele tinha seis patrocinadores e uma casa.
Mais, Daniele, também a primeira a ganhar ouro em uma etapa da Copa do Mundo de ginástica -em abril de 2002-, catalisou o desenvolvimento da ginástica. Por causa dela, o governo federal importou aparelhos modernos de ginástica. "Agora nossa Pequena Notável não vai mais reclamar de falta de equipamentos para seus treinos", disse Fernando Henrique Cardoso, então presidente. Originalmente, os aparelhos seriam transferidos ao Flamengo, clube em que a ginasta treinava.
Entretanto, à mesma época, a CBG decidiu tornar permanente a seleção. Arrumou uma enorme casa a menos de um quarteirão do ginásio de treino, na sede da entidade, em Curitiba. Montou salas de fisioterapia, departamento médico, obteve convênios com faculdades e colégios. Forjou uma estrutura inédita. E exigiu que todas as atletas da seleção, a partir de janeiro de 2003, passassem a treinar lá.
Daniele, no início, gostou da proposta, ventilada na segunda metade de 2002. Afinal, as condições de preparação, sob a orientação de um dos melhores técnicos do mundo, pareciam excelentes. "A idéia de treinar em Curitiba partiu de mim. Vi que o treinamento é super bom e me dei muito bem com as pessoas", disse em agosto. Entretanto, os patrocinadores de Daniele e, principalmente, Georgette, à época já desafeta da CBG, detestaram. E pressionaram para que ela ficasse no Rio.
Purgatório
Dividida, Daniele passou à neutralidade ao comentar o assunto e se concentrou nos treinos. Em novembro de 2002, seguia em excelente forma: quinto lugar no Mundial de Debrecen (Hungria) por aparelhos. Enquanto isso, a disputa de poder que daria início a seu calvário se agravava. Em jogo, não apenas a ginasta: para onde iria a aparelhagem estrangeira? Para a seleção ou para a melhor ginasta do país?
Para a CBG, Daniele era a senha para ficar com os equipamentos e dar legitimidade à idéia de seleção permanente. Para Georgette, a atleta que formou era a única chance de manter-se em evidência na ginástica. A CBG venceu. Em janeiro de 2003, a "Pequena Notável" mudava-se para Curitiba.
A adaptação não foi fácil. Daniele reclamava do frio e da falta dos amigos. Teve crises de choro e doenças constantes. "Tivemos de levá-la ao hospital várias vezes", declarou Vicélia, meses mais tarde. No Pan de Santo Domingo, em agosto, a ginasta foi vista aos prantos, com Vicélia, horas após ganhar duas de suas quatro medalhas na competição. A presidenta, ainda na República Dominicana, anunciou: após o Mundial dos EUA -disputado menos de um mês depois do Pan- a ginasta seria liberada para escolher onde treinar e morar.
Inferno No Mundial, Daiane ganhou a medalha de ouro no solo com um salto inédito na ginástica feminina. Mais sorridente e carismática que Daniele, a gaúcha imediatamente chegou ao estrelato. Um enorme pôster da nova rainha da modalidade com a medalha de ouro no peito foi colocado no ginásio de treinos em Curitiba. Georgette, de acordo com uma fonte que conhece Daniele e os bastidores da ginástica como poucas pessoas, passou a "envenenar" a ginasta, reforçando em Daniele sentimentos de rejeição e insatisfação.
| O DRAMA FORA DA QUADRA | | Em 1997, o ônibus da equipe do Flamengo sofreu um acidente quando ia para uma competição fora do Rio de Janeiro. A técnica Georgette Vidor ficou tetraplégica e duas atletas abandonaram a ginástica. Daniele sofreu apenas escoriações. | "Ninguém deu a menor bola para as medalhas da Dani no Pan. Claro, ouro no Mundial é muito mais. Mas ela ficou anos à frente da Daiane, sendo a melhor do Brasil. Aí, a outra ganha uma medalha e ninguém mais lembra dela. A Daniele se sentiu muito, muito mal", diz Georgette. "Ela estava no fundo do poço".
Versões à parte, fato é que a paulista decidiu voltar para o Rio -e para a treinadora que a forjou. Deprimida, engordou alguns quilos. Por isso, sobrecarregou e torceu o joelho, alijando-se da disputa da etapa de Stuttgart da Copa do Mundo, em novembro. Pouco depois, contraiu dengue. Ainda afetada emocionalmente, embora recuperada na parte física, não treinou com o afinco necessário.
Para Vicélia, a falta de disponibilidade de Georgette foi um dos problemas. "A professora Georgette é muito criteriosa, mas hoje ela não tem mais um tempo pleno dentro do ginásio. Ela tem seus compromissos políticos (Georgette é deputada estadual no Rio). E as ginastas têm um compromisso diferente com o treinador substituto".
Já a técnica-deputada tem outra versão. "Eu estava muito cansada, ia tirar um mês de férias", diz Georgette. "Mas por ela, aceitei o sacrifício. Fiquei semanas sozinha com ela, meus treinadores voltaram depois de mim. Para mim, o treinamento tem de ser 100% todos os dias. Não dá para dizer que está cansado, inventar dores. E ela não é como a Daiane, que parece uma máquina. A Dani é muito difícil. Eu tinha de fazer sacrifício todos os dias para ela treinar. Em janeiro, explodi, disse: 'não abri mão do meu descanso para você ficar aqui enrolando'. Ela acordou, passamos a treinar bastante".
 | | | Aos poucos, Daniele começa a readquirir ritmo; na foto, treina em Atenas | Em fevereiro, houve uma seletiva em Curitiba. Em jogo, vagas em duas etapas de Copa do Mundo. Daniele, empenhada, apresentou-se no peso ideal. Mas falhou grosseiramente no solo. Pela primeira vez, ficou atrás de Daiane no individual geral -mesmo com a gaúcha tendo uma série de trave notoriamente fraca. O desempenho estarreceu Oleg Ostapenko, que deu seu parecer: Daniele não tem condições de competir. "Ela estava com uma performance muito abaixo do normal dela", diz Vicélia. "O Oleg não queria levá-la a nenhuma etapa. A Georgette argumentou que isso seria desmotivante demais para a Dani. O Oleg concordou com os argumentos e resolveu escalá-la para a etapa da França, que aconteceria depois. Antes, ela ficaria treinando no Brasil".
A presidenta nega que tenha havido um ultimato a Daniele, que acabou indo bem em Lyon -ficou em quinto na trave. Mas, pouco depois da etapa carioca da Copa do Mundo, em abril -quando foi ouro na trave em uma competição de baixo nível técnico-, a ginasta decidiu voltar a morar em Curitiba. De acordo com funcionários do Flamengo, a gota d'água foi um bate-boca com Georgette durante um treinamento.
Corrida contra o tempo
Daniele adquiriu um imóvel em Curitiba e mudou-se em maio, desta vez com a mãe, Geni, e o irmão ginasta, Diego. Voltou a treinar com o resto da seleção -e a receber um salário mensal de milhares de reais da seleção, cancelado durante sua permanência no Rio. Agora, a ginasta promete permanecer no Paraná até os Jogos Olímpicos de 2008. "Estou adaptada e pretendo ficar aqui fazendo o que mais gosto, que é a ginástica", diz Daniele, que se negou a comentar tanto a suposta briga com Georgette quanto as reviravoltas em sua vida. "Isso é passado, já ficou para trás".
 | | | Recentemente, Daniele teve um bom resultado em Lyon e foi ouro no Rio (foto) | "Ela teve de se adaptar, buscar casa para morar, trazer a família para cá. Tudo teve de ser acomodado emocionalmente, também. Você não é uma pessoa dividida: 'até aqui você é atleta, a partir daqui, não'. O atleta tem dor, sentimentos, tem uma família, preocupações com a estabilidade dela, com os amigos de que se afasta, é uma pessoa normal. Por isso sinto muito por tudo isso que aconteceu com ela", diz Vicélia. "Ela é uma grande guerreira".
"A Daniele teve de se adaptar a um novo ritmo de treinamento. Agora, ela está se esforçando, mas o tempo perdido foi muito grande", diz Eliane Martins, coordenadora-geral da CBG e árbitra da FIG (Federação Internacional de Ginástica). No início de julho, a reportagem do UOL Esporte esteve em Curitiba. E a força de vontade de Daniele nos treinos era evidente. Aceitava as instruções de Oleg e repetia exaustivamente os exercícios sem cara-feia.
Tal afinco fez o treinador, durante o treinamento da seleção em Kiev (Ucrânia), na última semana de julho, declarar que "Daniele está bem melhor". Cauteloso, entretanto, manteve a previsão que fizera em abril. "Chances de medalha, só com a Daiane. Só um dia muito bom pode levar outra ginasta a uma final", diz Oleg Ostapenko. "A Daniele é conhecida como uma ginasta que cresce no dia da competição. Mas, para o Oleg, não existe isso. Se ela não faz tudo certo repetidas vezes no treino, para ele não serve. E, com a defasagem dela, é difícil fazer milagre", resume Eliane.
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