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12/08/2004 - 11h18
Jacques Rogge , o "Senhor Limpeza", muda estilo do COI
Murilo Garavello Enviado especial do UOL Em Atenas
Uma instituição desgastada por seguidas denúncias de corrupção, praticamente inativa no combate ao doping e que, na visão de muitos, permitiu uma exagerada interferência dos fatores econômicos sobre o esporte. Essa era a situação do Comitê Olímpico Internacional (COI) quando o belga Jacques Rogge assumiu a presidência, em 2001.
 | | | O belga Jacques Rogge discursa em frente ao estádio olímpico de Atenas | As Olimpíadas de Atenas serão as primeiras sem o espanhol Juan Antonio Samaranch no comando do órgão máximo olímpico desde Moscou-1980. E o simbolismo de os Jogos voltarem para seu país de origem foi usado ao máximo por Rogge, empenhado em recuperar a credibilidade da instituição que dirige.
Médico ortopedista e ex-esportista que participou de três Olimpíadas na vela e fez parte da seleção de rúgbi de seu país, Rogge tem um perfil distinto do de Samaranch. Político que teve papel efetivo durante a ditadura de Franco em seu país, o ex-dirigente, assim como o brasileiro João Havelange, ex-presidente da Fifa, foi um dos mentores da transformação do esporte em um produto rentável -principalmente para as entidades que chefiaram.
Samaranch, que hoje atua como consultor do COI, declarou ao diário espanhol "Marca", no mês passado, que quer ser lembrado como "alguém que conseguiu levar os Jogos para seu país" (em referência a Barcelona-1992). No dia em que deixou a presidência da entidade, o espanhol colocou o filho, "Juanito", como membro do Comitê Olímpico Internacional.
O belga, por sua vez, é um dos poucos membros da organização a não ter o nome envolvido em qualquer ato ilícito ou mesmo imoral -daí o apelido de "Mister Clean", ou "Senhor Limpeza". E tem usado sua reputação ilibada e seu passado de esportista para tentar melhorar a imagem do COI. Se ainda está longe de atingir esta meta, ao menos a linha de conduta da entidade já é diferente. Da relutância em tratar assuntos espinhosos em público e desafiar parceiros importantes da "era Samaranch", sob Rogge o COI passou à objetividade e a uma postura mais ativa e, em alguns casos, transparente.
"Acho que posso ser descrito como um resolvedor de problemas", diz Rogge. "Como um cirurgião, sei que quando há uma ferida, você tem de abri-la, retirar o pus e deixar que o corpo cicatrize. Se você tem um problema, precisa enfrentá-lo o mais rápido possível".
 | | | Rogge (dir) conversa com seu antecessor Juan Antonio Samaranch em Atenas | Rogge tem resultados efetivos para apresentar na luta contra o doping, com a suspensão de várias estrelas internacionais. Se os membros do COI seguem sendo suspeitos de uma série de casos de corrupção -o mais recente envolvendo as Olimpíadas de 2012 foi revelado no mês passado pela BBC, rede britânica de TV-, a reação do COI desta vez foi rápida. Sladkov foi suspenso pouco depois da veiculação das acusações. Agora, uma comissão de ética estuda o caso.
Contra o doping, comprou briga com o Comitê Olímpico dos EUA e a Federação Norte-Americana de atletismo (USTF). A suspeita de que as entidades haviam escondido um caso positivo antes de Sydney-2000 fez com que ele desse seguidos ultimatos. O COI é financiado principalmente por patrocinadores norte-americanos. Mesmo assim, Rogge manteve a queda de braço apesar da relutância da USTF. E venceu: a federação revelou que Jerome Youngs, ouro na Olimpíada, era o atleta em questão.
As denúncias de que atletas de ponta dos EUA usavam THG, um esteróide até então indetectável em exames antidoping, também foram enfrentadas. Sob pressão do COI, a USTF colocou na berlinda as maiores estrelas da modalidade, como o casal Marion Jones (atual campeã olímpica dos 100 m rasos) e Tim Montgomery (recordista mundial dos 100 m rasos). Suspeitos de usar THG, foram obrigados a conceder vários depoimentos e viraram inimigos da opinião pública. Kelli White (campeã dos 100 m e 200 m no Mundial do ano passado que teve suas conquistas cassadas após admitir o doping) e Torri Edwards (que herdou o título de White, mas foi flagrada em exame neste ano) foram suspensas. Montgomery, White e Edwards não estarão em Atenas-2004.
Palavras e fatos Sob Rogge, entretanto, o COI continua recheado de dubiedades. Em seu site oficial, a entidade declara que "se opõe a qualquer forma de exploração comercial do esporte e de seus atletas". A frase é uma afronta em um cenário em que o COI lucra bilhões de dólares com a comercialização dos direitos de transmissão e patrocínio das Olimpíadas.
Em carta a Bruno Grandi, presidente da Federação Internacional de Ginástica, Rogge diz que "é objetivo do movimento olímpico contribuir para a construção de um mundo mais pacífico" e que "o esporte é um movimento que tem papel vital na defesa dos valores de nossa sociedade". Apesar disso, para satisfazer os interesses dos patrocinadores que lhe sustentam, o COI aderiu à "corrida do ouro" e escolheu Pequim como sede dos Jogos de 2008, apesar das constantes violações de direitos humanos praticados pelos chineses.
No esforço para melhorar a imagem do COI, Rogge ajudou a organizar um programa das Nações Unidas para, na Olimpíada de Atenas, doar roupas para refugiados -e participou pessoalmente das ações. Na distribuição de convites para que países mais pobres possam participar das competições olímpicas, simbolicamente exigiu que o Afeganistão enviasse mulheres atletas a Atenas.
Em outro exemplo de ato simbólico, nos Jogos de Inverno de Salt Lake City, em 2002, Rogge hospedou-se na Vila Olímpica destinada aos atletas. O recado que o belga tentou propagar é a de que não é um "poderoso arrogante e distante", mas alguém disposto a ouvir e a ajudar os atletas.
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