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13/08/2004 - 11h09
Com três "Schumachers", Brasil tenta superar trauma e bater recorde

Murilo Garavello
Enviado especial do UOL
Em Atenas (Grécia)

Robert Scheidt ganhou os nove torneios que disputou em 2004 -inclusive o Mundial. A seleção masculina de vôlei venceu 34 dos últimos 35 jogos -a última queda em competições foi no Pan de Santo Domingo. A República Dominicana foi também o local do último tropeço de Daiane dos Santos. Depois, ela chegou ao título mundial e a quatro ouros em etapas da Copas do Mundo.

Divulgação 
Robert Scheidt, favorito ao ouro na classe Laser, conduz seu barco rumo à marina
Se somarmos a estes desempenhos, dignos da lenda viva Michael Schumacher, ao fato de que Emanuel e Ricardo serem os bicampeões do Circuito Mundial (em 2004, com seis títulos e nove pódios em 11 etapas de que participaram), o Brasil chega a Atenas como favorito a quatro medalhas de ouro. Conquistando-as, o país baterá seu recorde em Atenas -em Atlanta-1996, foram três primeiros lugares.

Confirmar o favoritismo, entretanto, foi tarefa impossível para os brasileiros em Sydney-2000. Na vela, Robert Scheidt e Torben Grael/Marcelo Ferreira defendiam seus títulos olímpicos e, apesar de terem saído com medalhas, experimentaram o gosto da derrota -ambos perderam o ouro na última regata.

No hipismo, Rodrigo Pessoa, então tricampeão da Copa do Mundo, também era o maior nome da modalidade. E saltava para ser campeão quando seu cavalo, Baloubet du Rouet -o mesmo que usará em Atenas-, recusou-se a passar por um obstáculo e o deixou fora do pódio. No futebol, o time que tinha craques como Ronaldinho e Alex caiu diante de uma seleção camaronesa com dois jogadores a menos.

"Eu não estava em Sydney, não sei qual foi a situação. Mas não conheço nenhum atleta brasileiro que possa amarelar", diz o psicólogo alemão Dietmar Samulski, contratado pelo COB para auxiliar os brasileiros em Atenas. Para ele, as condições emocionais afetam o desempenho dos atletas.

"A performance é influenciada por uma série de fatores, e entre eles está o psicológico. Se o atleta entra numa final, numa competição importante, sempre existe um certo nível de ansiedade. Por isso, tem de aprender algumas técnicas para lidar com essa pressão psicológica. São técnicas de respiração, concentração, psicologia cognitiva", diz o alemão, que afirma ter tido pouco trabalho, até aqui, em Atenas.

"Favoritismo não ajuda em nada", diz Marcelo Ferreira, parceiro de Torben Grael. "Em 2000, não estávamos tão bem, mas por sermos campeões olímpicos, todos esperavam muita coisa. Agora, não. Prefiro assim".

"Uma coisa é você chegar a um Mundial em que ninguém espera muito de você, a cobrança é pequena. Se você acertar, ótimo, se errar, não tem problema. Outra é você ir a uma Olimpíada sabendo que pode ser campeã olímpica. Além de toda a pressão da imprensa e do público, ela mesma tem de conviver com o fato de que tem a chance da vida em suas mãos", resume Eliane Martins, chefe da delegação brasileira de ginástica. "A Daiane tem uma cabeça muito boa, mas lidar com isso não é fácil. Ainda mais em um esporte como a ginástica".

Daiane
De fato, das quatro modalidades em que o Brasil chega como favorito, a ginástica de Daiane é a que permite menor margem de erro. Afinal, a consagração ou a derrota serão decididas em, no máximo, três minutos (metade na eliminatória, metade na final).

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Daine dos Santos executa exercícios durante fase preliminar da ginástica
Enquanto Scheidt pode descartar um resultado em 11 regatas, e os jogadores de vôlei e vôlei de praia podem perder sets em todos os seus jogos, a brasileira, uma das atrações dos eventos de ginástica em Atenas, corre o risco de ficar sem qualquer chance de ouro já no primeiro de seus saltos.

"Um trabalho de anos e sete horas diárias pode virar pó em uma passada errada", diz Eliane, que declarou há um mês que a brasileira "só perde para ela mesma", tamanha sua superioridade atual sobre as adversárias. "Se saltar o que sabe, Daiane é ouro. Acrobaticamente, não tem ninguém nem perto dela", afirma Georgette Vidor, ex-técnica de Daniele Hypólito e desafeta de Eliane e da CBG.

Daiane, 21, ainda lida com dores no joelho direito -que melhoraram após uma pequena cirurgia, mas não cessaram. O psicólogo Samulski, que é especialista em controle da dor, afirma que este mal tem um componente psicológico. "Através de técnicas de respiração e de relaxamento, você pode diminuir a dor. É claro que esse é um processo demorado, mas vou tentar ajudá-la", explica.

Além disso, Daiane enfrenta, também, enorme responsabilidade sobre os rumos da ginástica no Brasil -os contratos de patrocínio com Coca-Cola e Brasil Telecom se encerram no fim do ano. "Se ela perder, não tem importância", diz Eliane. "Mas claro que uma medalha de ouro vai facilitar tudo para a gente".

Scheidt
Se Daiane não pode contar com a experiência a seu lado -ela disputa sua primeira Olimpíada-, as outras três grandes apostas brasileiras são formadas por "macacos velhos". Robert Scheidt, 31, é grande favorito em todos os torneios de que disputa há tempos.

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Robert Scheidt sorri durante entrevista coletiva em Atenas
"Já carrego essa responsabilidade há dez anos. Em Atlanta, quando conquistei o ouro, já era bicampeão mundial. Por isso, já sei como reajo sob pressão. Acho que me ajuda a velejar. É encarar as Olimpíadas sem mistificação, como se fosse um Campeonato Brasileiro, e tudo dará certo", diz o velejador.

Scheidt, que participou do Campeonato Grego no início de julho para conhecer os segredos de vento e mar atenienses, afirma estar mais maduro do que antes de outras competições. "Tive uma preparação impecável. Nos últimos sete meses ganhei todas as competições que disputei. Nunca me senti tão bem quanto agora. Sou um velejador bem mais maduro hoje. Sei que estou na elite deste esporte e sei que os caras (adversários) me respeitam", declara o brasileiro.

Vôlei
No vôlei, a equipe comandada por Bernardinho tem média de 28,6 anos de idade. Fazem parte do grupo Giovane e Maurício, veteranos do ouro olímpico de Barcelona-1992, além de Nalbert, que vai à sua terceira Olimpíada. Giba, Dante e André Heller estiveram em Sydney-2000. Já o técnico, levantador reserva de William na "geração de prata", que foi ao pódio em Los Angeles-1984, vai aos terceiros Jogos seguidos como treinador -nos dois anteriores, levou a seleção feminina à medalha de bronze.

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Giba tenta defender bola durante treino da seleção brasileira em Atenas
Além dos jogadores experientes, ao longo dos últimos anos a equipe adquiriu intensa vivência em finais e situações de pressão. Em 14 torneios disputados desde a posse de Bernardinho, em 2001, a equipe venceu o Mundial de vôlei pela primeira vez (2002), três vezes a Liga Mundial (2001, 2003 e 2004) e uma vez a Copa do Mundo (2003).

Precavido, detalhista e "maníaco" por treinos, Bernardinho, talvez tentando aliviar a pressão sobre seus jogadores nega o favoritismo. "Não, não acho que o Brasil é favorito. É uma das equipes que podem ganhar. Os últimos títulos não colocam o Brasil como favorito, não. Três equipes, junto com o Brasil, dividem esse favoritismo", diz o técnico, referindo-se a Rússia, Sérvia e Montenegro e Itália.

Vôlei de praia
No vôlei de praia, também não falta experiência. Emanuel, 31, disputará sua terceira Olimpíada -em 1996, ao lado de Zé Marco e em 2000, ao lado de Loiola, fracassou. Já Ricardo, 29, prata em Sydney-2000 ao lado de Zé Marco, fará sua segunda participação.

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O jogador Ricardo segura a bandeira brasileira em sua chegada à Vila
"Sei que os brasileiros esperam muito da nossa dupla, principalmente por causa dos últimos resultados, mas precisamos ter a cabeça no lugar e muita tranqüilidade para não perdermos o foco", diz Emanuel.

Nas duas últimas Olimpíadas, os brasileiros chegaram como favoritos ao ouro na modalidade, mas falharam. "Muitos valorizam apenas o primeiro lugar, apenas a medalha de ouro. Só há uma medalha de ouro e 24 duplas lutando por ela. É claro que vamos para Atenas para brigar pelo ouro, acho que temos chances de conquistar uma medalha, mas não dá para pensar que apenas a medalha de ouro é o único bom resultado", defende Ricardo.

Para superar o peso do favoritismo, a dupla faz, há cerca de um ano, um trabalho psicológico com Joyce Sttefanelo, formada em educação física e doutorada em psicologia do esporte. "Ela tem nos ensinado a ficar mais concentrados, captar momentos bons do jogo, perceber quando o adversário está negativo e aproveitar a chance", diz Ricardo.

"Depois que passamos a fazer também esse treinamento mental, melhorei muito durante os jogos. Aprendi a esquecer rapidamente os erros -no vôlei você erra muito, então precisa aprender a lidar com isso. Aprendi também que, para apagar as memórias ruins, você tem de produzir uma série de memórias boas. Com isso, estou muito mais consciente dentro de quadra", afirma Emanuel.

Após o primeiro treino em Atenas, em suas declarações o atleta deu demonstrações práticas de que aprendeu as lições. Questionado sobre o que poderia atrapalhar a dupla, respondeu: "nada. Viemos para cá sabendo que seria calor, sabendo que, ao contrário do que estamos acostumados, vamos ter intervalos de dias entre nossos jogos. Quando você já sabe como vai ser, não tem do que ficar reclamando. Se adapta e pronto", disse, determinado.



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