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16/08/2004 - 19h04
"Sociais" e experientes, Vânia Ishii e Flávio Canto tentam subir ao pódio
Murilo Garavello Enviado especial do UOL Em Atenas (Grécia)
Vânia Ishii e Flávio Canto, os representantes brasileiros na categoria meio-médio, que terá suas disputas nesta terça-feira, têm bastante em comum. São experientes (ela tem 30, ele, 29), estão em sua segunda Olimpíada e têm ou terão projetos sociais. Além disso, ambos terão de superar medalhistas nas últimas competições importantes (Mundiais e Olimpíadas) logo em suas primeiras lutas para seguir na briga por medalhas.
Flávio Canto, que disputou os Jogos de Atlanta-1996, tem uma estréia relativamente fácil, contra o colombiano Mario Antonio Valles. Em seguida, entretanto, o carioca provavelmente enfrentará uma pedreira: o estoniano Aleksei Budolin, que foi bronze no último Mundial (2003), no último Europeu (2004) e na última Olimpíada (2000).
"O Flávio já perdeu do Budolin, mas tenho certeza de que desta vez ele vai ganhar", aposta o técnico da seleção masculina, Luiz Shinohara. "Preferia não saber a chave, mas em uma Olimpíada, não tem jeito", diz Flávio. "Sempre vou para o tatame com táticas preparadas para cada lutador, mas prefiro não saber em que ordem os enfrentarei. Se não, passo toda a noite da véspera lutando contra o cara".
Canto afirma que está é sua última chance olímpica. Formado em advocacia, não tem patrocinador. "Estou começando a ficar meio velho para o judô. Gostaria de continuar, mas preciso pagar minhas contas. Já namoro há oito anos, não dá para ficar o resto da vida morando com meus pais. Além disso, há uma molecada nova muito boa, não sei se vou conseguir me manter. Atenas-2004 é a minha chance", conta o medalhista de ouro no Pan-Americano de Santo Domingo.
Flávio Canto comanda um projeto social há quatro anos, o Instituto Reação. Com auxílio da prefeitura carioca e da Universidade Gama Filho, ao lado de um professor da Universidade lidera um núcleo que atende 150 crianças na favela da Rocinha e outras 250 em Jacarépaguá. No Instituto Reação, crianças de até 15 anos recebem aulas de judô e noções de cidadania. O sonho de Canto é ver um de seus pupilos na seleção de judô.
"O judô é a ferramenta para juntar o grupo porque é mais fácil juntar crianças para fazer judô do que para aulas de matemática. Ainda falta muita coisa, mas conseguimos vitórias isoladas: algumas assistências médicas e odontológicas, algumas bolsas em escolas", diz. "Mas o instituto visa a alto rendimento. Se não, é perda de tempo. É mais fácil transformar a vida da criança pelo esporte, fazê-la evoluir espiritualmente, enfrentar a situação de medo. O judô é uma síntese da vida. Você sempre está caindo e levantando. Não adianta ensinar a criança a não cair, o importante é ensiná-la a saber levantar".
Vânia Ishii Filha de Chiaki Ishii, o primeiro medalhista olímpico do país na modalidade, Vânia Ishii também teve azar no sorteio das chaves. Logo na estréia enfrenta a belga Gella Vandecaveye, detentora de cinco medalhas em mundiais e dois pódios olímpicos. "A Gella é muito forte, experiente, tem muitos recursos. Ela ganhou da Vânia em Sydney, mas perdeu no Mundial de Osaka. Agora, Vânia está em melhor forma ainda que no Mundial", avalia o técnico da seleção feminina Floriano de Almeida.
Vânia, uma das mais simpáticas atletas brasileiras em Atenas, se diz confiante. "Eu quero e eu posso ganhar uma medalha", afirma ela, que cursa publicidade, mas pretende seguir trabalhando com o esporte depois que encerrar a carreira. "Nunca vai dar para sair do esporte. Meu objetivo é trabalhar com um projeto social. É o único modo de eu agradecer tudo o que pude ganhar e aprender com o judô. Vou precisar de contatos, de apoio, mas vou conseguir. Tenho muito interesse nisso".
"Quando parar de lutar, pretendo auxiliar meus pais no negócio deles -têm e alugam chalés. O esporte pode tirar muitas pessoas do caminho errado. Por enquanto, só dou palestras, mas queria ajudar mais".
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