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17/08/2004 - 08h45
Com leis rígidas no papel, Atenas "libera geral" no estádio
Murilo Garavello Enviado especial do UOL Em Atenas (Grécia)
Não é apenas no Brasil que há leis que "pegam" e normas que não são respeitadas nem fiscalizadas. Fato semelhante vem ocorrendo em Atenas, palco das Olimpíadas.
 | | | Até cangurus da torcida autraliana tomam cervejinha durante partidas | O espectador que compra ingresso para assistir a qualquer evento olímpico recebe um informativo com itens proibidos nos locais de competição pelo Comitê Organizador dos Jogos. Sombrinhas, bebidas alcoólicas, comida, grandes mochilas, instrumentos musicais e cornetas são alguns dos utensílios vetados dentro dos estádios e ginásios. Mas espectadores de diferentes partes do mundo têm furado todas estas proibições sem sofrer qualquer conseqüência.
O mesmo informe garante que pessoas que forem pegas em locais não-permitidos por seus ingressos e credenciais serão retirados do ginásio. Outra determinação que não vem sendo cumprida, assim como o respeito aos lugares marcados nos ingressos.
Se não bastasse, há um fato ainda mais grave: os ingressos olímpicos não são magnéticos, não passam por qualquer máquina que ateste sua veracidade. Os responsáveis pela checagem são voluntários, que mal observam os tíquetes antes de destacar os canhotos. Um falsificador munido de máquinas não muito especiais conseguiria clonar os ingressos.
Estádio Paz e Amizade, sábado, 14 de agosto. Pouco antes do início do jogo entre as seleções de vôlei de Brasil e Japão, nas arquibancadas, um funcionário de um dos grandes patrocinadores da modalidade, portando uma enorme mochila, distribui mais de uma centena de camisas para os torcedores.
Apesar de estar violando duas normas -não é permitida a entrada de mochilas deste tamanho, tampouco a ação organizada de patrocinadores dentro dos locais de competição-, não sofre qualquer tipo de punição. Ao contrário: os voluntários gregos e de outros países imploram por uma das camisetas com as cores do Brasil.
No mesmo local e data, Cilene, uma torcedora brasileira, assopra uma corneta de barulho estridente. A poucos metros dela, outro brasileiro, baquetas na mão, batuca um pandeiro. Ninguém chama a atenção deles. "Passei pela revista na entrada e ninguém disse nada. Também, qual é o problema?", diz o torcedor, que ao ser informado de que conversava com um jornalista, preferiu não revelar seu nome.
Ainda no estádio Paz e Amizade, a princípio, os brasileiros sentam-se nos locais indicados. As camisas verde-amarelas estão diluídas entre bandeiras gregas e pessoas com roupas sem alusão à nacionalidade. Antes do fim do primeiro set, um enorme bloco verde-amarelo está formado, impunemente, em um dos lados do ginásio.
Complexo Olímpico principal, em Maroussi, local das competições, entre outras, de natação. O eslovaco Szilard Fürjes, 34, atenua o calor refrescando-se com uma lata de cerveja. "Não pode entrar com cerveja? Por quê? Não sabia", diz Fürjes. "Não li o informe e, se você quer saber, vou continuar trazendo a minha cervejinha. O que eles vão fazer? Me prender?". Teoricamente, o que a organização não permitiria sua entrada.
Complexo Olímpico, 15 de agosto, eliminatórias da ginástica artística feminina. Espanhóis agitam sombrinhas amarelas e vermelhas a cada acrobacia da equipe de seu país. Dentro do ginásio. Atrapalham a visão de pessoas que estão atrás deles -outro item que, na norma oficial do Comitê Organizador, seria fato suficiente para a expulsão dos torcedores. Nada acontece.
Markopolous Shooting Center, 15 de agosto, local das competições do tiro esportivo. O brasileiro Rodrigo Bastos, eliminado da fossa olímpica, dá entrevista para um repórter brasileiro não-credenciado em local a que apenas a imprensa autorizada poderia entrar. O jornalista do UOL é abordado apenas na saída. "Você não poderia ter entrado aí", disse a voluntária. "Sim, mas agora estou querendo sair". Contrariada, não viu o que fazer exceto permitir a saída do UOL do local.
Outro lado Voula Gistakis, assessora de comunicação do Comitê Organizador das Olimpíadas, a princípio duvidou da veracidade dos fatos narrados acima. "Todos os voluntários foram especialmente treinados para não permitir que isso aconteça".
Em seguida, admitiu que "falhas acontecem, mas posso garantir que não há uma orientação para relaxar os regulamentos. Eles foram estudados exaustivamente para garantir a segurança e o conforto dos eventos".
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