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17/08/2004 - 11h30
Flávio Canto conquista a segunda medalha brasileira em Atenas-04

Murilo Garavello
Enviado especial do UOL
Em Atenas (Grécia)

O "inglês" Flávio Canto colocou nesta terça-feira o judô no topo dos esportes mais vitoriosos do Brasil em Olimpíadas. Nascido em Oxford, o atleta, que veio com os pais para o Rio de Janeiro quando tinha pouco mais de um ano, derrotou o polonês Robert Krawczyk e conquistou a 12ª medalha desse esporte para o país.

Reuters 
Flávio Canto exibe a medalha conquistada na categoria meio-médio
O judô brasileiro agora soma dois ouros, três pratas e sete bronzes, igualando o feito da vela (quatro ouros, duas pratas e seis bronzes) e do atletismo (três, três e seis) como as modalidades com mais pódios olímpicos do país.

A medalha olímpica coroa uma carreira de bons resultados. Canto, 29, já conquistou três medalhas em etapas do Circuito Europeu -competição que reúne os judocas mais fortes do mundo-, uma delas neste ano, no Torneio de Moscou. Canto também foi medalha de ouro no Pan-Americano de Santo Domingo-03, prata em Winnipeg-99 e bronze em Mar del Plata-95, além de ter vencido mais dois Pan-Americanos de judô (97 e 99).

Canto, que é advogado formado, teve de eliminar Tiago Camilo, prata em Sydney-2000, para se classificar para esta Olimpíada. A luta foi marcada por polêmica: Canto perdia a luta decisiva quando provocou a punição de Camilo a dois segundos do fim da luta. O rival chegou a ir aos tribunais para tentar anular o resultado.

"Tudo neste ano foi difícil, meu pai sofreu um enfarte e precisou fazer cinco pontes de safena. Esta medalha é para ele", afirmou o judoca à TV ESPN Brasil.

Agora, com a medalha no peito, o carioca tentará obter um patrocínio que viabilize sua permanência no esporte. Sem apoio financeiro, antes de Atenas, Canto cogitava a aposentadoria após os Jogos. "Namoro há oito anos e ainda moro com meus pais. Preciso dar um jeito de pagar as contas e resolver minha vida."

Rumo à medalha
Canto é um dos mais queridos membros da seleção. Simpático e solícito, é apontado pelos colegas como exemplo de dedicação e garra. E, na luta que lhe garantiu a medalha, Canto mostrou bastante força de vontade.

AFP 
Começou perdendo por um yuko (terceira maior pontuação) sofrido logo no primeiro minuto. Partiu para cima, sempre tentando a luta no solo, sua especialidade. O europeu evitou tanto que foi punido duas vezes por falta de combatividade e cedeu o empate.

Faltando um minuto, o brasileiro encaixou um de seus golpes clássicos, jogando o polonês por cima de suas pernas e chegou ao waza-ari (segunda maior pontuação). Depois só precisou administrar a vantagem.

O caminho rumo ao pódio entre os meio-médios foi idêntico ao do leve Leandro Guilheiro, no dia anterior. Perdeu nas quartas-de-final e foi para a repescagem, onde venceu três lutas consecutivas.

Canto fez uma estréia fulminante, levando apenas 37 segundos para estrangular o colombiano Mario Antonio Valles. Na seqüência, conseguiu uma importante vitória sobre o estoniano Aleksei Budolin -bronze no último Mundial e em Sydney-2000. Mas perdeu a chance de disputar o ouro com o revés para o russo Dmitri Nossov (que viria a conquistar o bronze também).

Na repescagem, começou perdendo do italiano Roberto Meloni por um koka de penalização, por ter aplicado um golpe fora da área de combate. Mas depois encaixou um belo golpe, que culminou em waza-ari, seguido de um ippon por estrangulamento. E, na segunda luta, impôs novo golpe perfeito relâmpago -em 25 segundos, nocauteou o sul-coreano Young Woo Kwon.

"Não tem ninguém melhor do que ninguém aqui. Se colocássemos todo mundo para lutar de novo, o resultado seria diferente. Depende de cada dia e ganha quem for o escolhido. Hoje, eu fui o escolhido", declarou.

Reuters 
Flávio Canto comemora conquista da medalha de bronze nas Olimpíadas
Outra homenagem foi para sua entidade de terceiro setor. "Galera da Rocinha, tenho certeza de que vocês ficaram aí acordados de madrugada, acompanhando todas as lutas. Vou levar essa medalha aí. Ela é de vocês também", disse Canto, referindo-se ao projeto social na favela carioca, que atende a cerca de 600 crianças carentes.

Ele ensina a arte marcial, como instrumento de fortalecer a cidadania. "A luta é uma metáfora da vida, você aprende a cair e a levantar. O importante não é ensinar a criança a não cair, mas sima saber levantar".

O judô masculino brasileiro mantém o tabu de subir ao pódio há duas décadas (seis Olimpíadas, desde Los Angeles-84). Mas o feminino segue a sina de nunca ter "medalhado".

Nesta terça, a meio-médio Vânia Ishii caiu logo na estréia, diante de sua algoz em Sydney-2000, a belga Gella Vandecaveye. Da mesma maneira, perderam a ligeiro Daniela Polzin e a meio-leve Fabiane Hukuda. A leve Danielle Zangrando foi até a segunda rodada.

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