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19/08/2004 - 09h30
Atenas vê Inoue, maior judoca do mundo, perder aura de imbatível
Murilo Garavello Enviado especial do UOL Em Atenas (Grécia)
A torcida japonesa dominava o ginásio Ano Liossia de judô -em volume duas vezes superior ao dos outros dias- para assistir aos combates de seu maior ídolo. Leandro Guilheiro, brasileiro medalhista em Atenas, ansioso, preparava a câmera para filmar todas as lutas dele. Os apreciadores do judô esperavam para se deliciar com exibições de técnica exuberante e uma série de ippons. Nada disso aconteceu.
Considerado o maior judoca do mundo, o tricampeão mundial e atual campeão olímpico, o japonês Kosei Inoue, invicto internacionalmente desde abril de 2000, foi derrotado. Duas vezes. E está fora da briga por medalhas. As expressões de descrença e decepção dos japoneses eram evidentes. "Não vou falar nada", resumiu Haruki Uemura, chefe da equipe nipônica de judô, esquivando se da reportagem do UOL, visivelmente irritado. "Não tenho nada para comentar. Você assistiu à luta".
"Ele também é humano", resumiu Guilheiro. "Para o judô, é muito ruim a derrota dele, porque ninguém no mundo tem tanta técnica", disse o técnico de Guilheiro, Ivo Nascimento. "Ele é muito melhor do que esse holandês, mas hoje não conseguiu encaixar seu jogo". Já o ex-judoca Sebastian Pereira, bronze no Mundial de 1999, preferiu ressaltar o holandês. "O Inoue era a medalha de ouro mais certa dessa Olimpíada, mas temos de tirar o chapéu para o holandês. Ele anulou completamente o japonês".
Não apenas de vitórias e invencibilidades a aura de melhor do mundo sobre Inoue havia sido criada -também pela beleza e rapidez com que decidia suas lutas. Em Sydney-2000, Inoue venceu suas duas primeiras lutas em menos de 15 segundos. Isto mesmo: a soma dos tempos das duas primeiras rodadas não chegou a 30 segundos. Ganhou a medalha aplicando ippons em todos seus oponentes. No último Mundial, em Tóquio, em 2003, a história praticamente se repetiu: os dois primeiros rivais duraram, cada um, 20 segundos. Em todos os casos, foi o tempo de o combate começar, Inoue conseguir a "pegada" em seu rival e usar sua velocidade aliada a técnicas perfeitas para derrubar o adversário.
Hoje, Inoue não parecia o mesmo judoca. No primeiro combate, não mostrou a mesma pegada habitual. Venceu Amel Mekic por ippon, mas parecia "enferrujado" -a vitória veio por estrangulamento, que não é sua especialidade. "Ele é muito ágil para o peso dele e ainda é fortíssimo. O cara é realmente bom demais. Ele mostrou estar meio sem ritmo, mas o sem ritmo dele é superior ao normal dos outros judocas", analisava, ao final da luta, Guilheiro.
Na segunda luta, Inoue venceu o húngaro Antal Kovacs, responsável por sua última derrota internacional, no Torneio de Budapeste-2000. Inoue conseguiu apenas um koka -pontuação mínima. Nas oitavas-de-final, o astro enfrentou o australiano Martin Kelly. Após um início ruim, Inoue encaixou o golpe que é sua marca registrada, o uchi-mata, pondo fim ao combate.
Nas quartas-de-final, veio a surpresa. O holandês Elco van der Geest abriu vantagem (um yuko) no início da luta com um contra-ataque. Logo depois, aplicou outro golpe sobre Inoue -obtendo outro yuko. O japonês parecia calmo. Mas o tempo passava. A 30 segundos do fim da luta, Inoue avançou e partiu para o tudo ou nada. Mais uma vez em um contra-golpe, Van der Geest acabou com o conto de fadas japonês: ippon.
Quando muitos no ginásio Ano Liossia ainda tentavam entender o que havia acontecido, Inoue, que lutou a repescagem visivelmente abatido pela derrota, perdeu outra: para o inexpressivo Movlud Miraliyev, do Azerbaijão. Apostando em tentar pegar as pernas do japonês, Miraliyev fez o japonês ser punido duas vezes por falta de combatividade. Inoue insistia em tentar o uchi-mata, mas o azerbaijano estava preparado. A 1min58s de luta, Inoue finalmente pareceu ter encaixado seu golpe predileto. O juiz principal marcou o ippon para o japonês. Entretanto, após uma conferência com seus auxiliares, decidiu dar a vitória por ippon para o azerbaijano que, na opinião deles, conseguiu reverter o golpe. Cabisbaixo, sem coragem de olhar para seus técnicos e superiores, o japonês retirou-se do tatame. Derrotado.
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