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21/08/2004 - 09h55
Gregos 'invadem' evento elitista, quebram etiqueta e irritam habitués
Murilo Garavello Enviado especial do UOL Em Atenas (Grécia)
É proibido se mexer, bater palmas, tossir, espirrar ou fazer qualquer ruído. Nem torcer por seu país é uma atitude politicamente correta. Nenhuma prova da Olimpíada impõe ao público tantas regras de etiqueta quanto o adestramento, modalidade popular apenas em países altamente desenvolvidos.
 | | | O alemão Martin Schaudt compete no elitista adestramento em Atenas | As restrições do evento mais elitista da Olimpíada -apenas países "top 20" no ranking do IDH da ONU participam da prova por equipes- começam na entrada do estádio. Neste sábado, as pessoas se acumulavam na fila. Eram mais de 15 ao longo das escadas. Uma grega, desavisada, esgueirou-se bruscamente e, aos berros, discutiu com o segurança que não permitia a entrada do público. Ela não sabia que não se pode ingressar no local enquanto um cavaleiro está se apresentando.
Qual o motivo de tanto zelo? Os cavalos, astros principais da competição, têm de fazer uma série de coreografias em trotes milimetricamente calculados. Qualquer movimento ou reação do público pode tirar a concentração do animal e, no limite, provocar uma queda do cavaleiro.
Até mesmo os intervalos das provas de adestramento contrastam com as outras de Olimpíada. A música colocada pela organização não é rock, tema grego, axé ou outro tema para animar a torcida: a trilha sonora conta com Luciano Pavarotti e cantoras líricas.
"Na realidade, o adestramento é uma forma de arte", diz a inglesa Lindsey Roberts do alto de um elegante vestido, chale e chapéu dignos da nobreza britânica. "Não devemos aplaudir uma apresentação porque é de nosso país. Temos de dar mais aplausos àquele que nos proporciona o espetáculo mais sublime".
Competição por equipes | | Países | Class. final | IDH (2004) | | Alemanha | 1º | 19º | | Espanha | 2º | 20º | | EUA | 3º | 8º | | Holanda | 4º | 5º | | Grã-Bretanha | 5º | 12º | | Dinamarca | 6º | 17º | | Áustria | 7º | 14º | | Suécia | 8º | 2º | | Suíça | 9º | 11º | | Canadá | 10º | 4º | | Fonte: ONU | Neste sábado, os gregos, que não têm nenhuma tradição na modalidade -nunca ganharam uma medalha olímpica em provas de hipismo-, irritaram aos torcedores de países participantes, que respeitam as rígidas regras de etiqueta. Vários celulares tocaram, e as pessoas conversavam em voz alta -ao telefone ou não.
Uma senhora aparentando mais de 70 anos não encontrava o local em que deveria se sentar. Dentro do estádio, subia e descia as escadas. A cada passada, o choque do salto de seu sapato com as provisórias arquibancadas metálicas provocava ruídos que rompiam o silêncio da arena. Um cinqüentão alemão lançava olhares repletos de fel. Sua mulher, em sussurros, tentava se comunicar com a mulher: "Ms, ms, please".
Desejando levar seus filhos para ver a performance dos cavalos, outros gregos provocaram gafes. Um menininho de três anos brincava com seus pequenos bonecos, alheio -e de costas- à competição . Falava alto. Batia seus guerreiros de miniatura contra as estruturas de metal. Stephen Roberts, britânico, cutucou o pai da criança. Recebeu em retribuição gestos de incompreensão -o grego não falava inglês. Logo depois, como em uma afronta, o pai mudou-se de lugar, durante a apresentação, para tirar uma foto do filho, ainda entretido com os bonecos.
"Dá para notar que eles não são habitueés. Repare, quando os cavalos vão para o outro lado, você não consegue enxergar suas patas -o que realmente importa. Por isso, temos de olhar para o telão. Quando começar a próxima apresentação, veja como ninguém se vira para lá", disse Roberts ao UOL Esporte. Ele tinha razão.
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