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23/08/2004 - 16h31
Daiane se desequilibra e deixa escapar pódio inédito

Murilo Garavello
Enviado especial do UOL
Em Atenas (Grécia)

Reuters 
Daiane dos Santos recebe o apoio do técnico Oleg Ostapenko; veja fotos
Acabou com dois pousos desequilibrados o sonho do pódio de Daiane dos Santos. O "Brasileirinho", música que embalou sua apresentação na final do solo olímpico, desandou, e a ginasta gaúcha saiu bufando da área de competição.

Antes de saber sua pontuação, virou para seu técnico, o ucraniano Oleg Ostapenko, e disse: "Acabou". Visivelmente chateada, balançou a cabeça, deu de ombros. A Oleg sobrou consolar sua pupila.

O ouro e a prata foram para a Romênia, com Catalina Ponor e Nicoleta Sofronie, respectivamente. Sofronie, inclusive, era reserva e só entrou na disputa por uma contusão. O bronze ficou com Patrícia Moreno, da Espanha, outra potência emergente da ginástica.

A pontuação da brasileira, de 9,375, foi muito baixa e não a classificaria para a final da prova. A nota que Daiane obteve hoje foi menor do que a da fase de classificação (9,637) em Atenas e inferior às cinco apresentações que a levaram ao primeiro lugar do ranking da ginástica (Mundial e etapas da Copa do Mundo). Nesta segunda, a brasileira perdeu 0,1 ponto por, após um dos desequilíbrios, ter pisado fora da área de salto. E ficou com o quinto lugar.

Foi-se o sonho de ser a primeira negra a ganhar um ouro na ginástica em Olimpíadas. E de ganhar o primeiro pódio olímpico na modalidade para o Brasil.

"Tive uma falha grande. É uma coisa que acontece. E aconteceu, não adianta ficar chorando", disse após a prova.

Apontada como favoritíssima como o velejador Robert Scheidt, que levou o ouro neste domingo, ela sofreu com a pressão. Ao contrário do iatista, que ganhou na regularidade, Daiane perdeu o pódio pela exigência de fazer uma apresentação impecável, sem chance de repetição.

"Estava nervosa. Foi mais por mim mesma, não pela pressão dos outros. Tem de ter um controle emocional grande", admitiu a ginasta.

A torcida no ginásio ateniense chegou a vaiar três pontuações, da chinesa Fei Cheng, da norte-americana Mohini Bhardwaj e a canadense Kate Richardson. Mas não após a pontuação de Daiane, que concordou com sua nota. "Você percebe quando erra. Eu me daria a mesma pontuação", disse.

De qualquer forma, com a quinta posição, Daiane teve a melhor posição do Brasil na ginástica -em Sydney-2000, o país festejou o inédito 20º lugar de Daniele Hypólito no individual geral. A gaúcha é a primeira brasileira a fazer uma final de aparelho em Olimpíadas.

Daiane também entrou para a história como a primeira ginasta brasileira medalha de ouro em um Mundial, há um ano. Além disso teve quatro ouros em etapas da Copa do Mundo neste ano. Daí o favoritismo unânime dedicado a ela pelo mundo da ginástica. E o sentimento de frustração com que a brasileira saiu de cena em Atenas.

Depois de ganhar medalhas no Pan-Americano de 1999 e receber os primeiros holofotes, não se classificou para Sydney-2000. Passou quatro anos praticamente incógnita, no ostracismo que os brasileiros dedicam aos olímpicos na entressafra. Em janeiro de 2003, aos 19 anos e sem muito alarde, deixou a família em Porto Alegre e passou a morar em Curitiba, em uma casa coletiva para as ginastas. Aprendeu a conviver 24 horas diárias com pessoas de personalidades díspares.

Carismática e dedicada aos treinos -é chamada de "robozinho" por Georgette Vidor, ex-técnica de Daniele Hypólito-, aos poucos conquistou o técnico ucraniano Oleg Ostapenko, que hoje a trata como a uma filha. E foi justamente o "casamento" do potencial físico de Daiane e do conhecimento técnico de Oleg que forjaram o "Michael Jordan da ginástica", nas palavras do técnico da seleção romena bicampeã olímpica Octavian Belu.

Daiane ainda escreveu seu nome na história da ginástica ao executar com perfeição dois saltos de altíssima dificuldade, nunca realizados no feminino. O duplo-twist carpado já se chama "Dos Santos". O duplo-twist esticado, ainda mais difícil, aguarda o referendo da Federação Internacional para receber denominação similar.

Nesta segunda, porém, eles não funcionaram. Com as falhas, a fama de "Michael Jordan" seguirá restrita ao mundo da ginástica -Daiane foi uma das menos aplaudidas pelo ginásio olímpico. Os brasileiros ainda tentaram consolá-la: na saída, ouviu gritos: "Valeu, Daiane". Ela olhou, agradeceu acenando, mas não escondeu o sorriso, amarelo e envergonhado. Muito diferentes daqueles com que encantou o Brasil e abriu os olhos nacionais para a ginástica.

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