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24/08/2004 - 10h45
"Mercado negro" tem ingresso pela metade do preço em Atenas

Murilo Garavello
Enviado especial do UOL
Em Atenas (Grécia)

Cena 1: São Paulo, 9 de junho de 2004. Uma hora antes do jogo entre São Paulo e Once Caldas, pela semifinal da Libertadores, cambistas abordam os torcedores nos arredores do Morumbi, que teria excelente público. Os "sem-ingresso" pagam duas vezes mais do que o valor de face. "Não quer pagar? Não entra", decreta o cambista.

Cena 2: Atenas, 23 de agosto de 2004. Duas horas antes das finais da ginástica artística, evento nobre das Olimpíadas, uma dezena de cambistas, usando métodos ostensivos como feirantes brasileiros, atraem torcedores em frente à estação Irini do metrô, a 100 metros da entrada do Complexo Olímpico. Dezenas de policiais, a 50 metros dali, nada fazem. Em uma rápida pechincha, as entradas, que custam 200 euros, são adquiridas pela metade do preço.

Reuters 
Torcedor sem ingresso em Atenas tem atendimento especial dos cambistas gregos
O brasileiro que, acostumado à lógica vigente em seu país, programou-se e comprou seus ingressos com antecedência fez mau negócio. Com arenas vazias e procura baixa por muitos eventos olímpicos, tem sido tarefa fácil encontrar ingressos pela metade do seu valor de face. Mas não é só a baixa procura que determina preços tão baixos.

"Você está perdendo dinheiro, não está?", pergunta a reportagem do UOL. "Não. Paguei 80 euros por este ingresso", responde o cambista grego, com um sorriso malandro. "Como, se ele custa 200?". "A pessoa de quem comprei havia adquirido essa entrada por 50 euros", disse, afirmando desconhecer o esquema que seu fornecedor conseguiu para pagar 25% do valor de face.

Oficialmente, antes da Olimpíada, havia três meios para comprar ingressos: Internet (apenas para residentes nos EUA e União Européia), agências autorizadas (como "CoSport", "Jet Set" e "Cartan Travel", nos EUA, ou a "Sportsworld" para britânicos e australianos) ou bilheteria. Ainda no Brasil, só havia um caminho: a Tamoyo, agência encarregada pelo COB (Comitê Olímpico Brasileiro) de vender a cota nacional. Quem estava no Brasil só poderia adquirir entradas pagando também pelo exorbitante pacote -média de 700 euros por dia- que incluía passagem aérea e hospedagem no Queen Mary 2, o Titanic do século 21.

De acordo com uma funcionária da Tamoyo, que instalou um escritório em Atenas e agora vende ingressos desatrelados dos pacotes, a agência pagou ao Comitê Organizador o valor de face de cada um dos ingressos. "Quitamos o valor total de todas as entradas antes de começarmos a vender. Quando há sobra, distribuímos para convidados do COB", diz Roseana, funcionária da agência. "Não vendemos em porta de estádio", garante.

AFP 
Mesmo com estrelas como a belga Justine Henin, o tênis ficou vazio
Mas nem sempre é preciso comprar ingressos. Os patrocinadores olímpicos recebem cotas do COI, e podem fazer o uso que preferirem: dar a convidados ou organizar promoções. Em Atenas, as delegações recebem uma cota para distribuir. Por exemplo, o judô. Em um dia de competição de uma das categorias, havia ingressos para que outros atletas e membros da delegação pudessem ver o desempenho dos colegas. E havia entradas também para convidados, como por exemplo o campeão olímpico Rogério Sampaio e o técnico de Leandro Guilheiro, Ivo Nascimento, que apesar de terem ligações óbvias com a delegação brasileira, dela não faziam parte oficialmente. Assim como o Brasil, outros países têm as mesmas cotas. Não é difícil imaginar que alguma delegação que não usaria todos os ingressos tenha aproveitado para fazer dinheiro com eles.

O Comitê Organizador, oficialmente, declara como proibida a revenda de entradas -ainda que pelo valor de face. Na prática, lava as mãos: o "mercado negro" à frente da estação Irini é tolerado. Há uma semana, os cambistas tomavam cuidados para agir: entregavam a entrada ao interessado e pediam que ele fosse a uma esquina já com o dinheiro exato em mãos. Agora, adotam tática de feirantes: gritam e negociam os tíquetes no próprio local, sem qualquer receio.

Ingresso barato, em eventos grandes e pequenos
Entradas para as finais da natação foram, como têm sido agora o atletismo e a ginástica, pechinchas para os torcedores "de última hora". Em 19 de agosto, dia em que o brasileiro Thiago Pereira acabou na quinta colocação nos 200 m medley, as arquibancadas estavam praticamente lotadas. Na mesma prova do brasileiro, o vencedor foi um dos astros da Olimpíada, o norte-americano Michael Phelps.

Uma hora antes do início do evento, a maior parte dos vendedores ilegais ofereciam ingressos pelo valor normal. Dez minutos antes da competição, temendo "morrer" com os ingressos na mão, os cambistas faziam qualquer negócio.

AFP 
A venda clandestina de ingressos também é feita perto das biblheterias oficiais
"Paguei 50 euros pelo ingresso que valia 100", vangloriava-se o austríaco Klaus Hassgaschen a um conhecido que encontrou na fila para comprar bebidas, já dentro do local que abriga a piscina principal. "O cambista queria 70 euros. Barganhei e ele aceitou".

Caso semelhante ocorreu na final da canoagem, no dia 17. O eslovaco Szilard Fürjes queria ver o evento em que seus compatriotas eram favoritos -e ganharam a medalha de ouro-, mas não tinha ingressos e havia chegado 20 minutos antes do começo das disputas. Também na barganha, pagou 25 euros por um ingresso de 40.



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