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29/08/2004 - 13h03
Após vitória, Bernardinho abraça Fernanda; Virna chora

Murilo Garavello
Enviado especial do UOL
Em Atenas (Grécia)

Durante o jogo, o técnico Bernardinho, dono de um currículo de 12 conquistas em 15 torneios à frente da seleção masculina de vôlei, era a imagem do torcedor fanático que tenta se controlar. A cada erro da seleção, se contorcia, pulava, falavra palavrões, gesticulava. Em segundos, se recompunha, fazia sinal de positivo para seus jogadores, pedia empenho. O técnico, que passou noites de insônia na Grécia, preocupado em analisar detalhes das seleções rivais e buscar formas de vencê-las com maior facilidade, teve uma preocupação minutos após a conquista. "Onde está a Fernanda? Onde está a Fernanda?"

Flavio Florido/Folha Imagem 
Bernardinho se desespera durante o jogo; veja álbum de fotos da conquista do Brasil
Quando enxergou sua mulher, com quem tem uma filha, Júlia, Bernardinho deu-lhe um longo abraço. Fernanda Venturini, que nesta Olimpíada perdeu junto com a seleção feminina sete "match points" para ir à final e, ontem, perdeu a medalha de bronze, tinha os olhos molhados ao separar-se de Bernardinho, que se encaminhou ao vestiário antes da cerimônia de premiação.

Os torcedores brasileiros, que romperam o esquema de segurança do ginásio Paz e Amizade, buscavam espaço com cotoveladas para tirar fotos do momento histórico. Em seguida, Bernardinho foi parabenizado pelos jornalistas. Os mais íntimos abraçaram o treinador.

Lances de arquibancada acima, as jogadoras da seleção feminina de vôlei observavam a tudo, emocionadas. Parte delas havia sido treinada por Bernardinho -que conquistou duas medalhas de bronze com as mulheres antes de ser técnico da seleção masculina. Felizes com a conquista dos homens, se abraçaram.

No momento da execução do hino nacional, Virna chorou. A mineira, uma das mais abatidas com a perda da medalha de bronze, disse ter sentido uma emoção "diferente", um misto de felicidade e frustração que a levou às lagrimas.

Dirigentes do COB e ex-jogadores de vôlei, que assistiam à decisão, invadiram a quadra para abraçar e parabenizar os atletas. Bernard, da geração de prata, era o mais empolgado. Das arquibancadas, além do time de vôlei, também as meninas -literalmente- da ginástica rítmica, que ontem acabaram com o oitavo lugar na final de sua modalidade, assistiram à conquista. Dayanne Camillo, veterana de Sydney-2000 que anunciou sua saída da equipe, também deixou escorrer lágrimas quando ouviu o hino nacional.

Os jogadores
Três dos maiores nomes do vôlei brasileiro dos últimos dez anos foram apenas coadjuvantes do título conquistado neste domingo. Giovane e Maurício sagraram-se campeões olímpicos sem participar da decisão. Já Nalbert, a exemplo do que tinha acontecido na semifinal, contra os EUA, disputou apenas um ponto. Os três, entretanto, eram os mais animados após a conquista do ouro.

O primeiro a se enrolar em uma bandeira do Brasil, Maurício foi abraçado longamente por dirigentes do vôlei e do COB. Veterano de cinco Olimpíadas, o levantador, que não jogará mais pela seleção, pulava de um lado para o outro e posava para fotos com os torcedores. Fez questão de abraçar a jogadora Leila. E quem mais estivesse do lado.

Giovane, que no fim do ano passado foi eleito o melhor jogador da Copa do Mundo -foi titular do time campeão-, teve poucas chances de atuar nesta Olimpíada. O titular de sua posição, Giba, talvez tenha sido o melhor jogador da seleção em Atenas. Neste domingo, o atacante não entrou em quadra. Mas era ele quem fazia massagens nos ombros dos jogadores nos intervalos, carregava o isopor térmico com os líquidos nas mudanças de set e quem dava água para os titulares enquanto Bernardinho passava instruções nos pedidos de tempo. Quando o jogo acabou, Giovane correu para dar entrevistas. E se disse tão emocionado como em Barcelona-1992, quando, como titular, chegou ao primeiro título olímpico.

Já Nalbert, capitão do time apesar da contusão, disputou apenas um ponto. Entrou apenas para sacar -e acertou o serviço, mas a seleção italiana conseguiu colocar a bola no chão, e ele foi substituído imediatamente. Apesar disso, a participação de Nalbert foi maior: ele conversava com os jogadores a cada intervalo. Principalmente com Escadinha, o jogador mais vibrante da seleção. Quando a partida acabou, o líbero brasileiro ficou quase um minuto inteiro abraçado ao capitão.

Escadinha, que chorou no pódio, foi durante o jogo a imagem do time aguerrido montado por Bernardinho. A cada bola em que mergulhava, mas não conseguia salvar, dava murros no chão, ficava irritadíssimo. Entretanto, quando tinha sucesso e a equipe ganhava o ponto, comemorava como se tivesse feito um gol em uma final de campeonato: cumprimentava até os reservas da seleção.

Após o fim do jogo, ele e André Nascimento fizeram uma bonita homenagem ao meio-de-rede Henrique, último cortado da seleção, a poucos dias da Olimpíada. No pódio, ao lado das bandeiras do Brasil, seguraram uma camiseta da seleção com o nome "Henrique", para que todas as TVs a filmassem -e o jogador estivesse, de alguma forma, incluído também nas fotos da conquista do ouro olímpico.


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