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01/09/2004 - 14h08
"Filme imaginário" e carta de técnico levam Vanderlei ao pódio

Leopoldo Godoy
Em São Paulo

No trecho mais duro da maratona de Atenas, na subida entre o 18º e o 35º quilômetro da prova, Vanderlei Cordeiro enfrenta um adversário conhecido: o recordista mundial Paul Tergat. O brasileiro e o queniano se destacam do grupo principal e lutam por um lugar no pódio. No final, Vanderlei dá o bote em Tergat e conquista a tão sonhada medalha olímpica.

Reuters 
Vanderlei comemora no pódio em Atenas
Foi essa a prova que o brasileiro Vanderlei Cordeiro de Lima construiu em sua imaginação durante as semanas de treinamento em Paipa, na Colômbia, que antecederam os Jogos. Em entrevista coletiva concedida nesta quarta-feira, o medalhista de bronze na prova que encerrou os Jogos Olimpícos disse que "sonhava" com a luta com Tergat diariamente, imaginando o que teria que fazer para vencer.

"Era um filme que passava na minha cabeça. Eu lutava por medalha e meu adversário era sempre o Paul Tergat. Eu pensava nisso durante todos os treinos em Paipa, foi o jeito que encontrei para ficar focado no meu objetivo", afirma Vanderlei, que conseguiu o bronze mesmo após ser agredido pelo ex-padre irlandês Cornelius Horan a cerca de 8 km do final da prova.

Segundo o maratonista, sua estratégia inicial era marcar Tergat, apontado como um dos favoritos ao ouro, e seguir o ritmo do queniano até o momento que se sentisse confiante para impor seu próprio ritmo. "Eu fiquei com ele no começo, mas aí vi que ele não ia fazer uma boa prova", contou Vanderlei. "Aí, disparei", explica.

Além do "filme", Vanderlei se baseou em uma carta de seu técnico, Ricardo D'Angelo, entregue ao maratonista momentos antes da largada (leia a íntegra da carta). "Ele me deu umas dicas, pautou minha estratégia e me deu confiança para seguir meu ritmo", diz.

D'Angelo teve pouco contato com Vanderlei em Atenas, pois não pode ficar hospedado na Vila Olímpica por não fazer parte da delegação do COB -o técnico oficial dos maratonistas olímpicos do Brasil foi Carlos Cavalheiro. "A gente conversou bastante quando me preparei em Paipa, mas depois que fui para Atenas, só nos encontramos uma vez", conta.

"Devo muito ao Ricardo, pois temos uma relação de confiança muito grande. Quando comecei a correr, ele estava começando a carreira de técnico. Crescemos e aprendemos muita coisa juntos", conta o maratonista. A carta foi entregue a Vanderlei pelo treinador João Paulo da Cunha, técnico da arremessadora de peso Elisângela Adriano.

"Pensei muito na carta, principalmente quando comecei a me destacar. O pessoal viu eu correndo forte na subida e achou que eu ia parar logo, mas não me preocupei com isso", explica o maratonista. "Na hora da agressão, aquilo também me fez seguir, porque eu sabia que tinha muita gente que confiava em mim e que eu não poderia decepcioná-los", completou.

Após a conquista da medalha olímpica, o próximo plano de Vanderlei é subir ao pódio no próximo Mundial de Atletismo. "Vou conversar com o Ricardo e acho que vamos colocar o título Mundial como objetivo principal. Quero me preparar para isso, para faturar mais uma medalha importante", afirmou Vanderlei. O evento será disputado em agosto de 2005 na cidade de Helsinque (Finlândia).

Carta
Vanderlei guarda apenas uma mágoa em relação ao desfecho da prova nas Olimpíadas de Atenas: a declaração do italiano Stefano Baldini, medalhista de ouro, que afirmou que ultrapassaria o brasileiro mesmo que este não tivesse sido agredido por Horan.

"Acho que ele foi muito infeliz na declaração. Ninguém perde nada sendo humilde", afirmou Vanderlei, que disse não ter tido contato com o italiano depois da competição. "Ele foi seco comigo, não me cumprimentou direito no pódio", disse o brasileiro.

Baldini também demonstrou irritação após a prova, quando abandonou a entrevista coletiva realizada com os vencedores, já que a maioria das perguntas foram dirigidas ao brasileiro. "Não sei porque ele fez isso, mas acho que isso só valoriza minha medalha", afirmou.

Vanderlei disse também que não pretende responder a carta que o ex-padre irlandês Cornelius Horan prometeu enviar ao brasileiro, pedindo desculpas dos incidentes ocorridos durante a maratona. "Não tenho relações com ele. Aceito as desculpas, mas não preciso responder nada", disse.

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