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05/05/2004 - 09h05
Aos 44 anos, Torben vai a Atenas atrás de recordes
Vicente Toledo Jr. Em São Paulo
Poucos atletas possuem uma galeria de títulos tão grande como a dele. Um grupo ainda mais reduzido angariou tamanho respeito por seu talento ao redor do mundo. Engana-se, porém, quem pensa que Torben está satisfeito com o que conquistou nos quase 35 anos de dedicação à vela.
 | | | No pódio em Sydney: bronze com sabor de derrota na classe Star | Assim que largar na primeira regata da classe Star em Atenas, Torben Grael estará disputando a sexta Olimpíada de sua carreira, um recorde absoluto no esporte brasileiro. Mas esta não é a única marca histórica na mira do velejador.
A Grécia poderá ser o palco do desempate entre Torben Grael e Gustavo Borges, os dois recordistas brasileiros de medalhas olímpicas, com quatro cada um. O velejador tentará também repetir o ouro de Atlanta-1996 para se igualar ao lendário Adhemar Ferreira da Silva, até hoje o único brasileiro bicampeão olímpico.
Mesmo diante de objetivos tão importantes, o veterano velejador não se abala. Quando agosto chegar, ele terá 44 anos. Com a autoridade que o currículo lhe confere, Torben Grael fala com naturalidade sobre os desafios em entrevista exclusiva ao UOL Esporte e revela que ainda não tem planos de se aposentar.
UOL Esporte - Daqui a pouco mais de três meses você será o recordista brasileiro de participações olímpicas e existe uma boa chance de você se tornar também o recordista isolado de medalhas. Você pensa nisso? Como encara essa cobrança por mais um grande resultado? Torben Grael - Isso é só uma motivação a mais. Não é pressão nenhuma. A gente tem um histórico que, mesmo se voltarmos de Atenas sem medalha, ninguém vai poder falar nada. Acho que isso tira a pressão de cima da gente. A única pressão que temos é a nossa própria vontade de conquistar mais medalhas. Alcançar recordes é uma coisa que é fruto de um trabalho de longo prazo. Estou indo para uma sexta Olimpíada e, obviamente, com grande entusiasmo de trazer outra medalha. Mas nunca penso nesse tipo de coisa, só penso no que posso fazer para ter um bom resultado lá.
UOL Esporte - Em que medida já ter disputado cinco Olimpíadas é uma vantagem em relação aos outros competidores? O que aprendeu nas participações anteriores? Torben Grael - Procuro usar todos os momentos que acumulei nesses anos, tanto os bons como os ruins. A gente aprendeu muito com os erros. Agora penso em fazer tudo o que for possível para que o resultado venha. O nível olímpico é extremamente competitivo, então, se quiser ter sucesso, você tem que ter a consciência tranqüila de que fez tudo o que estava ao seu alcance. Isso não é uma garantia que o resultado vai vir, mas é uma garantia de entrar tranqüilo na competição, sabendo que você fez tudo o que poderia para chegar lá.
UOL Esporte - O que falta fazer nessa reta final de preparação? Qual é a importância dessa fase para o resultado final? Torben Grael - Eu prefiro usar esse período para fazer testes de equipamento e velocidade. Em julho a gente vai dar um pulinho em Atenas para fazer um treinamento no local da regata. Depois é chegar com uma boa antecedência nas Olimpíadas (a equipe de vela do Brasil embarca no dia 30 de julho). Acho que nossa participação em eventos neste ano foi importante para conhecermos os adversários, sabermos das mudanças, ficarmos por dentro do que está acontecendo na classe. Mas foram importantes também os treinamentos específicos para a correção de algumas falhas e para desenvolvimento de equipamento no sentido de ganharmos velocidade no barco.
UOL Esporte - Em Sydney, vocês inovaram e decidiram competir com um barco totalmente novo. Qual é o plano para Atenas? Torben Grael - Para Atenas a gente a princípio não vai fazer nenhuma modificação de barco. Estamos com um barco que a gente lançou em 2002 e estamos bastante contentes com seu desempenho. Com isso, temos confiança no equipamento. Quando você muda muito em cima, você às vezes tem um ganho de equipamento, mas também tem a desconfiança sobre se aquilo ali vai funcionar ou não. Então, é uma coisa que tem vantagens e desvantagens. Estamos sempre procurando coisas novas, existe sempre uma evolução, mas, se não pintar nada de substancial, devemos correr com o equipamento que a gente está usando.
UOL Esporte - Quem você apontaria como os principais adversários na disputa pelo ouro da classe Star?
 | | | Grael e Ferreira durante regata dos Jogos Olímpicos de Sydney | Torben Grael - Os maiores adversários historicamente são os norte-americanos. E tem também alguns talentos novos na classe, um barco inglês, um francês e um sueco (Frederik Loof e Anders Ekstrom, campeões do Mundial que terminou no último fim-de-semana) que estão se saindo muito bem. Mas em Atenas teremos bastante equilíbrio porque na classe Star, onde o campeonato Mundial tem 120 barcos, teremos só 15 barcos participando. É praticamente todo mundo com chances de medalha. O nível é muito alto, só vão realmente os melhores.
UOL Esporte - O que você espera de Atenas? As condições para a prática da vela o agradam? Torben Grael - Atenas é um lugar super difícil, com muito calor, com vento muito inconstante por causa do calor, turbulento porque passa pela cidade antes de chegar na raia. Acho que isso para a gente é legal, quanto mais difícil melhor para a gente.
UOL Esporte - Sua participação em competições internacionais de barcos diferentes auxilia na hora de disputar uma Olimpíada? Torben Grael - Na maioria dos barcos em que competi, fui timoneiro ou tático, e isso sempre é um treinamento para uma outra competição. Você usa técnicas de regulagem de vela, aprende algumas coisas de uns barcos que se aplicam em outros, tudo é relacionado. Tivemos dificuldades em Sydney porque ficamos muito tempo sem treinar devido à minha participação na America's Cup, e aí perdemos um pouco de ritmo. Era minha primeira participação na America's Cup, então dediquei muito tempo à preparação, que era uma coisa muito intensa, e a competição foi muito próxima das Olimpíadas. Foram menos de seis meses de intervalo entre as competições. Foi difícil retornar ao ritmo em um período tão curto, então sentimos um pouco de falta de ritmo lá em Sydney e mesmo assim ganhamos a medalha de bronze, muito próximo de uma medalha de ouro. Mas esse problema não vamos ter dessa vez. Eu fiz America's Cup de novo, mas acabou em 2003 e tivemos mais tempo para o treinamento.
UOL Esporte - Você e seus irmãos criaram um projeto social - o Projeto Grael, em Niterói - para crianças carentes. Como é esse projeto e o que dificuldades vocês tiveram para implantar essa iniciativa? Torben Grael - Estou como diretor conselheiro do projeto, quem é presidente do instituto e toca o projeto é o meu irmão Axel, que tem feito um trabalho excepcional atraindo patrocinadores. Estamos agora procurando uma sede própria para podermos desenvolver atividades de profissionalização com direcionamento para o mercado náutico. Então, a gente não só ensina a turma a velejar como também direciona para o mercado, dando uma passagem completa para essas crianças. Isso foi uma coisa que o Axel levantou e tem sido um fator muito importante lá no projeto. Dificuldades a gente sempre encontra, para quase tudo o que a gente faz na vida, mas a motivação para esse trabalho é muito grande. É muito gratificante trabalhar com crianças e dar a elas a oportunidade de praticar um esporte e, quem sabe, se encaminhar para uma profissão.
UOL Esporte - Existe a esperança de encontrarem um novo grande campeão para a vela dentro do projeto?
 | | | Torben (à dir) conversa com o irmão Lars durante intervalo nas disputas em Sydney | Torben Grael - Sem dúvida, o esporte no nosso país tem um potencial muito grande. Nós temos uma população bastante grande, que gosta de esporte, admira esporte e acompanha esporte, com uma bagagem genética também muito grande. Temos como encontrar pessoas com aptidão para quase todos os esportes. O que a gente precisa é dar oportunidade. Como nós tivemos a oportunidade, é normal querermos que outras pessoas tenham também.
UOL Esporte - Como você avalia a realidade atual do esporte olímpico brasileiro? O que mudou depois da aprovação da Lei Piva? Torben Grael - A Lei Piva trouxe uma melhora substancial ao esporte de alto nível, mas ela está atuando já no topo da pirâmide. É importante para dar condições para as pessoas que competem hoje de disputar em condições de igualdade com os adversários de outros países. Mas é importante também trabalhar na base, aumentar a base da pirâmide, ter mais gente praticando esporte. E ter como levar essas pessoas que iniciam no esporte ao topo da pirâmide. Para isso, seria muito importante a aprovação de uma lei de incentivo ao esporte.
UOL Esporte - Você acha que o fechamento dos bingos pode prejudicar algumas modalidades, como a vela, que dependiam dessa fonte de financiamento? Torben Grael - Com certeza é uma verba que a federação tinha e vai deixar de ter. Mas acho que a lei de incentivo ao esporte é muito mais importante e muito mais transparente do que os bingos. Seria uma coisa que beneficiaria a todos e seria muito mais importante.
UOL Esporte - Em Atenas, você terá 44 anos. Já pensou em parar de competir? E no que fará quando deixar o esporte de alto nível? Torben Grael - As coisas vão acontecendo, a gente não vai fazendo muito plano. As oportunidades aparecem, e é muito importante você aproveitar as oportunidades. Obviamente, vai chegar uma hora em que vou ter um declínio e vou mudar o enfoque da competição. Há competições de outro nível em que é possível manter a competitividade, não em termos olímpicos, mas em termos nacionais, vela de oceano, outras coisas em que a gente pode continuar competindo. É uma coisa que a vela tem de bom, ela permite que você participe por um período muito grande de competições e em diversos níveis. É um dos poucos esportes em que você pode participar com atletas de alto nível, mas sem as mesmas pretensões de antes.
UOL Esporte - Infelizmente, seu irmão Lars foi obrigado a trilhar um outro caminho fora da vela depois do acidente. Você pensa em se envolver também com a política do esporte? Torben Grael - No que for possível eu ajudar, vai ser sempre um prazer. O Lars sempre teve o dom para a atividade que ele está exercendo agora. Ele só não tinha a oportunidade de fazer isso antes porque estava se dedicando à competição. Com a mudança na vida dele, veio a oportunidade. E ele está se destacando muito porque é uma pessoa que tem talento e uma visão muito grande do esporte.
UOL Esporte - Como você compara a realidade da vela hoje com a que existia no seu início de carreira? Torben Grael - Em todos os esportes é difícil você conquistar seu espaço, não só na vela. Mas eu acho que hoje é muito mais fácil do que quando eu comecei. Quando eu comecei a competir, a participar de campeonatos importantes no exterior, nem existia patrocínio. Não era nem permitido, só passou a ser permitido depois. Então, a gente foi abrindo um caminho, foi a ponta da lança abrindo essa estrada. Hoje é muito mais fácil para quem está começando. Pelo menos eles podem visualizar, enxergar a luz no fim do túnel.
UOL Esporte - E qual foi a solução que você encontrou para financiar sua vida de atleta antes de se tornar um grande campeão? Torben Grael - Meu pai não era rico, era um militar. Meus pais tiveram uma participação muito importante na nossa vida esportiva. Eles fizeram alguns sacrifícios para que a gente pudesse realizar nosso sonho. O início foi todo graças a eles, a meu avô também, que nos ajudou muito no começo. Depois eu fui correr de Soling, minha primeira classe olímpica, e quem ajudou muito foi o Harry Adler, que era o pai do Daniel, um dos meus tripulantes, e financiou praticamente toda a nossa campanha olímpica de 1984 (que culminou na medalha de prata). Depois a gente também fez campanha olímpica para 88 (bronze na Star), basicamente também foi o Harry que financiou. Começamos a contar com os primeiros patrocínios, que foram a Xerox do Brasil, que fez a doação do barco em 84 e o custeio do ano olímpico de 88, tive também o patrocínio do Cantão, da Hedley, do Club Mediterrané, aí as coisas começaram a surgir. Tive um patrocínio muito legal da Souza Ramos, que ajudou a gente a ganhar um Mundial. As coisas foram melhorando, em 96 tivemos um apoio muito importante e com antecedência de três da Cutty Sark, que foi um parceiro muito importante da vela, e meu também, ganhamos uma medalha de ouro juntos. Aí a gente teve um problema grande entre esses dois eventos que foi em Barcelona-92, onde a gente teve muita dificuldade para patrocínio, acabamos contando com um patrocínio de última hora do Banco do Brasil, mas não foi suficiente para reverter a preparação que a gente fez, que foi muito ruim. Foi a única Olimpíada em que tivemos um resultado muito fraco. Depois, de 97 em diante, quando eu fui participar da America's Cup, a Prada, que era a minha equipe, passou a nos patrocinar também no Star até hoje. E nos dois últimos anos também a Petrobras. Paralelamente a isso, também tive durante oito anos uma parceria formidável com uma empresa chamada Polibrasil, uma indústria química, na vela de oceano. A gente ganhou todos os torneios que há no Brasil, inclusive a gente detém o recorde da regata Santos-Rio até hoje, já vai fazer quase dez anos.
UOL Esporte - Qual é a lembrança mais marcante que você guarda de todos esses anos de carreira? Torben Grael - Não tenha dúvida de que a medalha de ouro olímpica é a conquista mais legal e emocionante que eu consegui, mas muitas delas foram muito importantes no momento em que chegaram. Por exemplo, em 1984, nós vencemos a eliminatória brasileira em um desempate e acabamos ganhando a medalha de prata na Olimpíada. Aquilo foi um empurrão, um impulso muito grande para a gente entrar de cabeça mesmo na coisa. De repente, um mau resultado ali iria jogar um banho de água fria. Então, às vezes várias regatas, campeonatos mundiais, chegaram num momento muito importante. Para aquela prata lá, a gente deixou de mencionar antes a gente teve um primeiro grande patrocinador da vela brasileira que foi a Atlântica Boavista, depois o Bradesco, na época do Amador Aguiar, e foi uma época muito legal da vela porque teve esse grande patrocínio, nas pré-olímpicas, quem se classificava ia competir no exterior. E ao mesmo tempo a gente teve o festival Hollywood de vela, que deu muita exposição ao esporte e tinha realmente muita gente velejando.
UOL Esporte - E a recordação mais amarga? Torben Grael - Tem dois resultados que são excelentes, mas que deixaram um gostinho amargo na boca que foram as Olimpíadas de Seul e de Sydney. Em 1988, a gente teve uma quebra no barco na penúltima regata, quando estávamos muito próximos da medalha de ouro. E em 2000 a gente saiu escapado na última regata e acabou perdendo a medalha de ouro. Era o pior resultado que a poderia acontecer porque, mesmo sem correr a última regata, a gente seria medalha de bronze. Foi uma infelicidade, faz parte do esporte. Na Coréia, se a gente não tivesse adotado um estilo muito agressivo de velejar, talvez não tivesse condições nem de pegar uma medalha. Então, às vezes um pouquinho de sorte faz a diferença. Em Atlanta, a gente ganhou forçando os australianos para fora na última regata. Em Sydney, a gente forçou o americano para fora na última regata e acabou indo junto. A diferença é muito sutil, às vezes vai para o seu lado, às vezes não.
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