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  10/05/2006 - 14h42
Japão usa jiu-jitsu para aprender técnica de solo brasileira

Lello Lopes
Em São Paulo

O jiu-jitsu brasileiro é a nova arma da equipe japonesa de judô. Em treinos realizados na Arena Olímpica de Judô no Complexo do Ibirapuera, em São Paulo, a equipe principal do Japão assume que quer melhorar a técnica de luta no solo (newaza). Para isso, conta com a colaboração dos judocas brasileiros, considerados especialistas no assunto, e com atletas de jiu-jitsu.

DOMÍNIO JAPONÊS
O Japão é a maior potência do judô. E isso pode ser provado com os resultados dos dois últimos grandes torneios do esporte, os Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004, e o Campeonato Mundial, em 2005.

Nas Olimpíada, em 14 categorias, os japoneses ganharam dez medalhas, sendo oito de ouro. As outras seis medalhas douradas ficaram com países diferentes. No Mundial, foram três ouros e cinco pratas em 16 categorias. A Holanda também ganhou três medalhas de ouro, mas não conseguiu nenhuma de prata. Já o Brasil levou duas medalhas de bronze na Olimpíada e um ouro e um bronze no Mundial.

"O nosso único objetivo é a medalha de ouro. Todo o treinamento é visando isso", garante o técnico da equipe, Hitoshi Saito.
"No Brasil o jiu-jitsu é muito forte, e nós queremos aprender melhor essa técnica no chão. Toda noite tem treino de newaza", disse o técnico japonês, Hitoshi Saito.

O estilo japonês é extremamente técnico, com os judocas sendo especialistas em lutas em pé, em busca principalmente do ippon. Já o estilo europeu é mais baseado na força, principalmente na luta no solo. Já o judô brasileiro, apesar de seguir a escola nipônica, conseguiu desenvolver uma boa técnica de solo, atraindo assim a atenção dos japoneses.

Outro motivo da visita japonesa ao Brasil é passar por um processo de adaptação antes do Mundial da modalidade, que será realizado no ano que vem no Rio de Janeiro. "Queremos sentir o clima brasileiro. E a gente quer ver o pessoal da base, o material de treino, uma vez que já enfrentamos os atletas da seleção na Europa e no Japão", concluiu Saito.

O tricampeão olímpico Tadahiro Nomura e os campeões mundiais Yasuyuki Muneta e Keiji Suzuki são alguns dos nomes que fazem parte da primeira delegação titular japonesa que treina na América. Entre os brasileiros convidados para participar do treinamento estão os medalhistas olímpicos Flávio Canto, Carlos Honorato e Thiago Camilo, além do campeão mundial João Derly.

"Ainda não conseguir pegar a técnica, mas está sendo bom porque o judô brasileiro é muito forte", analisou Nomura, único judoca na história a conquistar três medalhas de ouro em Jogos Olímpicos.

Os outros atletas da delegação seguem a mesma linha de pensamento. "Tenho aprendido muito com os lutadores de jiu-jitsu. Já tomei várias chaves e estrangulamentos, mas estou aprendendo", disse Suzuki, bicampeão mundial e campeão olímpico na categoria até 100 kg.

JUDÔ E FUTEBOL
Os principais judocas japoneses não acreditam que a seleção nipônica possa bater os pentacampeões do mundo na Copa na Alemanha. Para eles, é mais fácil um brasileiro derrotar um japonês no judô do que a seleção do Japão bater a equipe de Carlos Alberto Parreira na Alemanha.
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"A técnica de chão brasileira é muito forte. E não são só os atletas da seleção que são fortes no chão, os outros judocas também. Os brasileiros talvez até sejam melhores que os japoneses (no newaza)", exagera Muneta, campeão mundial na categoria acima de 100 kg.

Para os brasileiros, o fato da equipe japonesa treinar no país é fundamental para o desenvolvimento dos jovens atletas, uma vez que os judocas da seleção normalmente encontram os japoneses em treinos na Europa e na Ásia.

"Acho que a gente está aprendendo muito mais que eles. Questões de pegadas e postura são coisas que eu estou pegando melhor. São detalhes dentro de uma luta que eu vou aprendendo e tentando moldar nos atletas que enfrento no Brasil", disse Carlos Honorato, medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Sydney na categoria até 90 kg.

"É ótimo que eles venham para cá porque a gente não tem problema com o fuso-horário ou com a comida", brincou Flávio Canto, medalha de bronze em Atenas-04 na categoria até 81 kg. "A gente ainda tem a oportunidade de treinar com eles, mas os mais jovens não. Agora eles já podem falar que treinaram com um campeão olímpico", completou.

Luis Farah, que no ano passado terminou em quinto colocado no ranking brasileiro da categoria acima de 100 kg, aproveita a oportunidade para treinar junto com um dos seus ídolos.

"Eu tinha uma foto com o Muneta, agora estou treinando com ele. Mas a gente pensa nisso antes do treino. Depois eu fui entrando, concentrado, para fazer um bom treino. Ele me jogou uma vez, mas um ou outro golpe a gente acaba encaixando", disse Farah, que revelou uma certa disputa entre os judocas para enfrentar os craques japoneses no treinamento.

Os treinos acontecem em São Paulo até sexta-feira. Depois, os judocas viajam para Maringá, no Paraná, onde disputam um desafio internacional no sábado. Na semana que vem, as equipes de Brasil e Japão voltam a se encontrar para treinamento, desta vez no Rio de Janeiro.

As maiores estrelas japonesas participaram do treino nesta quarta-feira de manhã, mas o grande astro do Brasil ficou de fora. João Derly, campeão mundial na categoria até 66 kg, sentiu uma contusão no ombro direito na semana passada e decidiu se poupar, apesar de ter treinado na terça-feira. Com dores, o japonês Hiroshi Izumi, campeão mundial e vice-campeão olímpico na categoria até 90 kg também foi poupado.

O treino começou pontualmente às 10h, com um leve aquecimento. Com 20 minutos de movimentação, um problema na rede elétrica da região fez com que acabasse a energia no ginásio, obrigando os judocas a treinarem à meia-luz.

A energia elétrica voltou no exato momento em que o treino acabou. Muito simpáticos, os japoneses conversaram com a imprensa sentados no tatame. A judoca brasileira Vânia Ishii, usando uma caderneta do Corinthians, serviu de intérprete.

Assim como aconteceu nos últimos dois dias, muitas pessoas acompanharam o treinamento. E Flávio Canto acabou saindo no prejuízo. O judoca brasileiro teve o seu chinelo furtado, sendo obrigado a ir embora descalço.

O último atleta a deixar o ginásio foi Keiji Suzuki. Sozinho, o bicampeão mundial voltou à pé para o hotel, localizado na região sul de São Paulo.


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