A proibição a blogs e páginas pessoais de atletas durante o Pan foi divulgada pelo Comitê Olímpico Brasileiro (COB) em janeiro deste ano. Quatro meses se passaram, o início da competição está perto, mas a desinformação ainda é grande, especialmente entre os maiores interessados no assunto, os representantes do Brasil no Pan.
O diálogo entre a reportagem do
UOL Esporte e o judoca Flávio Canto é prova disso. Ao ser questionado se deixaria de atualizar seu blog durante os Jogos, o atleta respondeu com outra pergunta: “Por quê?”
Como ele, outros atletas simplesmente desconhecem o veto. Há quem planeje deixar a atualização das páginas nas mãos de parentes, como o esgrimista Renzo Agresta, que tem um diário virtual na página de uma empresa parceira do Co-Rio, o comitê organizador do evento. “A irmã dele participa bastante e talvez escreva durante o Pan”, explica Ricardo Cirillo, responsável pelo desenvolvimento das páginas dos atletas.
Outra companhia de telecomunicação patrocinadora oficial da competição diz que “vai respeitar a decisão do COB”. Em seguida, a assessoria acrescenta: “mas você sabe que os atletas estão proibidos apenas enquanto estiverem na Vila Pan-Americana, né?”
A regra do comitê vale enquanto o atleta fizer parte da delegação, período em que as páginas não poderão ser atualizadas por ninguém. Nem mesmo os sites que pertencem às empresas parceiras do evento terão tratamento especial. Quem a desobedecer, pode até mesmo perder a credencial que dá acesso às instalações do Pan.
Segundo a assessoria de imprensa do COB, um documento com informações sobre o assunto foi enviado para cada confederação. “Cabe às confederações informarem os seus atletas”, afirma.
| VÔLEI, O MAIS BLOGADO |
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 Fotolog do levantador Ricardinho tem fotos dele na intimidade com sua família |
O vôlei é disparado o esporte com o maior número de blog feito por fãs. Ninguém é esquecido. Há páginas dedicadas à equipe, a cada titular, os reservas, aos que já passaram pela seleção, aos que ainda sonham entrar para o grupo, aos que são irmãos, às integrantes do time feminino.
A idolatria começa com o jogador, mas logo se estende à família. Em muitos casos, é a mulher do atleta que faz o meio-de-campo com a fã, fornece fotos para serem postadas e até cobra mais atenção do marido para suas admiradoras. “Eu até digo para o Dante cuidar melhor, ficar mais atento, porque elas se preocupam em fazer tudo direitinho”, diz Sibele, casada com o ponteiro da seleção.
Ela afirma que não há motivos para ciúmes. “Elas respeitam. Sabem que tem o Giba, mas que atrás tem também a Pirv e a Nicoll”, exemplifica, citando o jogador mais assediado do time. Uma das páginas dedicadas ao “muso” foi criada por Larisse Vieira, 18. Ela diz que começou a “gostar mais do Giba” nas Olimpíadas de 2004. “Gosto de todos, mas dele é mais. Gosto muito da história de vida dele”, confessa.
Quando encontrou o jogador pessoalmente pela primeira vez, em Belo Horizonte, o problema foi na hora de tirar fotos do atleta. “Elas não ficaram boas, porque eu tremi muito. Estava nervosa”, lembra.
Por conta da aprovação da família, muitos blogs vêm com a informação de que são oficiais, mesmo sendo alimentados por fãs. Elas criam uma rede na qual uma comenta os “posts” da outra. Cuidadosas, as garotas garimpam informações em sites nacionais e internacionais, além fazerem montagens com fotos, enfeitando com corações.
As fotos não se limitam às quadras, mas flagram momentos de lazer da família em viagens, em casa, em festas (inclusive de casamento). Para descrever o sentimento pelo ídolo, as palavras mais comuns são "fofo", "lindinho" e "gracinha". Há também mensagens de feliz aniversário e de boa sorte antes dos jogos. Mas alguns comentários exageram. Em um dos textos, uma fã queria saber das outras se era “normal” sonhar todos os dias com a família do jogador. |
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CARTOLAS VERSUS NOTÍCIA ONLINE |
A assessoria informa ainda que a medida segue a “política adotada pela Organização Desportiva Pan-Americana (Odepa) em sintonia com o Comitê Olímpico Internacional (COI). Portanto, não apenas o Brasil, mas todos os 42 países participantes do evento devem cumprir a determinação.
Mesmo sem saber da proibição, os atletas brasileiros são unânimes em um ponto: a ineficácia da medida. Para os atletas, será impossível controlar a divulgação de imagens, uma das principais preocupações do comitê olímpico. Principalmente em sites pessoais que não pertencem aos atletas.
“O COB vai tentar algo impossível. Não vai conseguir controlar”, prevê Ricardinho, da seleção brasileira de vôlei. Ele lembra que qualquer pessoa poderá tirar uma foto da competição e colocar em um blog. “Isso é uma coisa que tem que acontecer normalmente. Eu curto bastante e por isso, acho que a proibição não tem sentido”, completa. O levantador tem um fotoblog que é alimentado por sua mulher, Fabiane. “Eu fico meio pro fora, vejo mais o que ela me mostra”, diz.
Sibele, mulher do ponteiro Dante, companheiro de Ricardinho na seleção, também apóia uma página dedicada ao jogador. Ela também não sabia da determinação do COB, mas acredita que as fotos postadas pelas fãs “não vão atrapalhar em nada”. “A Lili, uma fã do Dante, começou a página e eu achei legal. Durante o Pan, ela pode estar postando fotos com meu total consentimento”, afirma. “Minha intenção não tem nada a ver com isso”, comenta sobre a preocupação com a divulgação de imagens feitas por não-credenciados.
Larisse Vieira, que tem um blog dedicado ao atacante Giba, lamenta a decisão que impede os jogadores de postarem. “Não acho legal. Se tivessem um fotoblog, eles ficariam mais perto dos fãs. Seria muito bom para chamar a atenção da torcida, daria mais vontade de ir ver os jogos de vôlei”, acredita. “Principalmente porque o site do comitê daqui é muito ruim.”
A estudante de 18 anos, que mora em Minas Gerais, tem uma amiga no Rio de Janeiro que irá hospedá-la durante o Pan. A idéia é comprar ingressos para o maior número possível de jogos de vôlei. “Aí é que eu vou colocar mais fotos mesmo”, promete a fã, que diz ter mais de quatro mil imagens de seu ídolo.
Quem tem perfil no site de relacionamento Orkut, também não está livre da proibição. O veto do COB, neste caso, é para fotos pessoais com imagens ligadas aos Jogos. Muitos atletas que estarão no Pan têm página pessoal, como a judoca Priscila Marques, que diz entrar periodicamente em seu perfil, e Leandro Guilheiro, que anda um pouco afastado, mas quer voltar. “Estou meio parado. Tenho que voltar porque é legal. Muita gente me reconhece e quer trocar experiências", diz o atleta, que está ciente da determinação do COB.
Como sua colega judoca Danielle Zangrando, que tem uma coluna virtual no site de uma afiliada da Rede Globo em Santos, no litoral paulista. “Eu vou interromper o blog durante o Pan”, avisa, sobre seu já desatualizado espaço, que teve o último texto publicado em meados de março.
*colaborou Antoine Morel