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13/03/2007 - 09h00

Cuba e EUA estréiam rivalidade em São Paulo

Antoine Morel
Em São Paulo

O bairro paulistano do Bom Retiro se transformou no palco do primeiro embate de uma rivalidade esportiva que marcaria o continente. "Cuba esmagou os EUA no basebol: 13 x 1", estampou o jornal Última Hora em 22 de abril de 1963.

O comitê organizador do Pan tentava a todo custo amenizar o clima, enquanto o público fazia papel contrário, torcendo claramente para os cubanos. Os países de Fidel Castro e John Kennedy estavam com relações diplomáticas cortadas desde dois anos antes, quando os norte-americanos financiaram refugiados cubanos na tentativa frustrada de contra-revolução, que ficou conhecida como a invasão da baía dos Porcos.

A partida de beisebol em São Paulo marcou o primeiro encontro esportivo após esse evento e a crise dos mísseis (em outubro de 1962, a União Soviética mandou ogivas nucleares para a ilha do Caribe, o que irritou os Estados Unidos).

Reprodução
Torcedores se aglomeram para assistir às partidas de beisebol do Pan de São Paulo
O alinhamento de Cuba com a União Soviética, inimiga número um dos Estados Unidos, deram o tempero para os repórteres correrem atrás das delegações dos dois países e relatarem as mínimas ações de cada atleta. A Guerra Fria estava em pauta no Pan de São Paulo.

O jornal Última Hora relatava que “do lado brasileiro há muito esforço no sentido de aproximar Cuba e EUA”. Já entre os curiosos no pequeno estádio do Bom Retiro estavam muitos estudantes de esquerda, que sabiam muito de política, mas pouco de beisebol – o locutor tinha que explicar quando saia um ponto para o público festejar. O Brasil vivia o governo de João Goulart, com medidas sociais que desagradaram tanto os setores conservadores que o presidente foi deposto no ano seguinte.

“Cuba tinha simpatia dos torcedores”, afirma Samir Abujamra, jogador da seleção brasileira naquele Pan. Os cubanos, desde que desembarcaram no país, sentiram o clima favorável. Tanto que, na cerimônia de abertura, levaram uma bandeira brasileira ao lado da cubana. A torcida paulistana não precisava ajudar o time de beisebol cubano. O bom nível técnico era notável.

“Eles tinham uma equipe fortíssima. A diferença era muito grande. A rebatida deles era impressionante”, confirma Abujamra, ex-terceira base que enfrentou os caribenhos. O Brasil terminou na melhor posição da equipe até então na história: um quarto lugar. A medalha de bronze escapou, mesmo vencendo os EUA por 4 a 3, pois os brasileiros tropeçaram diante do México. Contra Cuba, não teve jeito: levaram 16 a 1.

Nos livros norte-americanos, a história é contada de outra forma. Steven Olderr, autor de “The Pan American Games - A Statistical History”, afirma que a torcida brasileira vaiou e fez coro de “profissionais, profissionais” para os cubanos após a vitória sobre a equipe anfitriã. A versão não é confirmada pela equipe brasileira.

Quem se irritou mesmo com a supremacia cubana foi a equipe dos EUA. Chegou a tal ponto que os norte-americanos se recusaram a receber a medalha de prata na competição. Embarcaram de volta dias antes do pódio. Coube ao jornalista Bob Carrel, que cobria o Pan, subir ao pódio e receber a medalha. Constrangido, o norte-americano usou da diplomacia no discurso para acalmar a inflamada torcida que vaiava o acontecimento.

AFP
Fidel Castro (d) promoveu o beisebol e tornou-o esporte oficial do governo cubano
À época, a intenção de Fidel Castro era justamente transformar seu país em uma potência esportiva, o que só aconteceria na década de 70. A vitória no Pan sobre os inventores do beisebol foi a primeira travessura da ilha socialista. O líder cubano, um ex-arremessador nos tempos de faculdade, cogitou até em priorizar o futebol para tentar desviar os cubanos do “esporte ianque”. Sem sucesso. Pelas pressões, Fidel cedeu e logo, em 1961, investiu e já fez grandes mudanças. A primeira foi acabar com o profissionalismo. O campeonato de 1962 foi o primeiro da nova liga amadora. A transformação se notou no ano seguinte, em São Paulo, no primeiro teste internacional dos cubanos.

Portanto, os cubanos em São Paulo não eram profissionais, mas tinham sido até dois anos antes. A partir daquele Pan, porém, Cuba dominaria o esporte dos bastões. Ganhou todos os ouros, exceção feita a Winnipeg-1967. Em Olimpíada, venceu três ouros nas quatro edições em que a modalidade foi realizada (Sydney-2000 viu uma vitória norte-americana).

Por acaso, aquele campo em forma de diamante à beira do rio Tietê, que só tinha visto até ali partidas da comunidade japonesa, entrou para a história inaugurando a rivalidade esportiva entre Cuba e EUA. No Pan do Rio, em a partir de julho, escreve-se nova página dessa rixa.