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14/03/2007 - 09h00

Spitz emerge no Pan para surpreender o mundo

Renan Prates
Em São Paulo

Na equipe brasileira de natação, o assunto era ele. Apesar dos 17 anos de idade, o norte-americano chegou às piscinas de Winnipeg com a previsão de que ganharia tudo. "Ele chegou com o cartaz de que poderia vencer qualquer prova. Realmente ele era o melhor, e nós brigamos apenas para chegar em segundo ou terceiro", conta João Costa, apelidado de Nikita, que nadou ao lado, mas acabou em quinto nos 200 m borboleta, vencida por Mark Spitz.

Maior nadador de todos os tempos, o californiano Spitz se apresentou ao mundo naquele Pan de 1967, com três recordes mundiais e mais dois ouros. Total de cinco vitórias: 100 e 200 metros borboleta, revezamento 4x100 m e 4x200 m livre, além dos 4x100 m medley.

Companheiro de Nikita na equipe verde-amarela dos 4x100 m medley, Waldyr Mendes Ramos se impressionou ao testemunhar o surgimento da lenda das raias: "Spitz tinha uma técnica somente sua, que não fazia estardalhaço. E, ao contrário dos nadadores de hoje, não era alto, mas compensava com velocidade".

DUELO DE GERAÇÕES
Reuters
Spitz (esq) e Phelps se abraçam na seletiva dos EUA para a Olimpíada de Atenas-04
Assim como Mark Spitz, o nadador norte-americano Michael Phelps também teve uma ascensão meteórica, credenciando-se como um dos melhores de todos os tempos. Em Atenas-2004, Phelps, que nunca chegou a disputar um Pan-Americano por ter sido alçado diretamente para a equipe principal, atingiu a marca de oito medalhas olímpicas, sendo seis de ouro e duas de bronze. Seu feito foi digno de nota (ele e o ginasta Alexander Dityatin foram os únicos a conquistar oito medalhas em uma só Olimpíada), porém ele não conseguiu superar seu antecessor (Spitz conquistou sete medalhas de ouro em Munique-1972). Phelps disputou oito provas, e tinha chances de medalha em todas elas. Se vencesse todas, bateria o recorde de Spitz.
A fama de arrogante e esnobe ainda não tinha se fixado nele, e o novato se mostrava simpático com os rivais. "Ele nos cumprimentou antes e depois da prova, quando ganhamos o bronze", revela Nikita.

Apesar das credenciais conseguidas em Winnipeg, Spitz não repetiu o brilho na Olimpíada do ano seguinte, na Cidade do México. A "grande promessa" terminou levando ouro apenas em dois revezamentos. O tropeço olímpico serviu de motivação para quatro anos duros de treinamento até Munique-1972, quando teve uma performance digna de lenda. Spitz conquistou sete medalhas de ouro nas provas que disputou, tendo batido o recorde mundial em todas elas -façanha inédita até hoje.

Como tudo na vida de Spitz, a aposentadoria das piscinas foi precoce, aos 22 anos, logo após a Olimpíada na Alemanha. Nem bem aprendeu a andar, o norte-americano também deu as suas primeiras braçadas, aos dois anos de idade, no Havaí. Com seis anos, sua família regressou para a cidade de Sacramento, na Califórnia, e ele começou a competir numa piscina de uma universidade local.

Aos nove, o pequeno nadador enfrentou um dilema. Suas aulas de natação estavam conflitando com as de hebraico, obrigação que tinha com sua família, de origem judaica. Foi quando seu pai tomou a decisão e comunicou ao rabino que o filho iria parar de ter as aulas. "Até Deus gosta dos vencedores", justificou o progenitor.

Spitz encabeça a lista de revelações surgidas nos Jogos Pan-Americanos. Nomes não faltam. Pelo Brasil, Adhemar Ferreira da Silva, João do Pulo, Gerson, Jairzinho, Daiane dos Santos, Guga e Popó fizeram do Pan sua estréia para a fama. Pelos EUA, Michael Jordan, Greg Louganis e Carl Lewis são só três exemplos. A tal "Olimpíada das Américas" tem, em geral, um nível técnico baixo, mas se transformou em celeiro para futuras estrelas mundiais. Na natação, a América Latina coloca seus melhores atletas na piscina, enquanto EUA e Canadá escalam suas equipes "B", reforçada por algumas promessas. Essa situação cria uma rivalidade nas raias, mas a balança sempre pende para os países anglo-saxões.

Na história do Pan, os EUA só perderam a primazia das piscinas na mesma Winnipeg, mas na edição do ano 1999, quando o Canadá colocou sua equipe principal frente ao time reserva dos vizinhos. Em 1967, os canadenses, mesmo sendo anfitriões, não tiveram chance diante dos EUA com Mark Spitz. No masculino, os donos da casa ganharam apenas uma medalha de ouro, ficando atrás até do Brasil, que venceu duas provas (ambas com Sylvio Fiolo). Os norte-americanos subiram ao topo do pódio nas outras 12 provas.