O Pan-Americano de 1971 foi para Cuba uma boa e uma má notícia. A ilha caribenha, que aderira ao socialismo na década anterior, se firmou como potência esportiva continental, superando marca de 100 medalhas e terminando na segunda posição geral, só atrás dos Estados Unidos. Por outro lado, começaram as deserções nas filas de Fidel Castro.
Foram seis abandonos durante o Pan colombiano, mas uma misteriosa morte na Vila Pan-Americana roubou a cena. No dia 8 de agosto, o massagista cubano Domingo Gómez, conhecido como “El Chino”, morreu ao cair de uma altura de cinco andares. Duas hipóteses foram aventadas: a de suicídio e a de uma tentativa de fuga frustrada da concentração.
Na época, o chefe da delegação de Cuba chamou a imprensa que cobria os Jogos e deu uma versão oficial para o fato. Segundo ele, o massagista se descuidou ao sentar para ler jornal na sacada e acabou caindo.
| SITUAÇÕES OPOSTAS |
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 Cubano Yukiorkis Gamboa ergue a bandeira de sua seleção ao levar o ouro na Grécia |
 Ao lado do ex-campeão mundial Sertão, Alex dos Santos sonha em chegar ao topo |
| Ouro em Atenas-2004, o cubano Yuriorkis Gamboa se profissionalizou neste ano, assim como Alex Santos. A "sutil" diferença é o valor do contrato: enquanto o cubano ganhará US$ 1 milhão anual, o brasileiro, que nem chegou a lutar em Pan e muito menos na Olimpíada, leva R$ 400 por luta |
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Desde esse Pan, as deserções viraram assunto obrigatório a cada evento esportivo. O destaque são sempre os cubanos, porque, além da questão financeira, entra em jogo o pano de fundo político. Em Winnipeg-1999, três peruanos pediram asilo no Canadá, mas esse fato ficou em segundo plano diante dos 13 desertores cubanos.
O jornal local
The Winnipeg Sun lançou um ''bolão'', prometendo premiar, com uma viagem à ilha caribenha, um leitor que acertasse o número de deserções cubanas até o final do Pan. O último abandono pareceu uma cena de filme: o jogador de basquete Juan “Helicóptero” Vazquéz driblou a segurança e fugiu em uma caminhonete do grupo anticastrista Fundação Nacional Cubano-Americana. A situação irritou muito Fidel, ainda mais que ele havia dedicado um discurso sobre o assunto antes da competição: “Os Jogos são uma disputa que não se restringe ao campo esportivo. Por isso, faço um apelo: que ninguém se deixe levar pela tentação.”
Entre 1991 e 2006, cerca de 90 cubanos preferiram a "tentação" ao patriotismo. Mas a opção pelo profissionalismo e a imigração não é exclusividade deles. No basquete, vários jogadores de Brasil e Argentina deixaram de competir por obrigação com franquias da NBA. No futebol, muitos jovens craques sul-americanos foram barrados por clubes da milionária Europa. A CBBoxe (Confederação Brasileira de Boxe) chegou a confeccionar um contrato “anti-deserção” para evitar que os destaques da seleção brasileira amadora migrasse para os ringues profissionais e abandonassem competições como o Pan e a Olimpíada.
Também as deserções políticas não foram privilégios apenas de cubanos. No Pan de 1975, vários chilenos preferiram ficar no México a voltar para o regime do ditador Augusto Pinochet. Os dólares, porém, são quem fala mais alto. A questão ideológica só serve para conseguir o visto norte-americano. “São jovens em busca de liberdade e democracia”, é o argumento da advogada Meredith Brown, especializada em obter o “greencard” para os cubanos, usa nos tribunais dos EUA.
| HERÓIS OU TRAIDORES? |
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Após a Revolução Cubana de 1959, a ilha vizinha aos EUA se aliou ao bloco socialista liderado pela União Soviética. O mundo vivia a Guerra Fria com americanos e soviéticos em uma corrida armamentista.
Seguindo a URSS, Cuba utilizou o esporte como peça publicitária do regime. O resultado apareceu na década de 70 nos Jogos Pan-Americanos e na Olimpíada. Dentro da ilha, os medalhistas são tratados como uma casta, com alimentação e habitação bem melhores que a média da população. Mesmo assim, o padrão de vida no exterior e a possibilidade de enriquecer fazem alguns esportistas abandonarem a posição de “heróis da revolução” pelos dólares do esporte capitalista. |
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O peso-mosca Yuriorkis Gamboa trocou o papel de “herói da revolução” por um contrato de US$ 1 milhão e não duvidou em leiloar seu ouro na Olimpíada de Atenas para bancar a festa de aniversário de sua filha de dois anos. “Eu quis estar preparado para poder dar a ela a festa que ela merece como a filha de um campeão”, declarou o atleta em entrevista recente ao jornal
Herald Tribune.
Com a queda do bloco socialista na última década, Cuba transformou o esporte em produto de exportação, mandando técnicos para outros países latino-americanos com a regra de eles destinarem 75% de seus rendimentos para a empresa Cubadeporte. Muitos desses “exportados” acabaram ficando nos países de destino. É o exemplo de Otílio Toledo, diretor-técnico da Confederação Brasileira de Boxe. No caso dele, além de ficar com o total do salário, o casamento com a brasileira Rosali motivou a troca de país.
Nos Jogos Pan-Americanos de 2007, o assunto deve voltar à tona, com alguns empresários rondando a Vila Pan-Americana atrás dos astros cubanos. Mas também estarão escalados alguns agentes infiltrados na delegação da ilha para evitar fugas. Só basta saber se algum jornal irá fazer o bolão da deserção.