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16/03/2007 - 09h03

Federação e filha ignoram paradeiro de medalhas

Renan Prates
Em São Paulo

Um acidente de carro acabou com sua carreira em 1981. Uma cirrose hepática deu fim a sua vida em 1999. A figura de João Carlos de Oliveira, porém, segue o tom dramático até agora: suas medalhas (entre elas, quatro ouros pan-americanos e dois bronzes olímpicos) estão desaparecidas.

Tanto os dirigentes do atletismo quanto a filha do saltador, Thaís, afirmam não saber o destino dos prêmios daquele atleta que surpreendeu o mundo em 1975, ao superar em 45cm o recorde mundial do salto triplo. O feito foi tão retumbante que o aparelho eletrônico presente no estádio mexicano não conseguir medir o pulo – seu alcance ia até 17,50m, e o brasileiro atingiu 17,89m.

FIM PRECOCE AOS 27 ANOS
Arquivo Folha
Na saída do hospital, o ex-atleta foi recepcionado por Paulo Maluf (à esq.)
No dia 22 de dezembro de 1981, João do Pulo voltava pela via Anhanguera de uma cerimônia de formatura na qual ele havia sido homenageado como paraninfo quando o seu carro, um Passat, foi atingido em cheio por uma Variant que vinha na contramão. João sofreu, dentre outras coisas, fratura exposta da tíbia e do perôneo da perna direita, além de escoriações na mesma perna. O atleta teve que fazer 22 cirurgias, e colocar uma prótese, o que o obrigou a encerrar sua carreira de maneira precoce, aos 27 anos.
Thaís, que herdou o patrimônio (um sobrado de quatro quartos) e as dívidas (uma coleção de empreendimentos mal-sucedidos), revela que nos dias posteriores à morte de João do Pulo, vários familiares pegaram tudo o que tinha na casa. "Pegaram medalhas, troféus, aparelhos de musculação. Foi tudo na mão grande, sem nos dar nenhuma satisfação", afirma.

A filha, que adotou o apelido do pai (se auto-intitula "Thaís do Pulo"), diz desconfiar onde estão as medalhas de João, mas prefere não revelar por temer que o outro lado da família (com o qual ela diz não querer ter nenhum contato) as esconda outra vez.

"Estou esperando sair o inventário da herança para resgatar o que era do meu pai", diz. A intenção de Thaís, atualmente com 19 anos, é doar as medalhas para um museu da modalidade, projeto da Federação Paulista de Atletismo. Ela, contudo, teme que as medalhas tenham sido vendidas. "Corro esse risco", afirmou.

No bairro da Ponte Grande, em Guarulhos, onde o garoto de Pindamonhangaba viveu no final de sua vida, cada morador tem uma história dele para contar, mostrando a dimensão dos feitos do orgulho local. Mesmo com um final de vida melancólico (deprimido e desiludido com a perda do terceiro mandato para deputado estadual, ele se entregou à solidão e à bebida, saindo de sua casa só para tomar cerveja no boteco das redondezas), fica na lembrança dos amigos o cara simples, que não deixava ninguém na mão.

Mas a dimensão também é relevada pelos números. Seu recorde mundial no Pan demorou dez anos para ser quebrado (o norte-americano Willie Banks saltou 17,97 m, em 1985). Além disso, 32 anos depois da façanha, João ainda figura em 7º na lista dos dez maiores saltos da história.

DA DITADURA À DEMOCRACIA
Arquivo Folha
Fardado como sargento, João do Pulo é recebido pelo presidente Ernesto Geisel
Arquivo Folha
João do Pulo saúda a platéia durante cerimônia na Assembléia Legislativa
Filiado ao PFL, João do Pulo exerceu dois mandatos consecutivos como deputado estadual, ficando na Assembléia paulista até o final de 1994. O ex-atleta, que tinha como mote o slogan “com esporte no coração”, defendia a bandeira da utilização do esporte como forma de inclusão social. Sua bandeira de combater o vício pelo esporte contrastava com seu estilo de vida, em um total contrasenso. "João foi vítima de algo que ele próprio combatia. Sua inocência fez com que ele não conseguisse fazer muita coisa como deputado", afirma Antônio Veronezzi, diretor da Universidade de Guarulhos, que ajudou nas campanhas do atleta.
Seus feitos só fizeram alimentar a esperança dos torcedores brasileiros por saltos ainda melhores, já que o país fez escola no salto triplo com Adhemar Ferreira da Silva e Nélson Prudêncio. Apesar de saltar longe do recorde, João do Pulo colecionou um bronze nos Jogos Olímpicos de Montreal-76 e dois ouros no Pan de San Juan-79 até chegar no que seria a mais controversa das competições em que ele participou: a Olimpíada de Moscou, em 1980.

Favorito à medalha de ouro, João do Pulo teve 9 dos seus 12 saltos com largada queimada durante a competição. Um desses saltos foi acima dos 18 metros, o que lhe daria um recorde ainda maior. Por isso, ficou em terceiro, saltando 17,22 m. O brasileiro ficou atrás dos soviéticos Jack Udmae (17,35 m) e Vickor Saneyev (17,24 m) – este último admitiu que os juízes forjaram a anulação dos pulos de João. O recorde atual do salto do triplo é 18,29m, do britânico Jonathan Edwards.

João do Pulo, que tinha a patente de sargento, cansou de ser homenageado pelo governo militar. Ele próprio foi um herói de um tempo em que a América Latina estava dominada por ditaduras.

Em suas voltas triunfais, teve encontros com os presidente Ernesto Geisel e João Figueiredo. Também foi muito próximo do então governador paulista, Paulo Maluf, que o recebeu várias vezes seja após os feitos e do acidente automobilístico. Dessa proximidade com o poder surgiu o convite para ingressar na política. Mas o triplista tropeçou em seu terceiro salto como deputado estadual em São Paulo. A política foi uma tábua de salvação após a carreira interrompida, mas com curta duração.