UOL Esporte - Pan 2007
UOL BUSCA
1979

Arte UOL

19/03/2007 - 09h03

Porto Rico vê astros barrados na era dos boicotes

Antoine Morel
Em São Paulo

O mito Carl Lewis, nove ouros olímpicos, podia ter começado sua trajetória já na Olimpíada de Moscou, em 1980. Em San Juan, um ano antes, com seus 17 anos, ele estava disputando o Pan-Americano para ganhar experiência e uma possível medalha. O bronze veio no salto em distância, atrás do brasileiro João do Pulo. Os 8,13m conseguidos pelo norte-americano o colocariam na disputa do bronze olímpico.

A ordem de boicotar os Jogos Olímpicos da rival União Soviética tiraram o sonho e a promessa de medalhas não só de Lewis, mas de toda uma geração que usou o Pan-Americano de San Juan como um grande teste. A “Geração Perdida”, como são conhecidas as promessas que não participaram de 1980, tinha um futuro brilhante no Pan do Porto Rico.

Ao todo, foram 69 países que decidiram não participar do evento soviético cedendo à pressão do presidente Jimmy Carter. Na América, foram 13 deles. Argentina, Chile e Canadá, potências esportivas no continente, também apoiaram os norte-americanos. Tudo isso por conta da invasão dos soviéticos ao Afeganistão em dezembro de 1979.

CAMINHOS DIFERENTES
Reuters
Mesmo sem ir a Moscou, o norte-americano Greg Louganis foi bicampeão olímpico
Os norte-americanos Greg Louganis e Barbara Weinstein, ambos do salto ornamental, foram prejudicados pelo boicote olímpico em 1980. Com dois ouros em San Juan, Louganis perderia a chance de medalha em Moscou. Porém, aos 24 anos, mostrou que uma Olimpíada a menos não fez falta: foram dois primeiros lugares em Los Angeles, em 1984. Em Seul, quatro anos mais tarde, o saltador levou mais duas medalhas douradas.

Barbara Weinstein, que venceu na plataforma dos 10m em Porto Rico, não teve a mesma sorte e o mesmo destino. Foi impedida de disputar as Olimpíadas e nunca mais voltou ao esporte. Em 1980, ela tinha 20 anos e tentava pela terceira vez chegar aos Jogos Olímpicos. Ir para Los Angeles não era mais uma opção. Barbara decidiu se casar e parar de competir. Antes, porém, teve que passar pela cerimônia em que o presidente norte-americano Jimmy Carter distribuiu medalhas para os atletas que iriam a Moscou. Ela só foi porque seu pai, presidente da federação de saltos, teve que comparecer ao evento.
O norte-americano Brian Goodell, um dos mais brilhantes fundistas na natação, é um exemplo de um talento desperdiçado. Em Montreal, em 1976, ele já havia ganhado dois ouros nos 400m e 1500m. No Pan, ficou em primeiro nas mesmas duas provas. Nesta época, com 20 anos, já era recordista mundial. O brasileiro Djan Madruga, prata nas mesmas provas, diz que o objetivo era batê-lo. “Quem ganhasse medalha no Pan-Americano, tinha grandes chances de uma medalha olímpica”, afirma o ex-nadador.

Goodell se aposentou aos 22 anos das piscinas com apenas duas medalhas olímpicas. “Eu realizei tudo o que queria já”, disse à época. O vácuo nas Olimpíadas foi ocupado pelo russo Vladimir Salnikov, que venceu as duas provas e baixou o recorde mundial em quase um segundo. “Salnikov foi perfeito. Ele ganharia de Goodell”, aposta Madruga.

O brasileiro nos 4x200 m olímpico também foi beneficiado pela ausência de Goodell. No Pan, os EUA, com ele no conjunto, ficaram com o ouro na prova. Em Moscou, o Brasil conseguiu o bronze, atrás de URSS e Alemanha Oriental. “Claro que foi mais fácil. Temos de levar em conta que, no Pan de 79, os EUA levaram os melhores nadadores: Brian Goodell, campeão olímpico, Bob Hackett, vice-campeão olímpico”, afirma o ex-nadador, mostrando que o nível da natação em San Juan era alto.

Goodell não foi o único da natação a ter o sonho perdido. Cynthia “Sippy” Woodhead tinha chances grandes de uma medalha olímpica em Moscou. No Pan, ela foi o maior destaque da equipe norte-americana da natação. Foram cinco ouros: 100m livre, 200m livre, 400m livre, 4x100m livre e 4x100 medley.
Sippy foi a primeira mulher a nadar abaixo de 1min59s nos 200m. Foram três recordes mundiais antes das Olimpíadas. Aos 16 anos, estava classificada para seis provas em Moscou. O fim do sonho teve sérias conseqüências neste caso. Após decidir que iria visar os Jogos de Los Angeles, ela sofreu com um pé quebrado em 1981 e uma grave pneumonia no ano seguinte. “Era muito para uma adolescente. Eu penso que o boicote pode ter provocado meus problemas de saúde”, disse Sippy.

Não só os norte-americanos, líderes do boicote, tiveram a desilusão do sonho do ouro do Pan se transformar em medalha nas Olimpíadas. Ouro no skiff do remo em 1979, o argentino Ricardo Ibarra era a única esperança de medalha do país nos Jogos do ano seguinte. O domínio dos militares no governo e o alinhamento com as políticas norte-americanas tiraram do remador o sonho de disputar por uma medalha olímpica.

BOICOTES MARCAM ANOS 70 E 80
A virada da década de 1970 para os 1980 ficou marcada pelos boicotes de eventos esportivos por motivos politicos.

O primeiro deles aconteceu em 1976, nas Olimpíadas de Montreal. Um total de 26 nações africanas se recusaram a participar do evento para protestar contra o sistema de apartheid da África do Sul. Quatro anos mais tarde, em 1980, o Afeganistão em guerra seria o motivo para o boicote norte-americano e de mais 68 países. Em Los Angeles-1984, os soviéticos deram o troco.

No Pan-Americano de 1987, Cuba quase criou a mesma situação. Em reclamação contra a escolha da sede de Indianápolis, depois do Chile desistir, os cubanos ameaçaram não ir aos EUA. Houve acusação de suborno para conseguir a sede. Tudo foi resolvido quando os organizadores decidiram que Havana sediaria o Pan de 1991.
O mesmo aconteceu com os chilenos, sob o poder de Augusto Pinochet, de levar a equipe de ciclismo a Moscou. O Pan de 79 foi um dos piores em termos de medalha para o país. Apenas um ouro, na perseguição por equipe. Richard Thormen, Fernando Vera, Sergio Aliste e Roberto Muñoz foram os heróis em Porto Rico.

Pelo Canadá, Angela Taylor foi uma das que tiveram o sonho olímpico cortado. Ao saber do boicote do país, um dos últimos a aderir, ela acreditava que seria uma lição para os russos. “Mesmo não indo, eu concordo com o boicote. Vamos mostrar aos russos”. Em Porto Rico, ela foi prata nos 200m no atletismo. A medalha de ouro naquela prova também sofreria perdas.

A norte-americana Evelyn Ashford, ouro, tinha vencido já os 100m e era a primeira no ranking de atletismo na época. Com seu resultado no Pan, os 11s07, ela seria prata. Aos 23 anos, ela se achava muito velha para competir em 1984. Engano. Em Los Angeles, o ouro foi dela.

O Pan de 1979 acabou se transformando em vitrine privilegiada dessa “Geração Perdida” de atletas, seja como cenário de despedidas esportivas ou surgimento de astros. Os resultados nas piscinas, pistas e quadras de Pan de San Juan podiam tirar muitas medalhas do peito de soviéticos e alemães orientais no ano seguinte.