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20/03/2007 - 09h00

Fuga e escândalo marcam estréia do antidoping

Alexandre Sinato
Em São Paulo

“Viemos, vimos e voltamos”, dizia o cartaz que imitava a bandeira do Comitê Olímpico dos EUA no alojamento do Pan de Caracas. A faixa irônica resumia a história dos 12 atletas norte-americanos que escaparam da Venezuela antes de competir no Pan de 1983 quando souberam que o exame antidoping funcionava mesmo.

No primeiro grande escândalo de antidoping no esporte mundial, o país mais poderoso do planeta pagou o preço por duvidar da então inédita realização dos testes.

Na edição anterior, em 1979, já estava previsto o início do controle de substâncias proibidas. No entanto, San Juan (Porto Rico), sede da competição, sofreu com a falta de um laboratório e de médicos especializados, impedindo a obrigatoriedade do controle.

Embora registre diversos casos em diferentes eventos, o Brasil nunca teve um atleta flagrado em exames antidoping de Jogos Olímpicos ou Pan-Americanos. A marca positiva, porém, tem dois episódios negativos envolvendo atletas femininas que influenciaram em Pans.

Elisângela Adriano festejava seu ouro no arremesso de disco em Winnipeg-1999 quando foi divulgado um doping seu em competição anterior. Apesar de suspensa, sua medalha no Pan persistiu, afinal, o exame no Canadá não apontou nada. Para Santo Domingo-2003, a flagrada foi Maureen Maggi, que pega em uma competição anterior, não pôde defender seu ouro de quatro anos antes no salto em distância.

BRASIL 'LIMPO'
Já em 1983, os fujões dos EUA (e outros 12 competidores de outros países) desistiram de disputar a competição, alegando “motivos particulares” no lugar do verdadeiro temor de serem pegos dopados.

“Os norte-americanos não aceitaram ou não acreditaram que o doping seria realizado. Então, nos entregaram 12 amostras de urina para dizermos o que continha nelas. Quando dissemos o que havia em cada uma, eles decidiram não competir. Das 12, 11 deram resultados positivos”, recorda Eduardo Henrique De Rose, que preside as entidades antidoping do Conselho Nacional de Esporte e do COI (Comitê Olímpico Internacional).

O número de desistências só não aumentou porque Michael Scott Tully, que seguia o mesmo caminho de seus compatriotas, desistiu de voltar para os Estados Unidos. Ele encarou os então novos exames criados para detectar a presença de esteróides anabólicos, provou “estar limpo” e faturou a medalha de ouro no salto com vara, feito que repetiria no Pan seguinte, em Indianápolis-1987.

A imagem da equipe norte-americana, porém, já estava manchada. “As decisões dos atletas são individuais e não devem ser interpretadas como se eles estivessem assumindo alguma culpa”, disse à época Evie Dennis, chefe da delegação dos Estados Unidos, tentando disfarçar o óbvio.

No entanto, dentro do próprio time norte-americano existiam acusações contra os dopados. Um dos remanescentes na Venezuela, Curt Ransford, do arremesso de dardo, afirmou que era evidente que seus companheiros usavam esteróides. “Eu sabia que chegaria o dia em que ninguém poderia se esconder dos testes”, criticou.

CASOS DE DOPING
San Juan19791
Caracas198319
Indianápolis19877
Havana19915
Mar del Plata19954
Winnipeg199911
Santo Domingo20039
Cidade-sedeAnoCasos
Fora os que não competiram, outros 19 atletas de diferentes nacionalidades foram flagrados usando substâncias proibidas (a maioria delas anabolizantes), número mais que expressivo para a época. “Havia atletas que não podiam mais simplesmente sair dos Jogos. Além disso, nunca havia ocorrido tal controle, então ocorreu esse número elevado de casos”, explica De Rose. O fato transformou os Jogos de 1983 no primeiro grande evento envolvendo doping e descoberto pelas autoridades. Dos 19 trapaceiros, dez haviam conquistado medalhas.

“O Pan de 83 foi a pedra fundamental do antidoping. Dele em diante se mudou totalmente a idéia de doping. Alguns pensavam que na América não havia isso, então a repercussão foi muito grande. Por exemplo, um dos atletas pegos foi [Daniel] Núñez, do levantamento de peso de Cuba”, comenta De Rose, referindo-se ao medalhista de ouro da Olimpíada de 1980.

O levantamento foi o esporte com mais casos, mas o atletismo, o ciclismo e até a esgrima também registraram episódios. Até hoje, o tema é tratado como uma perseguição de “gato e rato”: as entidades tornam os exames cada vez mais rigorosos, enquanto os atletas inovam nas maneiras de burlar as regras.

“É impossível passar à frente do doping, seria como fazer uma lei para um crime que não existe. No entanto, já há um progresso muito grande. Nos anos 70, demorávamos até cinco anos para criar exames para as novas substâncias. Hoje, levamos um mês”, conta o especialista brasileiro.

A evolução realmente é grande. Quase 14 anos depois de importar um laboratório da Alemanha para Caracas, surpreendendo os norte-americanos, De Rose usará a padrão olímpico nos Jogos do Rio de Janeiro.

A edição, inclusive, será marcada pela estréia em Pan do exame que identifica a presença da eritropoietina (EPO), hormônio renal que aumenta o número de glóbulos vermelhos e é usado em provas de resistência. Ainda em fase de elaboração, o teste do THG (hormônio de crescimento) segue fora do programa antidoping na luta contra as artimanhas químicas.