Ele não fez nenhum gol, ponto ou cesta. Também não correu, saltou ou nadou. Mesmo assim, cansou de aparecer em fotografias, ao lado de medalhistas com a bandeira do Brasil, tornando-se um dos membros com maior visibilidade da delegação brasileira em Santo Domingo. Hoje, quatro anos depois, está longe dos holofotes. E tenta a todo custo voltar à linha de frente do cenário político nacional.
Agnelo Queiroz foi da ribalta às sombras nos últimos quatro anos. Ex-ministro do Esporte, ele teve uma superexposição na mídia no Pan de 2003. Mas ao deixar o cargo para concorrer –e perder- a eleição para o Senado no ano passado, viu escapar a oportunidade de aumentar o seu cacife político durante a realização do Pan do Rio de Janeiro.
O Pan dominicano foi o primeiro grande evento de Agnelo Queiroz à frente do ministério. Alçado ao cargo no começo de 2003, o deputado federal do nanico PC do B já tinha o nome ligado às atividades esportivas. Médico formado pela Universidade Federal da Bahia, sempre usou o esporte como base de suas campanhas eleitorais. No Congresso, foi co-autor da Lei Piva, que destina 2% dos recursos das loterias para os comitês olímpico e paraolímpico. Participou também por oito anos da Comissão de Educação, Cultura e Desporto da Câmara dos Deputados.
| UM MINISTRO QUE VESTE A CAMISA |
|---|
 O ministro vestiu o uniforme da delegação e desfilou na cerimônia final do Pan-2003 |
De tanta proximidade com os atletas durante sua passagem no ministério, Agnelo Queiroz chegou a se confundir com um esportista. Na Copa América de 2004, logo após o Brasil vencer a Argentina na final de forma dramática (nos pênaltis, após Adriano empatar o jogo aos 48min do segundo tempo), Agnelo Queiroz foi ao palco e recebeu a medalha de ouro do zagueiro Luisão, que estava hospitalizado após fratura no rosto em um lance na partida.
A atitude do ministro rendeu o apelido de “medalhão”, dado pelos jogadores da seleção dirigida por Carlos Alberto Parreira.
Em 2003, o ministro se meteu em outra polêmica. Na festa em homenagem aos campeões mundiais de 1963, ele assinou uma camisa da seleção brasileira, colocando o nome ao lado de lendas da modalidade, como Amaury Passos e Wlamir Marques. |
|---|
|
Agnelo assumiu o ministério com o menor orçamento do primeiro ano do governo Lula. Em sua posse, estiveram presentes alguns atletas, como os nadadores Gustavo Borges e Fernando Scherer, o jogador de vôlei Giovane e o atual técnico da seleção brasileira de futebol, Dunga. Também compareceu o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arthur Nuzman.
A ligação tão estreita entre Agnelo e o COB provocou o primeiro grande constrangimento do ministro. A ex-jogadora de basquete Paula pediu exoneração do cargo que ocupava na Secretaria Nacional de Esporte de Alto Rendimento após revelar que o COB pagou sua hospedagem e a do ministro em Santo Domingo durante o Pan de 2003. Agnelo, que tinha a viagem bancada pelo ministério, reconheceu o erro e devolveu o dinheiro (pouco mais de R$ 11 mil) aos cofres da União 65 dias depois de ter contabilizado o depósito.
O incidente "queimou o filme" de Agnelo no ministério. Falou-se até em destituição, mas o comunista continuou no cargo –episódio similar arranhou a imagem da ministra de Ação Social, Benedita da Silva, que viajou a Buenos Aires às custas da União para acompanhar um culto evangélico.
No ano seguinte, outra viagem voltou a colocar o ministro na berlinda. Na Olimpíada de Atenas, Agnelo ficou hospedado em um luxuosíssimo navio ancorado no porto grego. Por quatro dias no maior transatlântico do mundo, a União gastou quase R$ 9 mil com a hospedagem. Um dos companheiros de Agnelo no navio foi o magnata da informática Bill Gates.
“Quais são as imagens mais fortes do Agnelo? A hospedagem no Queen Mary ao lado do Bill Gates, a imagem da medalha do Luisão e ele assinando as camisas dos campeões de basquete. Essas são as coisas que ficam”, afirma o jornalista Juca Kfouri, citando outros dois fatos insólitos envolvendo o ministro.
Apesar das trapalhadas fora do país, Agnelo angariou cada vez mais prestígio na cúpula do esporte brasileiro. Além de artífice da Lei Piva e garoto-propaganda do Pan carioca, o ministro também colocou em prática um projeto favorável ao esporte de alto rendimento: o bolsa-atleta, que desde 2005 já contemplou 1810 esportistas que não contam com patrocínio.
| SEMPRE NA FOTO |
|---|
 Na frente de Lula, Agnelo Queiroz abraça Nuzman, companheiro de várias cerimônias |
 Agnelo fala ao telefone na frente de navio em que se hospedou durante Atenas-2004 |
 Agnelo viajou até o Peru para seguir a final da Copa América de 2004 e festejar o título |
 Agnelo recebeu no gabinete de Brasília vários atletas, como o pugilista Popó |
“Ele foi muito atuante em um primeiro momento e conseguiu usar bem a mídia. O problema é que os projetos não tiveram seqüência”, afirma o cientista político Antônio Flávio Testa, doutor em sociologia do esporte e pesquisador da Universidade de Brasília. “Mas o Agnelo nunca trabalhou pelo esporte amador, sempre pelo esporte olímpico. Os projetos foram populistas e maniqueístas pelos recursos que foram colocados e pela incapacidade de dar seqüência”, completa.
Aproveitando a evidência de três anos à frente do Ministério do Esporte, Agnelo Queiroz tentou vôos mais altos. Em 2006, largou o cargo para concorrer ao Senado pelo Distrito Federal, com a esperança de que voltaria ao governo caso perdesse a disputa. Em seu lugar assumiu outro político do PC do B, Orlando Silva Júnior, ex-presidente da UNE.
Para Testa, Agnelo deveria ter permanecido no ministério. “Foi um erro tático porque ele achava que poderia ser o candidato das esquerdas, mas o PT acabou não o respaldando”, disse. Já o também cientista político José Paulo Martins Júnior, professor da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), defende a escolha de Agnelo. “Ele apostou alto e perdeu. Mas eu valorizo quem se arrisca desse jeito”, disse.
Apontado como azarão na disputa pelo Senado, Agnelo Queiroz teve uma votação expressiva: 43% dos votos. Mas isso foi insuficiente para evitar a vitória do ex-governador Joaquim Roriz, do PMDB.
A volta ao Ministério do Esporte parecia certa, mas o desempenho sóbrio de Orlando Silva, mais discreto nas aparições públicas ao lado de atletas e dirigentes, e a proximidade do Pan impediram o retorno de Agnelo ao cargo. “O Orlando Silva está concentrado no Pan. Nessa movimentação, ele está tendo uma visibilidade muito grande. Se o Pan for bem sucedido, ele vai ter um grande cacife”, analisa Testa.
“Não é uma diferença muito elogiosa, mas o Orlando não caiu de pára-quedas nessa área, ele sabe do que está falando. Eu o acho até mais perigoso que o próprio Agnelo porque tem um poder de persuasão muito maior. E o Agnelo não tem nenhum brilho”, completa Juca Kfouri.
Nas duas últimas semanas, a reportagem do
UOL Esporte tentou inúmeras vezes falar com Agnelo Queiroz. Em duas oportunidades, o ex-ministro atendeu ao telefone, mas não pôde conversar, alegando estar em reunião. Com a reforma ministerial prestes a ser concluída, ele ainda tenta nos bastidores as últimas cartadas para voltar ao Governo. Caso não tenha sucesso, vai ver de longe o seu camarada de partido aproveitar os holofotes do Pan.