UOL Esporte - Pan 2007
UOL BUSCA
2003

Arte UOL

27/03/2007 - 09h00

Superexposição 'queima filme' de Agnelo Queiroz

Lello Lopes
Em São Paulo

Ele não fez nenhum gol, ponto ou cesta. Também não correu, saltou ou nadou. Mesmo assim, cansou de aparecer em fotografias, ao lado de medalhistas com a bandeira do Brasil, tornando-se um dos membros com maior visibilidade da delegação brasileira em Santo Domingo. Hoje, quatro anos depois, está longe dos holofotes. E tenta a todo custo voltar à linha de frente do cenário político nacional.

Agnelo Queiroz foi da ribalta às sombras nos últimos quatro anos. Ex-ministro do Esporte, ele teve uma superexposição na mídia no Pan de 2003. Mas ao deixar o cargo para concorrer –e perder- a eleição para o Senado no ano passado, viu escapar a oportunidade de aumentar o seu cacife político durante a realização do Pan do Rio de Janeiro.

O Pan dominicano foi o primeiro grande evento de Agnelo Queiroz à frente do ministério. Alçado ao cargo no começo de 2003, o deputado federal do nanico PC do B já tinha o nome ligado às atividades esportivas. Médico formado pela Universidade Federal da Bahia, sempre usou o esporte como base de suas campanhas eleitorais. No Congresso, foi co-autor da Lei Piva, que destina 2% dos recursos das loterias para os comitês olímpico e paraolímpico. Participou também por oito anos da Comissão de Educação, Cultura e Desporto da Câmara dos Deputados.

UM MINISTRO QUE VESTE A CAMISA
COB/Divulgação
O ministro vestiu o uniforme da delegação e desfilou na cerimônia final do Pan-2003
De tanta proximidade com os atletas durante sua passagem no ministério, Agnelo Queiroz chegou a se confundir com um esportista. Na Copa América de 2004, logo após o Brasil vencer a Argentina na final de forma dramática (nos pênaltis, após Adriano empatar o jogo aos 48min do segundo tempo), Agnelo Queiroz foi ao palco e recebeu a medalha de ouro do zagueiro Luisão, que estava hospitalizado após fratura no rosto em um lance na partida.

A atitude do ministro rendeu o apelido de “medalhão”, dado pelos jogadores da seleção dirigida por Carlos Alberto Parreira.

Em 2003, o ministro se meteu em outra polêmica. Na festa em homenagem aos campeões mundiais de 1963, ele assinou uma camisa da seleção brasileira, colocando o nome ao lado de lendas da modalidade, como Amaury Passos e Wlamir Marques.
Agnelo assumiu o ministério com o menor orçamento do primeiro ano do governo Lula. Em sua posse, estiveram presentes alguns atletas, como os nadadores Gustavo Borges e Fernando Scherer, o jogador de vôlei Giovane e o atual técnico da seleção brasileira de futebol, Dunga. Também compareceu o presidente do Comitê Olímpico Brasileiro (COB), Carlos Arthur Nuzman.

A ligação tão estreita entre Agnelo e o COB provocou o primeiro grande constrangimento do ministro. A ex-jogadora de basquete Paula pediu exoneração do cargo que ocupava na Secretaria Nacional de Esporte de Alto Rendimento após revelar que o COB pagou sua hospedagem e a do ministro em Santo Domingo durante o Pan de 2003. Agnelo, que tinha a viagem bancada pelo ministério, reconheceu o erro e devolveu o dinheiro (pouco mais de R$ 11 mil) aos cofres da União 65 dias depois de ter contabilizado o depósito.

O incidente "queimou o filme" de Agnelo no ministério. Falou-se até em destituição, mas o comunista continuou no cargo –episódio similar arranhou a imagem da ministra de Ação Social, Benedita da Silva, que viajou a Buenos Aires às custas da União para acompanhar um culto evangélico.

No ano seguinte, outra viagem voltou a colocar o ministro na berlinda. Na Olimpíada de Atenas, Agnelo ficou hospedado em um luxuosíssimo navio ancorado no porto grego. Por quatro dias no maior transatlântico do mundo, a União gastou quase R$ 9 mil com a hospedagem. Um dos companheiros de Agnelo no navio foi o magnata da informática Bill Gates.

“Quais são as imagens mais fortes do Agnelo? A hospedagem no Queen Mary ao lado do Bill Gates, a imagem da medalha do Luisão e ele assinando as camisas dos campeões de basquete. Essas são as coisas que ficam”, afirma o jornalista Juca Kfouri, citando outros dois fatos insólitos envolvendo o ministro.

Apesar das trapalhadas fora do país, Agnelo angariou cada vez mais prestígio na cúpula do esporte brasileiro. Além de artífice da Lei Piva e garoto-propaganda do Pan carioca, o ministro também colocou em prática um projeto favorável ao esporte de alto rendimento: o bolsa-atleta, que desde 2005 já contemplou 1810 esportistas que não contam com patrocínio.

SEMPRE NA FOTO
Arquivo Folha
Na frente de Lula, Agnelo Queiroz abraça Nuzman, companheiro de várias cerimônias
Arquivo Folha
Agnelo fala ao telefone na frente de navio em que se hospedou durante Atenas-2004
Reuters
Agnelo viajou até o Peru para seguir a final da Copa América de 2004 e festejar o título
Arquivo Folha
Agnelo recebeu no gabinete de Brasília vários atletas, como o pugilista Popó
“Ele foi muito atuante em um primeiro momento e conseguiu usar bem a mídia. O problema é que os projetos não tiveram seqüência”, afirma o cientista político Antônio Flávio Testa, doutor em sociologia do esporte e pesquisador da Universidade de Brasília. “Mas o Agnelo nunca trabalhou pelo esporte amador, sempre pelo esporte olímpico. Os projetos foram populistas e maniqueístas pelos recursos que foram colocados e pela incapacidade de dar seqüência”, completa.

Aproveitando a evidência de três anos à frente do Ministério do Esporte, Agnelo Queiroz tentou vôos mais altos. Em 2006, largou o cargo para concorrer ao Senado pelo Distrito Federal, com a esperança de que voltaria ao governo caso perdesse a disputa. Em seu lugar assumiu outro político do PC do B, Orlando Silva Júnior, ex-presidente da UNE.

Para Testa, Agnelo deveria ter permanecido no ministério. “Foi um erro tático porque ele achava que poderia ser o candidato das esquerdas, mas o PT acabou não o respaldando”, disse. Já o também cientista político José Paulo Martins Júnior, professor da FESPSP (Fundação Escola de Sociologia e Política de São Paulo), defende a escolha de Agnelo. “Ele apostou alto e perdeu. Mas eu valorizo quem se arrisca desse jeito”, disse.

Apontado como azarão na disputa pelo Senado, Agnelo Queiroz teve uma votação expressiva: 43% dos votos. Mas isso foi insuficiente para evitar a vitória do ex-governador Joaquim Roriz, do PMDB.

A volta ao Ministério do Esporte parecia certa, mas o desempenho sóbrio de Orlando Silva, mais discreto nas aparições públicas ao lado de atletas e dirigentes, e a proximidade do Pan impediram o retorno de Agnelo ao cargo. “O Orlando Silva está concentrado no Pan. Nessa movimentação, ele está tendo uma visibilidade muito grande. Se o Pan for bem sucedido, ele vai ter um grande cacife”, analisa Testa.

“Não é uma diferença muito elogiosa, mas o Orlando não caiu de pára-quedas nessa área, ele sabe do que está falando. Eu o acho até mais perigoso que o próprio Agnelo porque tem um poder de persuasão muito maior. E o Agnelo não tem nenhum brilho”, completa Juca Kfouri.

Nas duas últimas semanas, a reportagem do UOL Esporte tentou inúmeras vezes falar com Agnelo Queiroz. Em duas oportunidades, o ex-ministro atendeu ao telefone, mas não pôde conversar, alegando estar em reunião. Com a reforma ministerial prestes a ser concluída, ele ainda tenta nos bastidores as últimas cartadas para voltar ao Governo. Caso não tenha sucesso, vai ver de longe o seu camarada de partido aproveitar os holofotes do Pan.