Ele é um dos integrantes da seleção brasileira de luta livre nos Jogos Pan-Americanos e está acostumado a levantar e derrubar brutamontes de até 84 kg. Mas no meio de tanta truculência, Adrian Jaoude, irmão do atleta olímpico Antoine Jaoude, tem um método bastante suave para se manter equilibrado, que inclui abraços a árvores e absorção de 'energia' de frutas e nuvens.
A terapia holística, um tratamento alternativo que reúne diversas técnicas consideradas não-convencionais, é a base da preparação espiritual do lutador. Tomar florais, fazer cromoterapia, homeopatia, massoterapia, acupuntura e massagem ayurvédica já são métodos rotineiros na vida de Adrian. "Uso florais para me manter focado e retirar a ansiedade, ainda mais no Pan, como estou treinando muito, rola muito estresse."
O lutador assume com orgulho o seu lado "alternativo". "Sempre fui muito esotérico e minha vida é muito espiritual. Tudo, para mim, tem um sentido. Às vezes estou andando na rua e cai uma folha do meu lado: é um sinal", relata. "Às vezes, quando estou muito tempo em um lugar fechado, saio, abraço uma árvore, olho pro céu e puxo energia de uma nuvem", completa.
| OS ALTERNATIVOS DO PAN |
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 Para se preparar para as lutas, Adrian utiliza várias técnicas como... |
 ...a meditação e a cromoterapia. "A luz laranja me dá mais vitalidade" |
 Fernando Reis, faz quiropraxia para melhorar no levantamento de peso |
 Pia Aragão alongando o cavalo Nirvana, que também faz quiropraxia |
 Para atirar bem, Nelson Fernandes não se vale apenas dos treinos... |
 ...seu método é o treinamento autógeno, espécie de auto-hipnose |
O paradoxo entre brutalidade da modalidade que pratica e a leveza do treinamento não pára por aí. Adrian também conta com os benefícios da ioga e da meditação para se preparar para o Pan. "É o que mais me ajuda". O "lutador-esotérico" também parece não se importar com as "brincadeirinhas" que esse seu comportamento costuma gerar.
Uma dessas situações aconteceu quando Adrian precisava perder 12 kg para disputar uma luta. "Eu não podia comer e estava com muita fome. Aí peguei uma maçã e resolvi que ia absorver a energia dela. Na mesma hora o pessoal ao meu redor começou a tirar sarro", conta o atleta, afirmando que o método funcionou.
O objetivo de todos esses subterfúgios é um só: a preparação para o Pan. "Muita gente não sabe que a luta tem dificuldades como qualquer outro esporte e ficam falando para mim: 'Ah, você vai para o Pan e vai ganhar o ouro', como se fosse fácil. A pressão é muita e todos esses complementos melhoram muito para mim".
Mas Adrian está longe de ser o único "atleta alternativo" dos que pretendem ir competir nos Jogos Pan-Americanos. Fernando Saraiva Reis, que apesar da pouca idade - 17 anos - é capaz de levantar cerca de 200 kg, também buscou uma forma pouco usual para se dar bem nas seletivas do halterofilismo: a quiropraxia, uma técnica norte-americana que consiste em manipulação da coluna vertebral em função do funcionamento do sistema nervoso.
"Quando há alguns desvios na coluna, o funcionamento do sistema nervoso acaba comprometido e os impulsos do cérebro não chegam como deveriam ao resto do corpo", afirma o australiano Jason Gilbert, que cuida da coluna de Fernando.
O caso que levou o pesista à clínica de Gilbert em São Paulo foi bem menos sutil do que um pequeno desvio. "Dei um mau jeito nas costas depois de um pulo em uma piscina". Lutando por uma vaga na seleção de levantamento do Pan, qualquer problema nas costas era uma ameaça grave, mas depois de um mês no tratamento, o atleta dá o atestado: "não sinto mais dores".
Mesmo assim, para garantir, sempre antes das competições Fernando visita o médico para fazer eventuais reparos. E, conforme afirma Gilbert, não é o único. O octocampeão mundial da classe Laser da vela Robert Scheidt também faz uso desse método: "O Robert vem aqui mensalmente. Ele se machuca muito quando compete no frio ou faz muitos movimentos bruscos."
Nicole Rombach também é quiroprata e um dos seus clientes é Nirvana Interagro. Entretanto, o nome, que invoca a tradição budista, não é de humano, mas sim de um cavalo. "Faço uma análise do movimento do animal sem o cavaleiro e depois vou fazendo os ajustes manuais na sua coluna", afirma Nicole, que há dez anos fez curso para tratar humanos, mas preferiu os eqüinos.
"Eles precisam de uma simetria muito boa para as provas de adestramento e a quiropraxia ajuda muito. Até em salto, em que às vezes falta força física no cavalo, depois de algumas sessões ele consegue pular", garante Nicole. Para os clientes regulares, basta uma sessão mensal e os "atletas do Pan" ainda têm acompanhamento especial nas competições. "Antes e depois da prova também faço massagem e alongamento nos cavalos", diz.
| CIRURGIÕES DO ALÉM |
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 Há 11 anos, com o medo de não conseguir recuperar o joelho direito de uma lesão, a jogadora de vôlei Ana Moser apelou para uma “cirurgia espiritual”. “Não me curou, mas meu quadro era de uma recuperação impossível e recuperei em quatro meses. Além disso, a cirurgia me fortaleceu física e espiritualmente”, conta a jogadora. A atacante, que se afirma “católica de formação”, também optou por fazer a cirurgia convencional: “Na época, fui movida pelo desespero, mas hoje admiro o espiritismo", revela. |
A dona, Pia Aragão, finalista no adestramento do Pan 2003 e classificada para a prova de 2007, aprova o tratamento. "O Nirvana fica muito mais equilibrado nas competições". Mesmo assim, o tratamento do cavalo é apenas de manutenção, "para os cavalos mais novos, a diferença é muito maior."
Como deve haver uma sintonia entre o cavalo e a amazona, Pia não deixa de lado o seu equilíbrio físico e energético e há sete anos é adepta do shiatsu, uma espécie de massagem japonesa. "Faço uma vez por semana e me ajuda muito, pois antes tinha dores na nuca e na coluna, agora não mais. O único problema é que a clínica é longe e na volta dá vontade de dormir ao volante", brinca.
Para o arqueiro Nelson Fernandes, que também está na batalha por uma vaga nos Jogos, o relaxamento vem de uma técnica bastante incomum, concebida por um psiquiatra e neurologista alemão depois da Segunda Guerra Mundial. O treinamento autógeno é uma espécie de auto-hipnose em que o paciente resolve suas deficiências durante o transe.
Nelson descreve o processo: "Eu me coloco em uma posição bem confortável e começo a pensar 'estou relaxado'. Meu corpo fica pesado e então começo a mentalizar um aquecimento na minha mão. Depois espalho essa temperatura pelo corpo todo e sinto um frescor na testa. Quando atinjo esse nível, repito por umas 20 vezes uma frase positiva, curta e de impacto para corrigir minha deficiência". Segundo ele, no dia da prova, basta repetir a frase de impacto que o resultado se fará presente. A frase de Nelson é "eu atiro com o braço da frente parado".
Praticante do treinamento autógene, de duas a três vezes por dia, há sete meses, Nelson afirma que a técnica tem dado resultado positivo. "Minha pontuação melhorou, mas não dá pra mensurar até onde a técnica ajuda e até onde sua melhora é papel dos treinamentos. O grande barato é que é eu mesmo posso fazer e que é econômico", conta, rindo.
A utilização de tratamentos pouco usuais atinge também os esportes coletivos. Na véspera da decisão do último Mundial feminino de vôlei, em dezembro do ano passado, a comissão técnica da seleção brasileira usou microcorrentes elétricas e acupuntura para recuperar atletas com lesões musculares. As jogadoras entraram em quadra sem problemas, mas acabaram perdendo a final para a Rússia por 3 sets a 2.