O nadador Tetsuo Okamoto foi o primeiro herói pan-americano do Brasil. Em 1951, na edição de estréia da competição, realizada em Buenos Aires, Okamoto ganhou duas medalhas de ouro e uma de prata. Mesmo assim, mais de 50 anos depois, a conquista ainda é vista com reserva pelo esportista. Com um orgulho muito maior, Okamoto, de 74 anos, lembra uma outra medalha: o bronze nos Jogos Olímpicos de Helsinque, em 1952.
DOIS MOMENTOS

Okamoto disputa prova no Pacaembu na década de 50

Nos anos 2000, ex-nadador comanda empresa em SP
"Essa (a medalha olímpica nos 1500 m livre) é a que conta de verdade. O resto é poesia. É na Olimpíada onde os bons realmente se encontram", disse Okamoto.
O atleta reconhece que sua missão no Pan de 1951 foi facilitada pela ausência dos principais atletas dos Estados Unidos. "Naquela época o Pan era realizado no começo do ano, então os principais nadadores americanos não vieram. Isso me deu uma oportunidade maior para ganhar as provas", lembrou.
Assim, Okamoto não encontrou muita dificuldade para vencer as provas de 400 m e 1500 m. Ele ainda ganhou em Buenos Aires uma terceira medalha, a prata no revezamento 4x200 m livre.
Segundo Okamoto, a organização do Pan-Americano na época era muito mambembe. A Vila onde os atletas estavam hospedados era um quartel militar localizado a cerca de 60 quilômetros de Buenos Aires. Além disso, a delegação brasileira sofreu muito com a comida local. "Era uma comida de quartel que a gente nem comia direito. Era uma gororoba que não dava para suportar", relata Okamoto.
No Pan de Buenos Aires, o Brasil ganhou cinco medalhas de ouro. Além das duas de Okamoto, o país levou para casa o título no pentatlo moderno, com Eric Tinoco Marques, o da classe star da vela, com Gastão Souza e Roberto Bueno, e o do salto triplo, com Adhemar Ferreira da Silva, que no ano seguinte também conquistou a prova nos Jogos Olímpicos de Helsinque.
"O Adhemar foi um grande amigo meu. Era uma pessoa cativante, um grande atleta. Eu o conheci no aeroporto, na hora da volta. O avião atrasou, acho que por problemas mecânicos, e nós varamos a noite lá. O Adhemar ficava cantando e tocando violão para passar o tempo", relembra.
Okamoto começou a nadar aos sete anos de idade, incentivado pelo pai para tentar curar a asma. A natação ajudou no tratamento da doença e abriu caminho para que ele se tornasse um esportista. Em 1950, uma visita ao Brasil da equipe japonesa recordista mundial de revezamento fez com que a carreira de Okamoto no esporte mudasse.
BRASILEIROS CAMPEÕES EM 51
Atletismo - Adhemar Ferreira da Silva - salto triplo
Natação - Tetsuo Okamoto -
400 m livre
Natação - Tetsuo Okamoto - 1500 m livre
Pentatlo moderno - Eric Tinoco Marques - Individual masculino
Vela - Gastão Souza e Roberto Bueno - classe Star
O nadador passou três meses acompanhando os japoneses e alterou completamente o seu programa de treinos. Os resultados não demoraram a aparecer: no próprio ano ele bateu o recorde sul-americano nos 1500 m. No ano seguinte, ganhou as três medalhas no Pan.
"O Pan me deu um ânimo, mas não me iludi porque sabia que não estava com os melhores índices do mundo. Ganhei o Pan de bobeira porque o time principal dos Estados Unidos não veio. No ano seguinte, me preparei para melhorar o meu tempo para ir bem na Olimpíada", disse.
A preparação para os Jogos de Helsinque, entretanto, foi prejudicada pelo rigoroso inverno de 1952. Cerca de 20 dias antes da Olimpíada, Okamoto deixou de treinar porque a piscina que usava em Marília tinha água a 14ºC.
"Fiquei com medo de pegar uma pneumonia e perder a boquinha de ir para a Finlândia. Minha meta era ir para lá para passear. Chegando em Helsinque, vi que minha prova só iria ser disputada no fim da Olimpíada. Como não tinha nada para fazer, comecei a treinar. Nas eliminatórias, vi que tinha baixado o meu tempo em 15 segundos. Eu me animei e parti para as cabeças na final", conta.
Da natação, restam apenas recortes de jornais. Nem as medalhas Okamoto possui. Elas foram doadas ao Yara Clube, de Marília.
"Na final, tentei acompanhar os bambambãs, mas eles me deixaram para trás. Nos últimos 50 metros, vi que tinha perdido a terceira colocação. Dei um último esforço e ganhei a medalha na batida de mãos. É a realização de um sonho que a gente fica acalentando. Mas para dizer a verdade eu fui um azarão", completa o primeiro medalhista olímpico do país na natação.
A estadia na Finlândia também foi marcada pela falta de organização, assim como aconteceu na Argentina. Os atletas da natação, por exemplo, utilizaram uniformes emprestados dos jogadores da seleção brasileira de futebol.
"Era um agasalho azul fedorento. Tirei fotografia com ele no pódio olímpico. Depois, quando voltei para o Brasil, os caras da CBD (Confederação Brasileira de Desportes) me ligaram pedindo o uniforme de volta", relata.
Okamoto afirma que as vitórias no Pan e a medalha olímpica não trouxeram nenhuma recompensa financeira. "Naquela época tinha a concepção de que o atleta era amador. A gente não podia ganhar nada. Quando voltei do Pan, a colônia japonesa queria me dar um automóvel, mas não pude aceitar porque senão não poderia mais competir."
Sem poder conciliar os estudos com a natação, Okamoto se mudou para os Estados Unidos, onde se formou em geologia e administração de empresas. Desde 1977, comanda a Hidrotécnica Okamoto, empresa especializada em perfuração de poços artesianos.