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31/08/2006 - 10h38

Formada às pressas, seleção de hóquei encara amadorismo no Pan

Fernanda Brambilla
Em São Paulo

As mulheres que quisessem disputar os Jogos Pan-Americanos do Rio de Janeiro, mesmo sem ter muita experiência esportiva, perderam uma grande oportunidade. Até 2004, os dirigentes do hóquei na grama estavam procurando atletas para disputar a modalidade no ano que vem. E grande parte das escolhidas nem sabia da existência do esporte.

SELEÇÃO FEMININA ENGATINHA

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Meninas do hóquei correm contra o tempo em Florianópolis...

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...e já sonham com medalha nos Jogos Pan-Americanos do Rio

A criação da seleção brasileira feminina, feita após visitas a escolas e universidades, foi necessária por causa de uma regra dos Jogos Pan-Americanos: a obrigação do país-sede disputar todas as modalidades.

Na missão desbravadora de achar meninas que jogassem hóquei, o jogador, diretor técnico da Confederação Brasileira de Hóquei na Grama e atual treinador do time feminino, Cláudio Rocha, deixou o Rio de Janeiro e começou do zero.

"No final de 2003, ainda morando no Rio, comecei a visitar algumas escolas em Florianópolis e conversava com professores de Educação Física", conta Rocha.

"Quando tinha uma boa aceitação, pedia para fazer uma aula extra após o horário da aula para as meninas que estivessem interessadas. A maioria nunca nem tinha ouvido falar no esporte, não tinham a menor idéia do que era hóquei, ainda mais na grama."

Uma delas foi Laís Oliveira Bernadino, de 17 anos. Sem nunca ter sequer ouvido falar no esporte, a estudante se interessou ao ouvir os fundamentos em uma das aulas dadas por Rocha.

"Eu nunca tinha visto alguém jogar, aqui (em Florianópolis) não tinha em clubes. Quando o Cláudio explicou, eu gostei e logo fui atrás para treinar", afirma a zagueira central da seleção.

Um ano e meio após a iniciação, Laís considera que as meninas evoluíram a passos largos. "No começo, a gente levava muitas lavadas. Mas com o tempo ficamos mais estáveis e passamos a manter um padrão nos jogos", orgulha-se a jogadora, lembrando um amistoso feito contra a seleção do Uruguai esse ano, que o Brasil perdeu por 2 a 1. "E foi páreo duro", assegura.

INSPIRAÇÃO NAS "LEONAS"
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Líderes na América do Sul, a seleção argentina de hóquei na grama é fonte de inspiração para a jovem equipe brasileira. As famosas "Leonas" já ganharam o status de celebridade e são adoradas pelos torcedores argentinos.

Medalhistas de ouro em Santo Domingo, e com dois bronzes nas últimas Olimpíadas, as hermanas são fonte de inspiração para as jovens brasileiras. "Elas são superiores", sentencia Gabriela.

"A gente fica reparando no jeito como elas tocam a bola, como se movimentam. Elas têm a manha do jogo."

"Já as vi jogando e elas são muito boas. Mas se formos enfrentá-las, vou pra cima delas, não quero nem saber. Elas que nos aguardem", avisa a zagueira Laís.
TUDO SOBRE O HÓQUEI NA GRAMA
Se depender da confiança do técnico, o Brasil já pode torcer por medalha. "No feminino, não há tanta diferença de níveis entre as seleções da América do Sul. A Argentina é a grande favorita, seguida por Chile e depois pode muito bem vir a gente", aposta.

No masculino, o trabalho de garimpagem foi menor. Afinal, o time já existia, apesar de não ter conseguido bons resultados nos últimos anos.

Para tentar mudar esta situação, desde março os 32 atletas se concentram em Florianópolis, onde treinam diariamente. Ainda longe do pódio, o Pan será a chance de desmistificar o esporte e apresentá-lo ao país.

"Não temos pretensões de ficar entre os três primeiros, ou de pensar em medalha. Isso ainda é um sonho distante", admite o técnico da seleção masculina, Paulo Costa.

Um dos grandes obstáculos do esporte são as ainda precárias condições para a prática. Sem um campo oficial, as seleções treinam em um local que é praticamente metade do tamanho de um campo de hóquei profissional.

Um dos destaques da equipe, o atacante Luis Felipe Réus, 20, é um dos poucos que tem familiaridade com o hóquei desde pequeno. Praticante desde os 8 anos, Réus deixou São Paulo em março para dedicar-se totalmente ao esporte.

Apostando em medalha no Pan, ele conta que é comum a confusão das pessoas com as diferentes modalidades do hóquei. "Tem gente que acha que é igual no gelo, e associa a um esporte violento. Já me perguntaram até se é a cavalo", lembra.

DESAFIANDO O AMADORISMO

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Campo de treino tem quase metade das medidas oficiais

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A postos para o jogo: seleção masculina estréia no Pan do Rio

Entre as grandes dificuldades do esporte, o zagueiro Eduardo de Oliveira Júnior destaca a dificuldade de se encontrar materiais para o jogo.

"Nossos tacos são importados, porque no Brasil não tem onde comprar", afirma o jogador de 21 anos. Feitos de madeira ou fibra de vidro, os tacos custam em média US$ 150.

Oliveira Júnior endossa os colegas quando o assunto é Pan. "A ansiedade é muito grande, porque queremos estrear bem e mostrar que, mesmo engatinhando, daremos muito trabalho aos grandes times no futuro."

A grande surpresa do time é o goleiro Leonardo Lopes Marafoni, de 21 anos, que pratica hóquei há menos de um ano. Acostumado a jogar no gol do futsal, Leo, como é conhecido, começou por acaso no hóquei, em novembro do ano passado.

"Estava estagiando em meu ex-colégio e estava acontecendo um campeonato de hóquei. Um dia, eles não tinham goleiro e me pediram pra jogar. Eu nunca tinha jogado antes", lembra.

O bom desempenho em seu primeiro jogo lhe valeu um lugar no time. Quatro meses depois, Leo deixou a família e a faculdade em Niterói, no Rio, e se juntou à seleção brasileira em Florianópolis.

"A grande dificuldade é ter intimidade com o equipamento todo, além do fato que, no hóquei, o goleiro nunca agarra a bola, só rebate", lamenta o atleta, que já acumula algumas marcas roxas da bola de cortiça.

Para o Pan, Leo tenta manter o pé no chão. "Se eu disser que vamos ficar entre os quatro primeiros, estaria mentindo. Estamos aprendendo ainda."