UOL Esporte - Pan 2007
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26/03/2007 - 09h00

Irmãs ciclistas largam tudo pelo Pan, mas tropeçam em burocracia

Fernanda Brambilla
Em São Paulo

Titulares absolutas da seleção de ciclismo de estrada do Pan, as irmãs Janildes e Clemilda Fernandes podem ter sua atuação ameaçada no Rio de Janeiro, vítimas da burocracia brasileira. Tudo porque concordaram em sair de suas equipes profissionais na Itália e treinar em casa para os Jogos, bancadas pelo governo do Estado de Goiás, onde são os ídolos locais.

JANILDES, A AZARADA
COB/Divulgação
No Rio, Janildes espera pôr fim à fama de azarada que conquistou depois da última edição do Pan.

A brasileira teve sua bicicleta extraviada no aeroporto de Santo Domingo, e correu com uma bicicleta emprestada e ainda assim levou a medalha de prata, superando o bronze de sua estréia em Winnipeg-99.

"Minhas bicicletas não vão de avião para o Rio de Janeiro de jeito nenhum, já estou combinando de enviá-las de carro até lá, não quero correr esse risco de novo", adianta a atleta. "Ah e vou aproveitar e mandar umas três, só de reserva. Vai que acontece mais alguma coisa..."
Tentadora, a proposta resumia a condição ideal de qualquer atleta: cerca de R$ 4 mil mensais de bolsa-auxílio durante todo o ano e tempo para se dedicar integralmente ao esporte, com a equipe nacional.

Contrato assinado, demissão acertada e um avião depois, a história é outra. Janildes e Clemilda desembarcaram no país na semana passada e mal sabem se um dia receberão o dinheiro.

"O governo nos ofereceu R$ 120 mil até o fim do ano para as despesas com equipamentos, mas assim que desembarcamos aqui, fui avisada de que dificilmente receberemos a quantia", conta Janildes, que deixou a equipe Michela/Fanini, do circuito profissional da Itália, por priorizar o Pan.

A Agência Goiana de Esporte e Lazer, órgão do governo daquele Estado, admitiu que, apesar do contrato fechado, o dinheiro ainda está em tramitação, e não há uma previsão de quando a verba será liberada.

Com a notícia do "calote", as irmãs tiveram que apelar para a "fama" regional que têm em Goiânia, e conseguiram fechar um acordo com uma empresa de derivados de petróleo. Ainda assim, o prejuízo não é inevitável.

"É como se estivéssemos com o salário reduzido à metade", diz Clemilda, que também conta com ajudas extras da CBC (Confederação Brasileira de Ciclismo) e do COB (Comitê Olímpico Brasileiro).

Para Janildes, assim como a falta do dinheiro, incomoda o aparente descaso das autoridades. "Quando a gente se destaca, o governo vem e quer lucrar em cima; faz festa, tira foto, chama a imprensa e promete o mundo. Aí, quando a gente acredita, cadê? Fui noticiada de que o dinheiro dificilmente sairia. Mas agora não posso voltar atrás", lamenta a ciclista medalhista de prata em Santo Domingo-03 e bronze em Winnipeg-99.

Clemilda, que se prepara para seu primeiro Pan, teme que a falta de recursos pese na hora da definição oficial da equipe brasileira. "Nossa decisão foi tomada sem dor ou culpa, tivemos total consciência de que faríamos de tudo pelo Pan, ainda que significasse deixar a Europa, e foi o que nós fizemos", conta a atleta, que acompanhou de longe a irmã triunfar nas duas últimas edições do torneio.

Além de Janildes e Clemilda, outra possível atração no Pan do Rio será a prima das irmãs, Uênia, que também está no Brasil se preparando para os Jogos. Uênia acompanhou as irmãs na debandada da Itália, e também deixou a Chirio Forno D'Asolo junto com Clemilda.

E, na torcida, as três atletas terão outros sete novos talentos do esporte, entre sobrinhos e agregados ao clã, que se espelham no sucesso das veteranas e se distribuem nas categorias infantil e até elite do ciclismo.

"Somos muito unidas, e queremos sempre ver os outros vencendo e melhorando. E a família Fernandes sempre dá um jeito de vencer", brinca Clemilda.
CLÃ FERNANDES
"Já estive muito perto de ir, mas minha irmã estava melhor. Eu torci por ela e comemorei a prata como se fosse minha. Agora, quero tentar mais uma. O duro vai ser fazer isso pelo próprio bolso", desabafa a ciclista.

Na teoria, a situação não é tão grave porque tanto Janildes como Clemilda têm vagas asseguradas nos Jogos. Segundo o técnico da seleção, Mauro Ribeiro, as irmãs só precisam manter o ritmo que vêm desempenhando desde o ano passado, e cuidar de eventuais lesões. Adversárias mesmo, não têm nenhuma.

"Enquanto um atleta nacional fez cinco competições até agora no ano, um ciclista de fora já está no seu 30º torneio, a diferença é muito grande", avalia o treinador. "As irmãs Fernandes têm experiência no exterior, não sentem pressão em uma prova como a do Pan, pois estão acostumadas a disputas muito mais cansativas e acirradas."

Segundo Clemilda, a decisão de deixar as equipes foi consensual, mas perturbou os dirigentes italianos. Em julho, em datas próximas à da prova de ciclismo do Rio, acontece a Volta da Itália, uma das principais competições do circuito mundial da UCI (União Internacional de Ciclismo).

"Quando disse que minha prioridade era o Rio, eles (dirigentes da Chirio Forno D'Asolo, ex-equipe da brasileira) cresceram pra cima de mim, mas eu não quis nem saber", lembra a atleta. "Não tem problema; no ano que vem, voltamos."