Sentado em uma cadeira com almofadas, um sueco com um cachimbo na mão e tomando café analisa cavalos e cavaleiros se apresentarem na Sociedade Hípica Paulista. Eric Lette é o técnico contratado pela Confederação de Hipismo para selecionar os melhores conjuntos no adestramento - uma das três provas do esporte que acontecem no Pan.
| FERRADURAS, CAFÉ E SOFÁS |
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 Cavaleiro tem até de tirar a cartola na exibição para os juízes, isolados em cabine |
 Conjunto, formado por homem e cavalo, faz os exercícios obrigatórios e outros livres |
 O café é servido para os espectadores, junto com sucos, frutas, pães e doces |
 Familiares, fãs e donos de cavalos acompanham prova sentado em sofás |
 Pitando seu cachimbo, o técnico sueco Eric Lette analisa os ginetes brasileiros |
 Com cartola, fraque e luvas brancas, Pia Aragão é uma das escolhidas de Lette |
 Ex-peão, Rogério Clementino torce por suas notas observando monitor de plasma |
Bem diferente do estereótipo dos técnicos escandalosos de futebol, vôlei e basquete, o sueco Lette se mostra um treinador recatado e pensativo. Um típico técnico de um esporte aristocrático. Uma pitada no cachimbo, um gole no café e ele definiu, no último domingo, os três que vão ao Pan do Rio pelo Brasil: Jorge Rocha, Pia Aragão e Renata Rabello.
A pompa da competição aumenta ainda mais ao saber que Pia é uma das convocadas. Nascida na Suécia, país sinônimo de qualidade de vida, ela mudou-se para o Brasil para competir pelo adestramento, deixando a profissão de engenheira que tinha por lá. No Pan de 2003, teve que se naturalizar brasileira e hoje, aos 48 anos, ficou pelo país. "Vamos em busca do bronze", diz ela.
O diretor técnico da seleta modalidade, o coronel Salim Nigri confirma a informação da amazona. A medalha de bronze por equipe significaria uma classificação para os Jogos Olímpicos de Pequim, no ano que vem.
Além do adestramento, o salto e o CCE (Concurso Completo de Equitação) são as outras modalidades do hipismo. O primeiro é famoso no Brasil devido à dupla Baloubet du Rouet e Rodrigo Pessoa, ouro olímpico em Atenas-2004. Já o CCE é uma espécie de enduro, uma prova brusca comparada ao sofisticado e garboso adestramento, com os cavalos penteados, com crinas trançadas e passos coreografados. Todos seus adeptos, modestamente, afirmam que o adestramento é a base de tudo no hipismo, afinal, dominar a força do animal é o essencial da modalidade.
Antes da definição da equipe do Pan, sete conjuntos pré-convocados se apresentaram no Amil Dressage Cup (competição que abrigou a seletiva brasileira), com espectadores, muito bem acomodados, acompanhando a prova.
O lugar faz inveja a tudo que o Comitê Organizador do Pan pretende fazer nos estádios e ginásios do Rio. Mesmo o Estatuto do Torcedor seguido de ponta a ponta, dificilmente terão um nível de conforto como o da Hípica: música ambiente, sofás colocados em lugar coberto e comida à vontade, servidas por garçons do próprio clube, e um serviço de buffet. Apesar do final de semana nublado, a vista para a área de competição era perfeita. Entre músicas de Celine Dion e Ricky Martin, os "torcedores" tomaram um café da manhã reforçado enquanto os conjuntos desfilavam e, ao final, almoçaram estrogonofe.
Um dos garçons, "seu" Pereira se assustou ao saber que o esporte ali praticado, com tanta pompa e luxo, iria estar no Pan. "Tem isso no Pan, é?". Admirado, ainda pergunta ao repórter: "Mas os cavalos já não são adestrados?"
Para o esporte o que vale é o nível de adestramento do cavalo. Fora os exercícios obrigatórios, o conjunto também possui uma apresentação livre.
Além do ambiente luxuoso para os espectadores, o local da apresentação dos conjuntos dá a sensação de riqueza que impera no evento. Cavaleiros de fraque e cartola levam seus cavalos com classe e postura. Ao final, a cartola é retirada da cabeça para cumprimentar os juízes.
Tanto luxo e glamour não são baratos. Em média, um cavalo consome 5,5kg de comida por dia e gasta R$ 1.000 em trinta dias. Além da alimentação, o criador se responsabiliza pelos treinamentos e veterinários. O gasto total pode girar em torno de R$ 2.000 por mês só para cuidados com o pocotó.
O esporte, portanto, é praticado por pessoas com condições financeiras favoráveis. Um deles é Jorge Rocha, um dos principais executivos do patrocinador da seletiva, que garantiu sua vaga mesmo sem se apresentar, por causa de seu cavalo machucado. A expectativa é que ele esteja no Rio para a disputa. Mas um compromisso pode tirá-lo do Pan.
Aí, neste caso, os reservas podem entrar em ação. Rogério da Silva Clementino e Leandro Aparecido da Silva, são as exceções no meio luxuoso. Os dois têm origem mais humilde e conseguem uma ajuda dos donos de alguns haras para treinar. "Eu montava como peão de rodeio em Mato Grosso. Vim trabalhar em São Paulo, e o Leandro foi meu primeiro técnico", afirmou Clementino, que hoje mora em Araçoiaba da Serra (SP) no haras de José Victor Oliva, empresário da noite e ex-marido da jogadora de basquete Hortência. "No começo foi difícil se inserir no meio, mas quando a gente se dedica e trabalha com o coração dá certo", conclui o cavaleiro de 25 anos, que em 2006 foi o campeão brasileiro sênior.
Outra duas reservas, Luiza Tavares e Micheline Schulze têm condições mais próximas da realidade dos outros cavaleiros. As duas possuem haras na família e contam com o apoio dos parentes para praticar. Luiza tem 15 anos apenas e é a revelação na modalidade. "Fiz seis anos de salto e foi para o adestramento há dois anos para corrigir minha postura. Depois, não sai mais", comenta.
Estudando no primeiro ano do ensino médio em um colégio integral em São Paulo, Luiza treina de terça a domingo uma hora por dia e se diz satisfeita com o resultado conseguido até então. "Ao todo, só fiz quatro provas como sênior. Estando entre os sete da seleção está muito bom", completa.