UOL Esporte - Pan 2007
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18/05/2007 - 15h50

Confederação de Esgrima impõe corrida como eliminatória no Pan

Felipe Mendes
Em São Paulo

A pista de esgrima tem 14 metros, mas os atletas têm corrido até 3.000 metros para poder se classificar para o Pan. Os movimentos durante uma competição são de explosão muscular, mas o que se tem trabalhado é a resistência. Até a técnica dos movimentos tem ficado de lado para que os atletas treinem corrida.

Arquivo Pessoal
Mesmo contra o teste de corrida, Athos Scwantes disputou e conseguiu se classificar
O motivo é simples. Desde 2002, a Confederação Brasileira de Esgrima (CBE) adotou um processo nada tradicional para selecionar seus atletas: a corrida. É isso mesmo, para integrar a seleção brasileira é condição essencial que o esgrimista corra, em 12 minutos, uma distância determinada: 3 km para homens e 2,6 km para as mulheres. Caso contrário está fora.

Os testes físicos, assim chamados pela CBE, ou simplesmente "corrida", como batizaram os atletas já estão acontecendo pelos estados. Nesta sexta-feira, os esgrimistas cariocas deram início à bateria que deve durar até segunda-feira. Os irmãos Athos e Ivan Scwantes, Clarice Menezes e Fernando Scavasin foram os primeiros aprovados.

Mas o histórico não tem sido tão bom. Por conta das eliminações, desde que foi adotada, a medida tem sido alvo de crítica por parte dos atletas, mesmo temendo repressões por parte dos dirigentes. É o que afirma Silvia Rothfeld, a segunda colocada no ranking do florete feminino: "Grande parte dos atletas é contra isso, mas temos medo de falar porque somos boicotadas. Muita gente já disse para não darmos mais declarações a respeito. Só que não concordo que atletas sejam desclassificados desta forma. Não é o nosso esporte".

Silvia, entretanto, disse ter aceitado a imposição do fato e está se preparando desde agosto de 2006: "Estou com 35 anos, tentando meu último Pan e aceitei que vou ter que correr. Estou preparada e sei que vou conseguir, mas sei que muitos atletas não vão".

O diretor técnico da modalidade, Eduardo Carvalho prefere não opinar a respeito: "É uma determinação do presidente da confederação, e nós executamos como está previsto. Se é o mais adequado ou não, isso é outra discussão".

Obviamente, Silvia não considera adequado. Mesmo assim, a esgrimista paga, do próprio bolso, um técnico de triatletas além de aproveitar os serviços de nutricionista e psicólogo oferecidos pelo clube no qual treina. Tudo isso para conseguir dar as cinco voltas na pista de atletismo no tempo determinado. Com tanta preparação, seria de se esperar que ela estivesse segura, mas não está: "Mesmo assim ainda fica uma sombra te perseguindo. E se no dia eu não acordar bem?".

Esta sombra também anda incomodando a primeira colocada do ranking do sabre feminino, Deise Fanci, que ao falar ao UOL Esporte se encontrava durante uma sessão de fisioterapia, além de estar em meio a um dilema: "Estou pensando se vou para jogar mal ou não vou competir", confessa a atleta.

O motivo? "Estou com o joelho estourado por conta das corridas. Se eu conseguir me superar e chegar ao Pan, não estarei tão bem preparada para a esgrima. Poderia estar me preparando para jogar, mas estou me preparando para correr", lamenta Deise.

Em muitas ocasiões, a "corrida eliminatória" tem prejudicado os resultados da própria seleção brasileira. A edição dos Jogos de 2003 foi um desses casos. Desclassificado por se recusar a correr, Lucio Goldani, o segundo colocado do ranking de espada, não foi competir no Pan de Santo Domingo.

Em seu lugar foi o 14º colocado, Mateus Didonet, que acabou sendo eliminado rapidamente e, hoje em dia, não pratica mais o esporte. Sobre o assunto, Lucio lembra: "Meu negócio era esgrima, não me sinto motivado para treinar outro esporte". Mesmo assim ele garante que dessa vez não deixará passar a oportunidade de disputar um Pan.

Outra prejudicada em 2003 foi Caroline Ribeiro, competidora na categoria espada: "Fomos pegas de surpresa e, na época, eu não treinava corrida." Resultado: por dez metros, Caroline foi cortada da competição continental.

As eliminações sumárias não param por aí. Em 2006, no Campeonato Sul-Americano e no Campeonato Pan-Americano de esgrima, a seleção brasileira competiu sem equipe de florete e de sabre feminino, pois as atletas resolveram não correr. "Pensamos que o COB pressionaria a confederação, mas acabamos fora", conta Silvia, uma das eliminadas.

Para Athos Scwantes, recém-aprovado no teste físico, a corrida ajuda na preparação, mas não deveria ser eliminatória. "Concordo que os atletas tenham que estar bem preparados fisicamente, mas não que seja eliminatório. Acho que até melhorei meu físico por conta da corrida, mas dessa forma o ranking é desvalorizado", afirma.

O técnico de Deise, Chicca Pierluigi, também está ao lado dos combatentes da "morte súbita" na esgrima: "É inútil para os esgrimistas. É a mesma coisa que pedir para um nadador correr para poder competir. Está tudo mundo se estourando para conseguir e não estão treinando esgrima." Irritado com a situação, Pierluigi ironiza: "Gostaria de saber: a ginasta Daiane dos Santos tem que correr 2.500 metros para poder ir para o Pan?".